Alto-contraste
ISENÇÃO DE IMPOSTOS COBRE ATÉ FILME DA FOTOGRAFIA
Supremo
Tribunal se divide ao ampliar a imunidade tributária
As
empresas jornalísticas conseguiram mais uma isenção
de impostos. O Supremo Tribunal Federal decidiu, com base num recurso
da Folha, que elas estão isentas de recolher tributos sobre
"insumos" como papéis e filmes fotográficos.
A ação da Folha nasceu depois de a Secretaria da
Fazenda de São Paulo cobrar ICMS sobre esses produtos
importados do exterior A decisão do Supremo beneficia
diretamente a Folha, mas poderá ser estendida a todas as
empresas jornalísticas do país. Elas sistematicamente
invocam o artigo 150 da Constituição que lhes garante
imunidade tributária, ou seja, o poder público é
proibido de instituir impostos sobre os produtos jornalísticos,
como as revistas, os jornais e o papel importado. A CPMF, por
exemplo, elas não vão pagar, como não pagaram a
versão anterior, o IPMF. As empresas jornalísticas
pagam apenas imposto de renda.
Os ministros do Supremo se
dividiram na votação. Cinco votaram a favor (Marco
Aurélio, Francisco Rezek, Carlos Velloso, Celso de Mello e
Néri da Silveira — e cinco foram contrários —
Maurício Correa, Ilmar Galvão, Octavio Galloti, Sydney
Sanches e Moreira Alves. O presidente Sepúlveda Pertence deu o
voto de Minerva a favor das empresas jornalísticas, por
considerar que elas não pagarem impostos é um estímulo
à circulação de informações.
"Evidentemente, não se pode ficar indiferente às
considerações no sentido de que uma imunidade como essa
representa mais do que a garantia da liberdade de pensamento, mas o
estímulo à circulação de informação
e cultura", disse Pertence segundo a Folha (27/9).
Na
verdade, para afirmar a sua independência e consolidar-se como
negócio, a imprensa deveria renunciar a essa mordomia do
Brasil arcaico. Pagar imposto é que é independência.
No número 5 deste boletim o subsídio foi tratado dessa
forma: "A imprensa deveria pagar impostos para ser livre, mas,
no bojo da defesa da isenção, ela esgrime um argumento
oposto: a imunidade tributária é o aval da liberdade.
Depreende-se que a imunidade tributária previne súbitas
retaliações contra a imprensa pelo aumento asfixiante
de impostos. Isso talvez signifique que todo o resto da sociedade que
paga impostos seja refém do humor tributário do
governo: se não tem a mamata da salvaguarda antitributária,
sua liberdade está permanentemente ameaçada. Jornais
não pagam imposto, mas a cesta básica, consumida pelos
reféns tributários, paga 25%.
Antes de ser uma
salvaguarda da liberdade, a imunidade é uma esperteza fiscal.
Se um regime acumular forças para perseguir a imprensa via
impostos, seguramente terá meios de destroçá-la
pelo método tradicional da coerção e da censura
– e foi isso que fez a ditadura militar: os jornais
regalavam-se com a imunidade tributária (como aval da
liberdade...) e o regime regalava-se com a censura (como aval da
atrocidade...). Se o regime político agora é de ampla
liberdade, não pagar imposto significa manter um regalia
arcaica e oportunista que sequer torna os jornais e revistas mais
baratos – a não ser do ponto de vista moral."
A
imprensa é hoje administrada por corporações
lucrativas que não devolvem ao público os impostos que
deixam de pagar. O brutal aumento aumento de preço que fez a
tonelada passar de 600 para 1000 dólares em 1994 e 1995
mostrou diferenças entre as administrações das
empresas jornalísticas americanas e brasileiras. Lá os
executivos cortaram despesas, cortaram páginas, reduziram a
área de impressão para o papel render mais, e saíram
da crise com bons lucros.
No Brasil, com a generosa isenção
de impostos, o papel é gasto para a impressão com a
mesma facilidade com que é manipulado pelo público
depois de impresso. A austeridade coincidiu com o aumento da receita
publicitária, particularmente alta no terceiro trimestre do
ano. O grupo Knight-Ridder, cadeia de 31 jornais cujo carro-chefe é
o Miami Herald, cortou fundo, faturou mais e comemora a subida de
suas ações na bolsa de US$ 0,07 para US$ 0,37, com
lucros de 35,4 milhões — US$ 28 milhões a mais
que no mesmo no período do ano passado.
Só em último
caso os jornais aumentaram seus preços na banca. O Washington
Post resistiu e continuou vendido a 25 centavos. O Los Angeles Times
aumentou o preço, mas, assim que a receita melhorou, voltou
aos 25 centavos por exemplar anteriores à crise. Os grandes
jornais brasileiros tomaram o aumento do preço do papel como
motivo para subirem o preço do exemplar em até 60%. E
lá ficaram.
(Instituto Gutenberg, http://www.igutenberg.org/altoco11.html, setembro-outubro/1996)