Cidade aterrorizada
Ataques podem ser caracterizados como terrorismo
por
Claudio Julio Tognolli
Os ataques supostamente promovidos pelo
PCC — Primeiro Comando da Capital devem ser enquadrados como
crimes de terrorismo. A opinião é de uma das maiores
autoridades brasileiras em combate ao crime organizado, a procuradora
regional da República Janice Agostinho Barreto
Ascari.
Janice Ascari — que se notabilizou por ter
investigado e denunciado o juiz Nicolau dos Santos Neto e também
policiais federais e juízes acusados de venda de sentenças,
segundo as denúncias da Operação Anaconda —
desabafa que em sua carreira de combate ao crime organizado jamais
havia pensado tão claramente na aplicação da lei
que prevê punição ao terrorismo. “Sim,
esses ataques são ataques terroristas. Esse tipo de agremiação
se mostrou capitalizado, organizado”, avalia.
Janice
Ascari ressalta que “o Marcola revelou que nada poderia fazer
para conter esse caos porque ‘a ordem já havia sido
dada’. Para mim, isso é terrorismo puro. Eles agem
assim, têm um comando, um núcleo financeiro bem
estruturado. Os bandidos pagam dízimo, agem como uma firma.
Isso é terrorismo puro”.
A procuradora salienta
que os tribunais locais erram em seguir a determinação
do Supremo Tribunal Federal, que “disse que se pode aplicar
progressão de regime para esse tipo de crime hediondo”.
Janice é taxativa: “Estamos falando de terrorismo, não
se pode reduzir um terço na pena dessas pessoas do PCC. É
um caso que deve ir para o MPF. É um caso de competência
federal”.
Francisco Carlos Garisto, presidente da
Federação Nacional dos Policiais Federais, concorda com
Janice Ascari. “Se fosse no Iraque a mesma situação
não seria terrorismo, com 70 ataques e meia centena de mortos
em dois dias? Se fosse um grupo estrangeiro agindo com um nome
diferente, e matando mais de 50 inocentes, não seria
terrorismo? Claro que sim. Então a situação em
São Paulo é de terrorismo”.
O coronel
Ubiratan Guimarães, deputado estadual acusado de
comandar o chamado Massacre do Carandiru, disse a mesma coisa à
revista Consultor Jurídico. “Sem dúvida
são ataques terroristas. São iguaizinhos aos ataques de
Carlos Lamarca, de Marighella. Só me lembro de bombeiro ter
sido atacado quando da guerrilha urbana, em 1969, quando atacaram o
Cebe dos Bombeiros em Barro Branco, na Zona Norte de São
Paulo, quando vitimaram um bombeiro. Nossas autoridades afrouxaram a
disciplina, deram benesses”.
Guimarães apontou o
quer chama de benesses. “Sabia que mês passado esses
presos falaram que estavam achando o uniforme amarelo feio e pediram
para trocar pelo azul? Sabia que a secretaria de administração
penitenciária atendeu a pedidos de presos e vai dar, para
verem a Copa da Alemanha, 30 tevês de tela plana? Bandido só
se recolhe quando vê força maior do que a dele. Todo
mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer. Eles só
vão parar quando um tombar, meu caro. A tropa da PM deveria
estar toda na rua, não apenas defendendo suas bases. São
Paulo tem ótimos policiais, bom treinamento, mas precisa de
determinação. Vencemos a Revolução de
1932, não? Com bandido tem de jogar truco: mostrar força,
se não eles pagam para ver. Estão pagando,
aliás”.
Revista Consultor
Jurídico,
15 de maio de 2006
(Consultor
Jurídico,
http://conjur.estadao.com.br/static/text/44379,1,
15/05/2006)
