Brasil
Intocável
sob suspeita
Pioneiro
da era dos promotores
heróis, José Carlos Blat é
investigado
por seus pares
Victor
Martino
Os seis anos em que atuou no
grupo de elite dos promotores paulistas fizeram de José Carlos
Blat uma celebridade. Suas ações, filmadas por equipes
de TV, tinham tudo o que um telespectador podia esperar: revólver
em punho, prisões em flagrante e muito material apreendido.
Pode-se dizer que, ao trocar a mesa de escritório pela ação,
foi o pioneiro da era dos promotores heróis – fenômeno
que, no Brasil, só se tornou possível quando a
Constituição de 1988 deu ao Ministério Público
poderes quase absolutos de investigação. Blat ficou
famoso ao investigar o caso da Favela Naval, em 1997, em que
policiais militares foram filmados agredindo pessoas na periferia de
São Paulo. Em 1998, entrou para o Grupo de Atuação
Especial e Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), do qual foi
afastado em 2004, em circunstâncias confusas. A Corregedoria o
investigava por uma tentativa de livrar-se de multas no Detran e por
um episódio estranho em que um carro oficial do Gaeco foi
apreendido fora da cidade de São Paulo – com um
criminoso ao volante. No fim de 2004, a Corregedoria do Ministério
Público decidiu levar essas investigações a
fundo. Ouviu o depoimento de onze pessoas, entre elas quatro
promotores. Com base nesses depoimentos e em documentos levantados, a
Corregedoria disse ter encontrado indícios de crimes mais
graves.
As primeiras investigações contra Blat
colocaram em xeque suas ações contra desmanches de
veículos roubados. Promotores afirmaram que uma seguradora de
veículos indicava quais locais deveriam ser invadidos e quem
deveria ser preso. Nessas ações três funcionários
dessa seguradora apresentavam-se como peritos. Todo o estoque era
apreendido e, em vez de seguir para a polícia, a maior parte
das peças era desviada para um depósito de terceiros.
Na última sexta-feira, Blat disse a VEJA que os funcionários
trabalhavam para o sindicato das seguradoras e que tinham
participação marginal nas operações. Ele
nega que a carga era depois desviada.
Blat também foi
acusado de proteger o contrabandista chinês Law Kin Chong,
preso em São Paulo. Em 2002, quando participou de uma
força-tarefa antipirataria, ele teria dirigido o foco da
investigação somente contra os pequenos
contrabandistas, deixando Law livre para atuar. Uma advogada que
trabalhava para o contrabandista visitava Blat periodicamente no
Gaeco. Em resposta, o promotor diz que as operações
contra Law foram executadas em tempo oportuno. Quanto à
advogada, ela alega que recebia pessoas em funções como
a dela para obter informações.
As investigações
descobriram ainda que Blat mora num apartamento de Alfredo Parisi,
que já foi condenado por bancar o jogo do bicho. Blat admite
que, antes de se tornar promotor, foi sócio do filho de Ivo
Noal, outro banqueiro do bicho, numa loja de conveniência –
o que não é crime. Quanto ao apartamento de Parisi, diz
tê-lo alugado sem saber a identidade do proprietário.
Mostrou à reportagem de VEJA recibos do pagamento dos aluguéis
e do condomínio.
Sobre Blat pesam também as
seguintes suspeitas: usar veículos e pessoal do Gaeco para
interesses pessoais, negociar com um delegado a liberação
de seu pai, que teria sido preso em flagrante por armazenar bens
roubados, abuso de autoridade, truculência e suspeita de
enriquecimento ilícito.
Os bens do promotor também
entraram na mira da Corregedoria. Segundo os depoimentos, Blat
comprou de uma só tacada dois carros importados e blindados. A
Corregedoria recebeu uma denúncia de que um apartamento no
Guarujá também seria de Blat. Mais tarde, descobriu-se
que, na verdade, estava em nome do ex-sogro do promotor, René
Pereira de Carvalho, um procurador de Justiça. Carvalho tentou
pagar 200 000 reais em dinheiro vivo, mas, diante da recusa da
vendedora, usou cheques administrativos. A origem dos recursos não
foi esclarecida. Por isso foi aberto um inquérito específico
sobre seu patrimônio.
Investigações mais
profundas seriam necessárias para comprovar os crimes. Porém,
em vez de promover quebras de sigilo para esclarecer por completo as
suspeitas, o atual procurador-geral de Justiça, Rodrigo Pinho,
recomendou o arquivamento de tudo. Essa recomendação
não vingou no caso do sogro de Blat. O Conselho Superior do MP
paulista reabriu o caso e aguarda a quebra de sigilo bancário
para avançar nas investigações. Blat, ao
contrário de seu sogro, poderá escapar das
investigações. Isso se o Tribunal de Justiça
aceitar o arquivamento.
O procurador de Justiça
Antonio Ferreira Pinto, que atuou nas investigações
sobre Blat, se diz indignado com o pedido de arquivamento. "É
um contraste com o tratamento que o Ministério Público
dá a seus investigados. Se o caso fosse para os tribunais,
defesa e acusação poderiam se confrontar para chegar à
verdade. Mas o Ministério Público preferiu jogar uma pá
de cal em cima de tudo o que foi levantado."
Pinho alega
não ter visto indício de crimes tanto na investigação
de Blat quanto na de Carvalho. Afirma que, se há desvios
administrativos, não cabe a ele investigá-los. Pinho
culpa interesses eleitorais pelo vazamento das investigações
– candidato à reeleição, ele disputa o
cargo com o corregedor responsável pela investigação
de Blat. É possível que Pinho esteja correto, e que
nenhum crime tenha sido cometido. No entanto, por muito menos,
políticos e empresários são duramente
investigados pelo Ministério Público paulista – é
o caso do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Enquanto seu destino
no Ministério Público não é definido,
Blat já traça outros planos. Disse a VEJA: "Eu me
desiludi com o Ministério Público. Estou pensando em me
candidatar a deputado federal".
(VEJA, Edição 1943, 15/02/2006, p. 52)
