GLOBO BUSCA OUTRAS FONTES DE RECEITA
No exterior, a verba
publicitária destinada a anúncios em mídia
eletrônica encolhe
Marili Ribeiro
de São
Paulo
A Globo não é só tevê.
A preocupação em fazer tal frase reverberar tem sido
recorrente nas conversas de muitos dos executivos da casa. Um dos
principais executivos da cúpula da organização
da família Marinho, Luis Erlanger, diretor da Central Globo de
Comunicação, é bastante enfático sobre a
questão. Para ele, o foco dos negócios do grupo deve
expandir-se além da famosa telinha
do plimplim. “Há empresas, como a Globo Marcas, que tem
enorme potencial de crescimento.”
Atuando há mais
de um ano como uma divisão dedicada ao licenciamento, a Globo
Marcas ganha esta semana vida própria e personalidade
jurídica. Começa bem. Dentro da casa amealhou
um expressivo portfólio com mais de
30 marcas a explorar, entre elas a do “Louro José”,
o papagaio coadjuvante da apresentadora Ana
Maria Braga. A nova empresa ambiciona esparramar-se
muito além da fronteira do fulgurante casting
interno da emissora, explorando assinaturas de celebridades
como a dupla Chitãozinho &
Xororó, em negociação.
Buscar
outras frentes de receita pode amenizar uma
tendência internacional que toma corpo no mercado de mídia.
Nos Estados Unidos, em especial, aumenta o encolhimento
das verbas publicitárias antes destinadas aos comerciais em
tevê aberta. O privilégio de manter anos a fio a
liderança de audiência tornou a receita de propaganda
convencional o maior manancial do faturamento
da Rede Globo. Dados do Balanço Anual da Gazeta
Mercantil estimam que a emissora, que não revela números,
obteve faturamento de US$2,1 bilhões
no ano passado. Os outros empreendimentos do grupo – tevê
paga, rádio, jornais, revistas e internet – não
somaram US$1 bilhão no mesmo período.
O terceiro
maior anunciante no mercado americano, a montadora
DaimlerChrysler, informou há
poucas semanas que a sua verba de US$1,2 bilhão, aplicada em
propaganda de televisão, será desviada para ações
de marketing, no universo da moda e no
entretenimento. O argumento da empresa para justificar a radical
mudança, divulgada com espanto pelo jornal The
Wall Street Journal,
foi a de que os consumidores estão ficando insensíveis
aos anúncios da indústria automobilística na
televisão. Por lá, informam publicitários
brasileiros, estão tentando aferir os estragos provocados
pela ação do “zapping”,
feito com controle remoto durante os breaks
comerciais.
No Brasil, algumas companhias admitem que estão
redistribuindo suas verbas de marketing, antes concentradas na mídia
tevê. A linha de atomatados da Cirio
utiliza apenas promoções nos pontos-de-venda para
estimular a compra de seus produtos. O diretor de marketing da
Coca-Cola, Fernando Mazzarolo, reconhece que a gigante dos
refrigerantes optou por reduzir um pouco
seus investimentos em anúncios de televisão para
incrementar outras iniciativas.
Diante de um cenário
com tais nuances, não causa espanto
a crescente ansiedade das emissoras pela rápida aprovação
do padrão digital de televisão. O sistema trará
oportunidades de se agregar serviços à utilização
do veículo, em particular se o modelo adotado oferecer
mobilidade. Fernando Bittencourt, diretor
da Central Globo de Engenharia, argumenta que a era digital dá
às emissoras competitividade para que a radiodifusão
não seja reduzida ao papel de mídia de segunda
categoria. “Atingiremos um público maior, que andava
encolhendo”, explica.
O diretor Erlanger gosta de
destacar também a relevância crescente da divisão
de esportes dentro da Globo. “É o maior ativo da
empresa”, revela. “Supera a compra de filmes no exterior,
que tem gastos com um único título de até US$5
milhões, caso do megasucesso do
cinema Titanic.” O pagamento pelo
direito de transmissão do Campeonato Brasileiro consumiu
US$150 milhões na temporada em cartaz. A última Copa do
Mundo, representou desembolso de US$220 milhões.
Patrocinadores
atuais do pacote esportivo da Globo – Itaú,
São Paulo Alpargatas, Ambev
e Embratel – cobrem com folga
os gastos da emissora, reconhece Erlanger. A média de 29
pontos de audiência, mantida durante a transmissão dos
jogos às quartas-feiras, atrai e provoca disputa entre
anunciantes.
Desde a CPI da Nike, no Congresso, a atenção
dedicada ao futebol na emissora tem também causado desconforto
entre os dirigentes dos clubes. Eles se dizem dependentes da Globo,
responsável por 57% de suas receitas. Na Itália, os
direitos de transmissão representam 39% do faturamento dos
clubes, e, na Inglaterra, 25%. Erlanger rebate: “A atitude dos
cartolas é típica de quem quer culpar a janela pela
paisagem”, diz.
“Se não fosse a Globo os
clubes não sobreviveriam.”
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FICHA TÉCNICA |
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DADOS
SOBRE O GRUPO GLOBO |
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EMPRESA |
RECEITA LÍQUIDA (EM R$ MIL) |
LUCRO LÍQUIDO (EM R$ MIL) |
|
Editora Globo |
251.956 |
98.915 |
|
O Globo (jornal) |
473.735 |
- |
|
Rádio Globo |
15.442 |
3.694 |
|
TV Globo RJ |
2.100.000 |
- |
|
Globo Cabo |
25.967 |
526.272 |
|
TOTAL |
2.867.100 |
928.881 |
|
Fonte: Jornal Gazeta Mercantil, 18/06/2001 e Balanço Anual. |
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(Gazeta Mercantil, Empresas & Carreiras, 18/06/2001, p. C-7)