Contabilidade e Previdência


A contabilidade pública é peça essencial não apenas para permitir o planejamento correto das ações de governo e sua fiscalização pelos cidadãos, mas como elemento político. É através da contabilidade que se identificam privilégios, que se legitimam ou não cobranças que são lançadas sobre segmentos dos contribuintes.

Digo isso a respeito da forma inadequada de contabilizar o déficit da Previdência.


Imagine a seguinte situação:

1.A empresa A lança determinado produto.

2.O produto tem custo de 20. E tem faturamento de 30.

3.Aí a empresa contabiliza o custo, mas não inclui o faturamento.

Em cima dessas informações, a tendência da empresa será descontinuar o produto, julgamento que é deficitário.

O mesmo vale par a área pública. Como mencionei na coluna de sexta-feira passada, o Simples é um sistema que libera a pequena e a micro empresas das contribuições patronais para a Previdência. Ë uma decisão meritória. Graças a essa desoneração, milhares de empresas puderam se formalizar e pagar outros tipos de impostos.

Tudo conflui para os cofres do Tesouro. Pelas contas da Previdência, essa desoneração do Simples custa R$ 5,1 bi. Mas o Tesouro recebe um volume a mais de impostos por conta das empresas que se formalizaram através do Simples. Digamos que o sejam outros R$ 5,1 bi.

Do ponto de vista de contas públicas, pelo exemplo dado, o Simples seria neutro. Perde-se do lado da Previdência; ganha-se do lado dos demais impostos.

Para avaliar corretamente esse resultado, o correto seria lançar esses R$ 5,1 bi de renúncia fiscal à conta do Simples. Aí o Tesouro recebe a arrecadação adicional, proporcionada pelo Simples, contabilizando-a como receita. Com a contabilização correta, as autoridades poderão avaliar adequadamente a relação custo-benefício do Simples. Mas os R$ 5,1 bi deixam de ser déficit de Previdência.

Hoje o Tesouro transfere para o INSS recursos para bancar o suposto déficit. Os R$ 5,1 bi destinados a cobrir a renúncia do Simples entram como “aporte do Tesouro”. Esse valor é lançado diretamente na conta de déficit da Previdência.

Essa falta de clareza aumenta artificialmente o déficit da Previdência, e impede a avaliação de todos os programas que contam com renúncia fiscal da Previdência. Qual o custo do Ministério da Educação com o ensino superior? Não se sabe, porque a renúncia previdenciária do Prouni (o sistema de bolsas do ensino privado, para compensar o não pagamento das contribuições previdenciárias) entra na conta das despesas da Previdência. O mesmo ocorre com as Santas Casas de Misericórdia, com os clubes de futebol.

Esses erros de conceito não são de graça. Ao inchar o déficit da Previdência, os dito especialistas em contas públicas querem criar um fato político que justifique ou aumento de contribuições ou corte de benefícios.

É evidente que existem privilégios na Previdência, que as mudanças na expectativa de vida dos segurados exigem alterações periódicas. Mas o primeiro passo para uma discussão honesta sobre o tema, é partir de números honestos. E números honestos significam conceitos honestos que reflitam corretamente a natureza dos gastos.

Até hoje, isso não ocorreu.

Para incluir na lista Coluna Econômica

Luís Nassif

(Luís Nassif Online, http://luisnassifeconomia.blig.ig.com.br/, 27/01/2007)