Coluna Econômica – 31/01/2007
A arte de sempre iludir
Foi a partir dos Planos Econômicos
que de consolidou em certa parte da elite ilustrada brasileira a
máxima de que governar é a arte de iludir. Foi assim
com os diversos planos econômicos, muitos sem pé e sem
cabeça, mas que garantiam a aprovação de medidas
sem nexo e davam alguma sobrevida política a governos
agonizantes.
Parte da ilusão foi criada através
das falsas ênfases, dessa história absurda de que o país
não crescia não em função de juros
escorchantes, de câmbio irreal, da falta de investimento
público, mas porque não fazia a “lição
de casa”. Por tal, se entendia cortes em gastos sociais, na
Previdência, em investimentos do governo. Tudo para desviar o
foco do grande sorvedouro de recursos públicos, que eram os
juros.
Os planos econômicos e o uso seletivo da teoria
econômica, tem sido um dos principais fatores de manipulação.
O Plano Real foi anunciado como o primeiro plano “sem
surpresas”, em que todos os atos de governos seriam previamente
anunciados. Anunciaram todos, menos o essencial: a apreciação
do real em duas rodadas –caindo para 90 centavos e, depois,
para 80 centavos— que sequer o Ministro da Fazenda da época
sabia. Duas tacadas que fizeram milionários da noite para o
dia e mataram (até agora) doze anos de crescimento.
Durante
dez anos mascarou-se com a afirmação de que havia a
necessidade de criar déficits em conta corrente para atrair
poupança externa. E não adiantava apontar para o fato
de que aquele movimento só atraía capital de curto
prazo, que não seria carreado para investimento. Depois do
desastre consumado, de centenas de bilhões de dólares
de dívida pública transferida para os detentores de
capital, aparece um dos pais do plano, Edmar Bacha para, em artigo de
comemoração dos dez anos do Real, admitir que os
capitais atraídos pelo Real não se destinaram a
investimento.
A arte de iludir não respeita público
e cargo. Para evitar a liberação de recursos,
fundamentais para manter os ministérios funcionando, Fazenda e
Planejamento, no governo Lula, alocavam recursos em programas
inviáveis. Quando havia reuniões ministeriais, e o
Ministro da pasta em questão reclamava da falta de recursos,
Fazenda e Planejamento apontavam os programas com recursos que não
tinham sido gastos. E Lula engolia.
Exemplo maior desse
ilusionismo é própria discussão do déficit
da Previdência. Durante anos e anos, iludiu-se a opinião
pública jogando nas costas da Previdência contas que não
lhe pertenciam. Esse tipo de estratagema permitiu que toda a conta do
déficit público fosse jogado nas costas dos
empregadores e empregados da economia formal.
As conseqüências
são trágicas. A arte de iludir desmoralizou o
conhecimento técnico, trouxe descrédito até para
políticas necessárias, de contenção de
despesas e melhoria da gestão, em outros países abriu
espaço para o populismo, avacalhou o sentido da democracia, ao
terceirizar a política econômica para o mercado, que
tinha não o poder dos votos ou da vontade, mas apenas a arte
de iludir.
A blindagem ao Banco Central, a crença cega
em PIB potencial, taxa de juros de equilíbrio e outros
factóides têm sido as ferramentas que permitiram o doce
exercício de iludir a população, e quebrar o
país.
Luís Nassif
(Luís Nassif Online, http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/, 31/01/2007, 7h00)