QUEM
DEU A MOEDINHA A MAINARDI?
ACABOU
A LISTA NEGRA DA Veja!
Alberto
Dines
Hoje
em dia, só dou opinião sobre algo mediante pagamento
antecipado. Quando me mandam um e-mail, não respondo, porque
me recuso a escrever de graça. Quando minha mulher pede uma
opinião sobre uma roupa, fico quieto, à espera de uma
moedinha.
(Diogo Mainardi, "A tapas e pontapés",
orelha, Editora Record, 2004)
É
preciso reconhecer que Diogo Mainardi está prestando um enorme
serviço ao jornalismo brasileiro. E quiçá
mundial. Mais algumas tentativas de ressuscitar o macartismo e o
rapaz será convidado para a ceia de Natal da Casa Branca. À
direita de Dick Cheney.
Além de assumir-se como o
patriarca do parajornalismo da Botucúndia e de estar prestes a
tirar o cetro do Matt Drudge (o velhaco que foi cheirar o vestido da
estagiária de Bill Clinton), Diogo Mainardi acaba de
estraçalhar a celebérrima Lista Negra da Veja.
Quebrou tabus, infringiu férreas determinações,
rasgou um portentoso index que já dura três
décadas.
É um herói, campeão da
liberdade de expressão no segmento hebdomadário (não
confundir com dromedário). Ousou citar novamente o título
"Observatório da Imprensa" para chamar a atenção
de seus três milhões de consumidores (tudo bem, pode
usar mais vezes, não cobramos pedágio); não
contente, dedicou a este Observador grande parte de seu último
delírio narciso-denunciatório ("Observatório
da imprensa (2)", Veja nº 1935, de 14/12/2005) e,
num rasgo de generosidade, conseguiu convencer os seus poderosos
chefões a enriquecer a seção de cartas com meia
dúzia de homenagens e congratulações ao autor
destas mal-traçadas. Não importa que sejam inventadas,
vale a façanha de acabar com uma das mais abjetas práticas
da "imprensa sadia" (na expressão de Gondin da
Fonseca que Diogo Mainardi certamente conhece).
Dioguinho
zangou-se porque este Observador não atendeu aos seus
insistentes e-mails e recusa-se a dedurar e a delatar. Não
está neste ramo. Aviltar, malhar, pichar, maldizer e malsinar
são as especialidades da nova editoria da Veja. Não
tratamos com ela.
Este Observador abomina o jornalismo marrom
e a imprensa marrom (expressão criada pelo Diário da
Noite carioca, em 1961, quando levou para o xilindró os
responsáveis pelas revistas de escândalos).
PARÁGRAFO
ÚNICO
As denúncias contra a submissão da
imprensa ibero-americana à Opus Dei não envolvem
pessoas nem profissionais. Aqueles jornalistas que foram seduzidos
pelas doutrinas marqueteiras elaboradas na Universidade de Navarra ou
nas consultorias sediadas em Miami foram ludibriados. Sonhavam com um
lustre nos respectivos currículos apenas para agradar ao
patronato e acabaram contribuindo para degradar aquela que já
foi designada como "a ultima profissão romântica".
O problema é deles.
Nossa preocupação é
com a Opus Dei instituição, partido, operação
político-midiática que, sob diferentes disfarces,
infiltra-se nas entidades jornalísticas mais representativas
do jornalismo latino-americano para afastá-las do seu antigo
compromisso liberal.
Como intransigente defensor do
secularismo, este Observador não está preocupado com a
confissão religiosa que pretende assumir-se como a Obra de
Deus. Preocupa-se, sim, com a apropriação daquilo que
deveria ser sagrado para encobrir um solerte processo de aviltamento
do jornalismo.
Diogo Mainardi não opina de graça
– é o parágrafo único da sua profissão
de fé. Veja lhe paga para fazer barulho.
Mas quem
lhe paga para macular pessoas, achacar profissionais, estigmatizar
reputações, avacalhar idéias, pisotear
sacrifícios e emporcalhar um ofício que acaba de
completar 400 anos de contínua contribuição à
inteligência e à cultura? (Postado às
22h55 de 10/12/2005)
(Observatório da Imprensa, http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=358IMQ008, 06/12/2005)