DEPUTADO É
DETIDO COM R$10 MI
PF PRENDE DEPUTADO DO PFL COM MAIS DE R$10 MILHÕES EM 7 MALAS
João Batista (SP),
ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, alegou que
dinheiro é fruto de arrecadação de dízimo
de fiéis
Vannildo Mendes
Expedito Filho
BRASÍLIA - A Polícia Federal deteve ontem sete
pessoas, entre elas o deputado João Batista Ramos da Silva
(PFL-SP), que tentavam embarcar no hangar da TAM, em Brasília,
com sete malas cheias de dinheiro. O grupo passou o dia dando
depoimento e o deputado, que é presidente da Igreja Universal
do Reino de Deus, pode ser indiciado por crime financeiro, lavagem de
dinheiro e sonegação fiscal, além de sofrer
processo de cassação na Corregedoria da Câmara
por quebra de decoro. A contagem do dinheiro, em notas de diversos
valores, só foi concluída às 22 horas: R$
10.202.690,00.
Batista declarou a jornalistas que o dinheiro é
fruto de arrecadação do dízimo entre fiéis.
O bispo-deputado afirmou ter enviado carta às autoridades
declarando que transportaria valores elevados no avião, de
propriedade da Universal. Disse não ter medo de ser expulso do
PFL. "Não sou político, estou político.
Minha vocação é a igreja." Batista ficou
detido até por volta das 23h00 na PF, de onde saiu agressivo,
sem querer ser filmado ou dar declarações.
O Cessna
Citation-10 arrendado pela Universal em forma de leasing preparava-se
para decolar, às 10h30, quando foi abordado pelo Grupo de
Operações Especiais da PF, que havia sido alertado por
denúncia anônima de que o avião carregaria malas
de dinheiro. O vôo tinha saído de Manaus e passado por
Belém antes de chegar a Brasília, de onde iria para
Goiânia. Pela agenda apreendida com o deputado, o destino final
era São Paulo. Passageiros e bagagens foram tirados do
avião.
O dinheiro nas malas estava separado em notas de R$
10, R$ 20, R$ 50 e R$ 100. Por causa da grande quantidade de cédulas,
três máquinas de contagem eletrônica ao Banco
Central foram solicitadas. O ritmo intenso de trabalho quebrou duas
delas, repostas no fim da tarde.
SEGURANÇA
Enquanto
a PF tomava depoimentos e contava cédulas dentro da
superintendência, no lado de fora ocorria uma cena digna de
filme sobre a Chicago dos anos 30. Policiais federais saídos
de vários pontos avançaram aos gritos sobre um grupo de
11 homens que circulava no pátio de forma suspeita, ocupando
uma caminhonete S-10, cabine dupla e um Santana.
Fuzis e pistolas
em punho, os federais deram voz de prisão aos homens. Eram
policiais militares - dez do Distrito Federal e um de Goiás -
e faziam segurança privada para a Igreja Universal. Estavam
todos armados e responderão a inquérito policial
militar. Um deles trazia uma pistola na bota de cano longo e os
demais portavam revólveres e pistolas na cintura.
O
delegado da PF Davi Sérvulo Campos, encarregado da operação,
informou que vai enviar ao Supremo Tribunal Federal (STF) o caso de
Batista, que tem direito a foro privilegiado por ser deputado. Ele
explicou que enviará ao Supremo os termos das declarações
do deputado e o relato da apreensão. Os R$ 10 milhões
ficarão sob custódia de uma instituição
financeira cujo nome não revela.
A PF vai investigar se os
R$ 10 milhões são realmente, como diz o deputado, fruto
de arrecadação de dízimo entre fiéis.
Segundo Sérvulo, a afirmação de Batista não
coincide com casos anteriores de movimentação pela
Universal de grandes quantias. O delegado disse que a Universal
costuma movimentar dinheiro via sistema bancário.
Batista
informou que recolheu quantias de dinheiro em Manaus, Belém e
Brasília e recolheria outra mala na capital de Goiás.
As cédulas, segundo o delegado da PF, não são
novas, nem as de menor valor, mas também não são
muito usadas. A Câmara mandou um consultor jurídico
averiguar o caso e pode abrir processo por quebra de decoro, caso
fique caracterizado crime financeiro e conduta indevida do bispo.
(O Estado de S. Paulo, 12/07/2005, 1ª página e pp. A4 a A6)