MP-SP livra Lembo de investigação por acordo e quer pacote anti-PCC


Edson Monteiro

O procurador-geral de Justiça de São Paulo, Rodrigo Pinho, afirmou, na tarde desta terça-feira (16/5), que não vai investigar o governo estadual pela suposta negociação que teria promovido com as lideranças da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) para encerrar os ataques e rebeliões.

Pinho anunciou também um pacote de medidas para combater o PCC que inclui obrigar as operadoras de celular a garantir o bloqueio dos sinais nos presídios e alterações para endurecer a legislação penal.

Pinho afirmou que esteve hoje com o governador Cláudio Lembo (PFL) e que este lhe garantiu “peremptoriamente” não ter havido negociação. Segundo Pinho, "não há indícios" que justifiquem a abertura de um procedimento. Questionado se as reportagens publicadas pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo não seriam esses indícios que faltavam, Pinho disse que poderá ouvir as pessoas citadas como tendo sido as negociadoras.

Um coronel, um delegado e um corregedor teriam participado da negociação, ocorrida ontem, com o líder do PCC Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, horas antes de o governo do Estado anunciar o fim das rebeliões e de cessarem os ataques às forças de segurança, bancos e ônibus. A Secretaria da Administração Penitenciária negou que tivesse ocorrido a negociação.

O procurador-geral negou que o pacote para combater o crime organizado tenha vindo tarde, motivado apenas pelos mais de 200 ataques e 100 mortes ocorridos desde sexta-feira.


Celular

Segundo Pinho, o promotor Luís Fernando Rodrigues Pinto Júnior instaurou hoje um inquérito civil, e as operadoras de celular serão chamadas para uma reunião, com o objetivo de ser firmado um TAC (termo de ajustamento de conduta).

Se não houver acordo, será proposta uma ação civil pública, com pedido de liminar, para que as empresas sejam obrigadas a fornecer ao Estado os meios necessários a bloquear o sinal nos presídios sempre que as companhias fizerem modificações na tecnologia usada. Atualmente o governo paulista encontra dificuldades de acompanhar o ritmo de atualização tecnológica das empresas e não consegue manter os aparelhos necessários para o bloqueio dos sinais nos presídios


Aperto na legislação penal

O procurador-geral de Justiça anunciou também que enviou ao senador Romeu Tuma cinco propostas, discutidas hoje com Lembo, para endurecer o combate ao crime organizado:

1)Transformar em falta grave o porte de celular dentro de presídios (Pinho considerou equivocada a decisão do Superior Tribunal de Justiça que não vê o porte como falta grave);

2)Pena mínima de 20 anos para quem matar um agente do Estado (policial, promotor, juiz, guarda-civil etc.);

3)Nova qualificadora para formação de quadrilha, que poderá prever a prática de terrorismo. Nesse caso, a pena mínina, que hoje varia de um a dois anos, conforme o emprego ou não de arma de fogo, passaria a ser mínima de 10 anos;

4)Aperto na legislação do RDD (regime disciplinar diferenciado), em que o preso poderia permanecer indenifinidamente sob o regime, desde que comprovada sua ligação ao crime organizado. Hoje, o preso só pode ficar em RDD por um ano, prazo que pode ser renovável por mais um ano. Questionado pelo fato de que diversas entidades, como o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça, reprovarem o RDD, Pinho justificou sua proposta afirmando que o regime de carcere-duro, aliado à delação premiada, foram fundamentais para a Itália combater a máfia e as Brigadas Vermelhas);

5)A normatização federal da vídeoconferencia, que já é adotada no Estado, por meio de lei estadual, e que evita a transferência de presos para julgamento.

Segundo Rodrigo Pinho, as propostas devem integrar os debates iniciados nesta terça-feira no Senado para endurecer a legislação penal.


(Ultima Instância, http://ultimainstancia.uol.com.br/noticia/27935.shtml, 16/05/2006)