História da Previdência
Enviado por: Juljan
Czapski*
Caro Luis Nassif,
Tenho acompanhado
com interesse seus comentários sobre os números da
Previdência. Há muitos anos tenho batido na tecla dos
fatos que contribuíram para chegarmos à situação
atual. Reproduzo abaixo uma carta que escrevi há pouco mais de
um ano para um jornal, que não foi publicada ou comentada, e
que traz alguns fatos ainda não levantados na atual
discussão.
Estou com mais de 80 anos e tenho contato
com a Previdência há mais de 50, desde o tempo dos
“Institutos de Previdência”, alguns mais ricos,
outros mais pobres, e com diversos graus de prestação
de serviços. Mas todos eles ainda não pagavam
aposentadoria, pois a grande leva de trabalhadores só recebeu
“carteira assinada” a partir da 2.ª metade da década
de 1950 e principalmente nos anos 1960. Teriam direito à
aposentadoria a partir da 2.ª parte da década de 1980,
com grande incremento nos anos 1990.
O caixa portanto estava
alto. Mas o Governo, em vez de aplicar as reservas, usou-as para fins
sem retorno financeiro, como por exemplo custear a construção
de Brasília e subsídios diversos...
Em 1967, os
institutos isolados foram fundidos no INPS. Pela lei, teriam direito
à aposentadoria apenas os contribuintes. Só que, no
governo Geisel, por motivos políticos, começaram a dar
direito à aposentadoria também para quem não
contribuíra: trabalhadores rurais, etc. Lembro-me
perfeitamente quando o então ministro da Previdência,
muito assustado, externou pessoalmente a mim que o número de
idosos era cinco vezes maior de que os dados fornecidos a ele. Mas o
caixa, mesmo assim, continuava alto.
Aí, no Governo
Itamar Franco, o então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique
Cardoso enfrentava o caixa do Tesouro baixo, deficitário. Para
melhorar este caixa – que pagava a aposentadoria, em geral
alta, de militares, deputados, funcionários públicos,
etc – o sr. Ministro baixou uma portaria retirando do Tesouro,
e passando para o INPS, o pagamento destas aposentadorias. Ou seja,
todo pessoal do setor público que nunca contribuiu para o
INPS, já que esta era atribuição do Tesouro
(onde aliás o Governo também deveria ter contribuído
com sua parte), passou a depender deste caixa da Previdência. E
esta situação persiste até hoje. Além do
mais, o número dos legítimos beneficiados, aqueles que
contribuíram efetivamente, amplia-se a cada ano.
O
caixa acabou. Como fazer para pagar as aposentadorias? Roubando dos
aposentados, que são o elo fraco desta corrente.
A
situação foi ainda agravada pelo fato de o cálculo
autuarial da Previdência ter se baseado na contribuição
tripartite – empregado, empregador e governo – e que este
último nunca contribuiu. Pois com isso falta ainda um terço
da receita!
Mesmo considerando os outros fatores, se o Tesouro
voltasse a assumir sua verdadeira responsabilidade de pagamento das
aposentadorias dos seus servidores e semelhantes, e pagasse a terça
parte da arrecadação que está devendo ao INPS, a
situação de Previdência seria excelente. E não
precisaria praticar um verdadeiro roubo contra seus segurados, como
vem ocorrendo.
Juljan Czapski – presidente do
Instituto de Planejamento Estratégico em Saúde –
IPES
(Luís Nassif Online, http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/, 01/02/2007, 11h11)