TV CULTURA
Osvaldo
Martins
"O que falta mudar",
copyright TV Cultura (www.tvcultura.com.br/ombudsman),
São Paulo (SP), 23/3/06
"O Conselho Curador
e a Diretoria Executiva da Fundação Padre Anchieta
deveriam discutir seriamente a necessidade, ou a conveniência,
de manter ou extinguir o jornalismo na TV Cultura. A simples
discussão do assunto talvez suscitasse a definição
de um rumo, o que seria em si um avanço. Como está –
e assim está há vários anos – não
tem pé nem cabeça.
Vejamos a hipótese de
extinção. A Cultura poderia ser uma boa TV pública,
melhor que a atual, sem jornalismo. Refiro-me ao jornalismo do
dia-a-dia, dos telejornais. Livre dessa obrigação, que
para a Cultura parece um fardo insuportável, quem sabe a
emissora pudesse se dedicar com bons resultados a outras formas de
difusão do conhecimento, cumprindo assim uma parte importante
da sua missão.
Ainda na mesma hipótese, a
Cultura poderia destinar todo o orçamento hoje destinado aos
telejornais à produção de documentários e
de outros programas de conteúdo jornalístico, sem a
obrigação de correr atrás da notícia do
dia. Sem dúvida os recursos disponíveis seriam
suficientes para a Cultura ser a melhor do país no gênero
– desde que soubesse, é claro, o que fazer com tais
recursos. Do jeito que está (repito, assim está há
vários anos) o que se vê é um gigantesco
desperdício de dinheiro. Com a agravante de se tratar, em boa
medida, de dinheiro público.
Examine-se então a
outra hipótese: a Cultura decide manter o jornalismo com seus
telejornais. Nesse caso, tem que mudar quase tudo. Jornalismo não
combina com marasmo, acomodação e preguiça.
Deixei de fazer comentários sobre o Jornal da Cultura, o
principal da casa, por não ter mais nada novo a dizer. Depois
de uma observação registrada neste espaço, de
que o Jornal da Cultura estava no fundo do fundo do poço, e da
constatação de que lá permanece, o que
acrescentar?
De vez em quando a rádio corredor noticia
que mudanças radicais estão por acontecer. Essas
notícias estão velhas há quase dez anos, ninguém
mais lhes dá crédito. É incrível que a
Cultura tenha dado uma virada formidável em tantos setores da
sua atividade, que tenha renovado e melhorado muito o conjunto da
programação, e não consiga mover uma palha no
jornalismo.
Aqui e ali notam-se tentativas de revigorar o
ânimo, certamente por obra e graça de alguns bons
profissionais que a emissora ainda tem. O Diário Paulista, por
exemplo, deu-se ao trabalho de ancorar ao vivo da Bienal do Livro e
do Museu da Língua Portuguesa, duas iniciativas acertadas, mas
que deveriam ser a rotina e não a exceção.
Inversamente, excepcional deveria ser a prática de entrevistar
o presidente da emissora, o que começa a virar uma rotina –
provinciana do tipo jornal de bairro, diga-se."
(Observatório da Imprensa, http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=374VOZ004, 27/03/2006)