Quem manda no Brasil?
O Supremo Tribunal Federal (STF)
deverá decidir se o Código de Defesa do Consumidor
(CDC) se aplica ou não às instituições
bancárias. O julgamento está parado há mais de
três anos -mais exatamente, desde abril de 2002-, porque Nelson
Jobim, atual presidente do STF, então ministro deste órgão,
pediu vistas ao processo. Justamente quando os dois primeiros votos
eram contra a Ação Direta de Inconstitucionalidade nº
2.591, movida pela Confederação Nacional do Sistema
Financeiro (Consif).
Ou seja, o ilustre presidente do STF talvez
tenha evitado a vitória dos consumidores, do CDC, contra os
interesses dos bancos no Brasil, que lucram bilhões de reais,
que prestam serviços questionáveis e que passam por
cima dos direitos mais elementares dos correntistas.
O julgamento,
previsto para o dia 10 deste mês, saiu da pauta do STF e segue
sem data para voltar a plenário.
Só então
saberemos quem manda no Brasil. Pois o CDC foi votado no Congresso
Nacional e sancionado pelo presidente da República. E lá
está claro que a relação correntista-banco
configura, sim, relação de consumo. Se o STF aprovar a
Adin dos bancos contra os consumidores, pode mudar o nome do país
para "Brasil dos Bancos".
Por que os bancos fazem de
tudo para não ser vinculados ao CDC? Porque sabem que isso
implicaria sanções para práticas como cobranças
indevidas, falhas em transações eletrônicas,
inclusão indevida do nome do cliente no Serasa, imposições
de cláusulas contratuais abusivas, envio de produtos sem
prévia solicitação, juros abusivos ou devolução
indevida de cheques.
Com a aplicação do código,
os bancos seriam (espera-se que o sejam) obrigados a devolver em
dobro as cobranças indevidas, a conceder descontos na
liquidação antecipada de financiamentos e a garantir
informações prévias de contratos de prestação
de serviços.
Não há dúvida de que
a vulnerabilidade do consumidor é ainda maior, quando se trata
do sistema financeiro, comparada a de outras relações
de consumo, porque nas instituições financeiras
predominam tarifas bancárias irreais, juros extorsivos,
práticas abusivas e atendimento de má
qualidade.
Vivemos um momento por demais delicado na política
brasileira. Há uma sucessão de denúncias de
caixa 2, de apropriação do patrimônio público
de parte de governantes e de seus prepostos, de supostas
contribuições de governantes estrangeiros à
campanha presidencial, em meio a múltiplas comissões
parlamentares de inquérito, e muito mais. Não é
hora de decepcionar novamente os cidadãos brasileiros.
A
democracia pressupõe que governantes, legisladores e
magistrados representem o povo em suas decisões. Exatamente o
oposto do que vem ocorrendo no Brasil. Por isso, não é
exagero apelar ao bom senso. Senhores ministros do STF: os
brasileiros precisam acreditar em alguma coisa. Saber que a Justiça
não se dobra aos poderosos de plantão, ou àqueles
que detêm o poder financeiro. Senhores consumidores:
manifestem-se, por e-mail, aos ministros do STF, pelo respeito ao
Código de Defesa do Consumidor. O e-mail para contato é:
mjobim@stf.gov.br.
MARIA
INÊS DOLCI, E-mail:
midolci@yahoo.com.br
(Folha de S. Paulo, Folha
Cotidiano, 08/11/2005)
