O disco (quase) virou
Já virou o disco, na
discussão sobre a Previdência. Todos os jornais passaram
a trabalhar em cima dos conceitos corretos de déficit.
Inclusive a “Folha” de hoje, em editorial, defendeu a
medida.
Aliás, quase virou. Permanece na trincheira
apenas minha amiga Mirian Leitão, para quem defender a
contabilização correta de despesas é posição
dos “dos que diziam que o déficit público era uma
ilusão de ótica na época da
hiperinflação”.
Mirian, Mirian, herdeiros
da bagunça inflacionária dos anos 80 são aqueles
que acreditam que a contabilização correta de receita e
despesa é exercício inútil, porque o pagador é
um só. Era assim que o pessoal pensava naquele período,
esqueceu?
Seu raciocínio é idêntico aos
que resistiam em separar orçamento da União do
orçamento previdenciário e do orçamento das
estatais, porque tudo recaia nas costas do Tesouro.
É
da mesma natureza do que viram com desconfiança a criação
da Secretaria do Tesouro, dos defensores de deixar tudo em um balaio
só, porque o pagador é o mesmo.
Parafraseando um
leitor do blog: é inacreditável que em pleno século
21 ainda existam pessoas contrárias à contabilização
correta das contas.
Pergunta ela: “se forem mudados
todos os guichês pagadores que diferença faz? O Brasil
continuará sendo um país extremamente jovem com a
previdência quebrada”.
(Suspiro) O que a ideologia
não faz.
1.Mantenha todas as variáveis de idade,
e comece a curva atuarial com um rombo de R$ 40 bi. Depois, mantenha
todas as variáveis e comece a curva atuarial com um rombo de
R$ 3,7 bi. Não é preciso dominar as planilhas, basta
ter sensibilidade para os grandes números para entender que a
mudança altera completamente os cálculos atuariais, o
tamanho do ajuste necessário. Ou a Mirian acha que não
há diferença em um ajuste para um rombo inicial de R$
40 bi e outro para um rombo inicial de R$ 3,7 bi?
2.Há
uma discussão técnica se o déficit no período
hiperinflacionário existia ou se era decorrente exclusivamente
da conta de juros. Havia economistas de renome sustentando que
existia; economistas de renome sustentando que não. Sem
mergulhar nas discussões da época, não ousaria
desqualificar nenhum dos dois grupos sem estudar o tema antes.
3.Se
contabilizar corretamente o déficit da Previdência, a
Mirian continuará defendendo que todo o peso do déficit
geral de R$ 40 bi recaia sobre os contribuintes da Previdência?
É claro que não. Então quem é que se
perdeu no descaminho: o Ministério, ao clarear as contas, ou
quem não admite se curvar aos fatos, por mais claros e
objetivos que eles sejam?
PS – Pessoal, quem for postar
comentários, por favor, evite ataques pessoais. Estamos
discutindo idéias, conceitos.
Luís Nassif
(Luís Nassif, http://luisnassif.blig.ig.com.br/, 01/02/2007, 10h19)