LIGAÇÕES
PERIGOSAS
Leila Reis
O repórter
César Tralli, disfarçado de policial, registrou em
tempo real a prisão de Flávio, o filho de Paulo Maluf.
Outra equipe de TV, do SBT, flagrou o flagrante ao documentar a
participação especial do repórter da Globo na
operação.
A chiadeira das outras emissoras, que
não contaram com a deferência da polícia, foi
geral. Hermano Henning e Ana Paula Padrão, do SBT, Boris Casoy
e Paulo Henrique Amorim, da Record, acusaram o golpe com discursos
inflamados apontando protecionismo, falta de ética, infração
de regras da concorrência jornalística, etc. Do outro
lado, William Bonner fez a defesa - também acalorada - de sua
reportagem.
A frustração é legítima,
mas o discurso moralista é falso. Qualquer emissora, equipe e
repórter daria um braço (figurativamente, claro) para
estar no lugar de César Tralli. Que jornalista não
faria acordo para furar outros veículos e colegas na cobertura
de um fato importante?
Chegar primeiro, apurar informações
inéditas e desvendar fatos e circunstâncias para
satisfazer melhor o leitor/telespectador faz parte da natureza
jornalística, coisa com a qual mesmo os mais indignados
concordam.
Então, o grito desses excluídos não
faz muito sentido no terreno da concorrência jornalística.
Ninguém reclamou da batida na Maison Daslu porque todo mundo
foi chamado para a festa. Mas faz um sentido enorme quando entram em
pauta as ligações perigosas entre TV e polícia.
Há
bem mais de uma década, a promiscuidade vem permeando as
relações entre a TV e a polícia. No tempo do
Aqui Agora (criado em 1991, pelo SBT) era comum o carro da emissora
chegar antes que a viatura no lugar de uma invasão policial
(geralmente, em favelas). Isso porque o rádio das peruas de
reportagem sintonizava a faixa da polícia.
Vem dessa
época a prática de arrancar detidos de camburões
para dar entrevista e de repórteres transformarem-se em
interrogadores diante das câmeras, claro, com total colaboração
da polícia. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos, é um dos que sempre recriminaram o julgamento sumário
que programas - Cidade Alerta, Repórter Cidadão, Brasil
Urgente! - faziam de suspeitos, tendo como algozes delegados e
soldados. Há dois anos, em entrevista ao Estadão, o
ministro esclarecia as razões desse relacionamento: "A
polícia facilita a montagem desses programas em troca do
holofote."
Essa relação promíscua já
produziu distorções. Houve época em que era moda
repórteres se oferecerem como reféns a criminosos
encurralados pelas câmeras e pela polícia. Como uma
bola-de-neve, criminosos passaram então a não negociar
mais sem a imprensa. E a polícia a não dispensar a
companhia de equipe jornalística quando o assunto podia valer
algo para a TV.
Não interessa se essa busca de projeção
é para a corporação (mostrar policiais como
mocinhos) ou para lustrar o próprio ego (de delegados e
promotores), a realidade é que a irresistível atração
que a TV exerce sobre esses servidores públicos é a
mesma que encanta toda a população.
Há
uma diferença importante: como poder constituído, a
polícia não pode perder a compostura. Os repórteres
estão no seu papel ao tentar buscar a exclusividade. A
polícia, no entanto, foge completamente do seu papel ao
facilitar a vida de jornalistas em troca de visibilidade.
(O Estado de S.
Paulo, Telejornal, 18/09/2005)