Plano de armamento da Venezuela põe Brasil em alerta
Agência Estado
08:13 09/07
O
presidente da Venezuela, Hugo Chávez, tem um sólido e
bem estruturado plano de modernização das Forças
Armadas, projeto de longo prazo que ultrapassa a compra de 22 caças
Sukhoi (Su-30), 30 helicópteros e 100 mil fuzis Ak-103,
russos. Ele quer ter ao menos 150 supersônicos, 10 a 15
submarinos lançadores de mísseis, 138 navios, radares,
fábricas de produção de sistemas de defesa e, de
quebra, alguma capacidade nuclear. É para gerar energia
elétrica, garantiu numa apresentação na Europa.
O parceiro favorito nesse campo é o Brasil. Há um ano
houve uma tentativa de acordo binacional. Não funcionou.
Mas
Chávez é um cliente que vai às compras com
sabedoria. "O programa não é teórico nem
confuso - é objetivo e claro", adverte a pesquisadora
espanhola Catalina Perdomo, cenarista da Organização do
Tratado do Atlântico Norte (Otan) e autora do estudo "Mudanças
na Doutrina Militar Venezuelana". O pacote militar vai custar
cerca de US$ 60 bilhões, metade do valor médio de tudo
o que o país produz em um ano. Mas Chávez acha que no
fim, por volta de 2020, terá valido a pena: se tudo der certo,
ele será então o líder da mais poderosa potência
militar da América do Sul.
Essa condição
hoje é do complexo militar do Brasil. Um estudo da
inteligência da defesa, revelado pelo Estado há duas
semanas, alerta para a necessidade de investimentos na revitalização
das três Forças "para evitar a superação
e a perda do poder dissuasivo". O texto cita especificamente
Venezuela e Chile. Diz que ambos sabem exatamente o tamanho dos
recursos que terão a longo prazo, enquanto os comandos
brasileiros desconhecem os prováveis valores do orçamento
para 2007.
Chávez conta com a valorização
do petróleo para financiar o programa. Quando começou a
negociar o fornecimento de novos equipamentos, o barril era cotado a
US$ 40. Já passou dos US$ 70 e pode chegar a US$ 100 ou US$
110 a qualquer momento, por conta da intensificação de
crises como a dos mísseis da Coréia do Norte, do
programa atômico do Irã, ou da situação
palestino-israelense. A Venezuela é o terceiro maior produtor
entre integrantes da Opep.
A seu favor, Chávez tem o
fator tempo. Com o Parlamento e a Suprema Corte sob seu controle
político, deve promover alterações na
Constituição que o transformarão em uma espécie
de presidente vitalício, ou quase isso, com mandato até
2031. "Ele terá 77 anos. Todos os seus colegas, de Lula
ao americano George W. Bush, terão passado à História.
Estará no poder a terceira geração de sucessores
dos atuais chefes de Estado", analisa um ex-diplomata de Caracas
que vive na Europa.
O ex-embaixador não pode ser
identificado. Teme represálias contra parentes e amigos,
segundo ele vigiados pela violenta polícia política
chavista. Ele e outro ex-funcionário, ligado ao gabinete da
Presidência até 2003, montaram um centro de estudos
agregado à Universidade da Califórnia. Semana passada
detectaram oito missões de prospecção e compras
em visita a fornecedores de diversas partes do mundo. "Russos e
chineses ocupam posição de destaque, são velhos
amigos. Mas há novas faces - ucranianos, franceses,
israelenses, belgas, italianos...", sustenta o diplomata.
(Último Segundo, http://ultimosegundo.ig.com.br/materias/brasil/2443501-2444000/2443583/2443583_1.xml, 09/07/2006)