ATÉ
O VOVÔ ESTÁ EM APUROS
MARCELO VIANA
Queda
no número de sócios, que já foram 40 mil,
diminui a receita e mergulha o Pinheiros na maior crise de sua
história
O
vovô Pinheiros, clube mais antigo de São Paulo, com 104
anos, e um dos mais tradicionais da cidade, não ficou imune à
crise que afetou o setor. Seus dirigentes tentam bolar fórmulas
para recuperar a perda de cinco mil sócios registrada nos
últimos cinco anos e voltar a crescer — no ano passado,
o déficit foi de R$ 3 milhões. A atual diretoria
garante que, neste ano, a situação está mais
equilibrada. A dívida de R$ 40 milhões com o INSS foi
renegociada para ser paga em 15 anos.
Os
primeiros sinais de dificuldade surgiram em 94, com o Plano Real. Se
estabilizou a moeda e estancou a inflação, o pacote
também tirou dos clubes, inclusive do Pinheiros, importantes
recursos vindos das aplicações financeiras. A perda do
poder aquisitivo e o achatamento da classe média foram outros
duros golpes. O resultado foi que muitos deixaram o clube, que passou
a trabalhar no vermelho.
Essa
realidade afetou até mesmo o próprio presidente do
Pinheiros, Antonio Rudge. “Eu era sócio de três
agremiações (Pinheiros, Paulistano e Jockey Clube), mas
tive de optar por um. Ficou muito caro”, contou. O sumiço
dos associados do Pinheiros, onde um título custa hoje R$ 15
mil, se intensificou a partir de 98, quando mil associados, a cada
ano, foram obrigados a ter a mesma atitude de Rudge. Somente em 2003
a situação, segundo a diretoria, foi controlada, com
déficit de apenas seis associados: entraram 907 e saíram
913.
O
buraco, porém, parece ser mais embaixo. Se antes o clube tinha
cerca de 40 mil sócios que pagavam religiosamente suas
mensalidades, hoje esse número não passa de 25 mil,
provocando, obviamente, queda na arrecadação. Procurar
fontes alternativas de renda é um dos desafios. “As
mensalidades são responsáveis por 80% do que
arrecadamos”, revela o presidente, que assumiu em maio.
Na
tentativa de mudar, a construção de um estacionamento é
uma alternativa. Para atrair o público jovem, o plano é
fazer uma pista de skate e uma nova academia. A atual conta com seis
mil inscritos, que pagam R$ 72,00 a cada semestre. A elevada
freqüência é explicada, em boa parte, pela ótima
localização do Pinheiros. “Não somos um
clube de final de semana. Os sócios estão sempre aqui.
São seis mil por dia”, calcula Rudge. Ele pretende
investir R$ 4 milhões nas novas obras em 2004. O orçamento
aprovado para o ano que vem é de R$ 60 milhões.
ESPORTE É TRADIÇÃO
Apesar
do dinheiro curto, o Pinheiros não deixou de investir no
esporte. O clube destina 11% do que arrecada para o setor,
abastecendo, entre outros, 13 modalidades olímpicas. Em 2003,
o investimento foi de R$ 7 milhões. Estrelas que brilharam nos
Jogos Pan-Americanos, como o nadador Gustavo Borges e o saltador
Cassius Duran, primeiro homem a ganhar uma medalha (prata) nos saltos
ornamentais em pans, faziam parte da delegação
brasileira que brilhou em Santo Domingo. “Não deixaremos
de apoiar o esporte, que é a nossa vocação.
Temos uma boa imagem graças a ele”, explicou Rudge.
As
parcerias acabam sendo boa alternativa para diminuir os gastos com os
esportes competitivos. No vôlei feminino, o apoio vem da Blue
Life e da Rainha. A Mizuno patrocina o judô e o atletismo. As
dobradinhas com a iniciativa privada também garantem
alimentação e bolsa de estudo para os atletas.
(DIÁRIO
DE S. PAULO, ESPORTES, 18/12/2003)