SCHINCARIOL
OS
SEGREDOS DA OPERAÇÃO
Documentos
revelam grande esquema de fraudes e sonegação.
Gravações também mostram políticos
discutindo o pagamento de “caixinhas”.
OS
GRAMPOS DA SCHIN
Da
sala reforçada com vidro fumê blindado, o segurança
avisou os donos da casa: "É uma tentativa de seqüestro".
Todos os portões foram imediatamente fechados na residência
da família Schincariol, uma mansão no centro de Itu,
com muros tão altos que lembra um bunker. Mas não se
tratava de seqüestro. Era uma batida da Polícia Federal,
com ordem para prender os proprietários da segunda maior
cervejaria do país. Durante 20 minutos, os policiais ficaram
do lado de fora, ameaçando entrar por bem ou por mal,
inclusive com uso de explosivos. Os seguranças acabaram
cedendo e, ao final, viram seus patrões sair da casa
algemados, direto para a cadeia.
Esse foi o desfecho mais
barulhento de uma operação iniciada em silêncio,
há um ano e meio. Durante esse tempo, uma força-tarefa
formada por agentes da Polícia Federal e da inteligência
da Receita Federal gravou todos os telefonemas dos diretores da
Schincariol e de gente ligada a eles. As conversas levaram à
descoberta do monumental esquema de sonegação detonado
pela Operação Cevada na quarta-feira 15. ÉPOCA
teve acesso às 643 páginas do relatório da
investigação, incluindo as conversas grampeadas com
autorização judicial. Os documentos apontam uma
poderosa rede de fraudes e tráfico de influência, que
alcançava de caminhoneiros a empresas em paraísos
fiscais. De quebra, as gravações captam conversas
suspeitas de políticos ligados ao grupo e wn eventual esquema
de liminares na Justiça.
Pelas contas dos
investigadores, a Schincariol sonegou cerca de R$1,5 bilhão
nos últimos cinco anos e terá de pagar aproximadamente
R$600 milhões em multas. Dona de 12,5% do mercado nacional de
cervejas, com faturamento anual de R$ 2,5 bilhões, daqui para
a frente a prioridade da Schin não será mais ganhar
mercado. Sua batalha vai ser pela sobrevivência. "Nos
últimos três anos, a Schin multiplicou seu tamanho por
quatro e era uma pedra no sapato da AmBev. Se esse crescimento veio
de sonegação, será difícil que ela volte
a ser competitiva", diz Eduardo Pfizter, analista do setor de
bebidas do banco Fator. No
dia em que os executivos da Schin foram
parar atrás das grades, as ações da AmBev
subiram 3%.
A Schin nega as acusações e se queixa de
abuso de força. "A prisão foi um exagero" ,
reclama Roberto Podval, advogado criminalista contratado ontem para
defender a família Schincariol. "Se o crime é de
sonegação fiscal, bastava convocar os empresários
para prestar depoimento. Eles não iam fugir. Há forças
ocultas nessa operação", suspeita o advogado.
As
investigações revelaram que o grupo da Schin cooptava
funcionários públicos, como policiais e fiscais de
receitas estaduais, para fazer "vista grossa" na
fiscalização das notas fiscais dos caminhoneiros.
Distribuidoras de bebidas ligadas à Schin utilizavam notas
frias ou "viajadas" - aquelas
que são apresentadas mais de uma vez. Uma nota chegou a ser
usada 90 vezes. A empresa ainda comprava matéria-prima, como
malte, sem nota fiscal, e esquentava dinheiro obtido com a sonegação.
Ao todo, 74 pessoas foram presas, entre elas Adriano, Alexandre e
Gilberto Schincariol, principais acionistas da empresa. A
força-tarefa investiga com especial atenção
cinco empresas no exterior, suspeitas de serem o destino do dinheiro
desviado. Três delas ficam em Portugal e duas em paraísos
fiscais (Glencove, nas Ilhas Virgens Britânicas, e Clare Hall,
nas Bahamas).
"A
sofisticação é impressionante. Nos últimos
anos, eles foram se aperfeiçoando", diz um dos
responsáveis pela operação. Desde 2001, a
Receita Estadual de São Paulo suspeitava de artifícios
para driblar eventuais fiscalizações. Um exemplo é
o uso dos caminhões-dublê. As distribuidoras ligadas à
Schin mudavam as placas dos veículos que entravam no pátio.
Investigadores filmaram em segredo a troca e gravaram conversas entre
integrantes do grupo: "Essa questão de muita placa,
bicho, é uma questão que a gente vai sentar e
reavaliar, porque eu vou ter de contratar um funcionário extra
porque o adjunto não vai ter tempo de estar fazendo outra
coisa", diz um deles. O esquema começava no pátio
da fábrica, passava pelas estradas e batia na Justiça.
A investigação sugere uma ligação do
grupo com a indústria de liminares.
Os
policiais cumpriram 120 mandados de busca. Uma das surpresas em meio
às apreensões foi a troca de e-mails entre dois
advogados da empresa. Na mensagem eletrônica eles falam da
necessidade de montar "novas empresas para conseguir novas
liminares" com isenção de impostos. Há
ainda a constituição de companhias laranjas, na maioria
dos casos distribuidoras em Estados em que a tributação
é mais amena, como Espírito Santo e Maranhão. No
papel, a Schin vendia muito para distribuidoras nesses Estados, mas
na prática as bebidas não chegavam lá.
Uma
investigação paralela também serviu para
reforçar os trabalhos da polícia. Há pelo menos
cinco anos, concorrentes da Schincariol elaboram dossiês que
acusam a cervejaria de Itu de montar operações
criminosas para enganar o Fisco. A Associação
Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF),
entidade apoiada pela AmBev, chegou a encaminhar à CPI da
Pirataria fitas de vídeo onde um fornecedor de matéria-primas,
Edson Guterres de Carvalho, detalhava o suposto esquema fraudulento
da Schincariol. Transcrições dessa fita circularam pelo
Congresso, pela imprensa, por bancos e indústrias do setor,
invariavelmente remetidas por escritórios de lobby e agências
de publicidade.
Os dossiês eram minuciosos. Um deles,
que descrevia exportações fictícias de pequenas
cervejarias pelo Porto de Paranaguá, era um calhamaço
de quatro volumes: mais de mil páginas com notas fiscais,
depoimentos à polícia, grampos telefônicos,
indicações de empresas fantasmas e cópias de
guias de exportação falsificadas. Pelos menos quatro
fitas de vídeo com depoimentos de caminhoneiros que
participariam do esquema de notas para a Schin vinham sendo
divulgadas há um ano pela ABCE Fato raro no mundo dos
negócios, houve até acusações públicas
de concorrentes. "Os números da Schincariol só
fecham se eles sonegam impostos" , disse o diretor da AmBev
Milton Seligman.
A investigação ganhou ainda
outra dimensão. Nas gravações autorizadas pela
Justiça, a força tarefa acabou esbarrando em conversas
suspeitas sobre outros negócios, incluindo autoridades. O
ex-ministro dos Transportes do governo Lula e atual prefeito de
Uberaba, Minas Gerais, Anderson Adauto, aparece nos grampos, ligado a
um dos cabeças do esquema de sonegação. É
o empresário Otacílio Costa, que usava o codinome de
José. Ele distribuía produtos da Schin nas regiões
Sul e Sudeste, lançando mão de expedientes pouco
ortodoxos, como notas frias e esquemas para driblar a fiscalização
nas estradas. Tinha contato direto com toda a direção
da cervejaria e remetia R$ 1 milhão, em dinheiro, mensalmente
aos chefes. Adauto é amigo de Otacílio e chegou a
alugar uma casa em Porto Seguro em sociedade com ele. A investigação
revela um diálogo curioso entre os dois. Em um dos trechos da
conversa, ocorrida em setembro de 2004, Otacílio conta a
Adauto que determinado processo está parado. Otacílio
diz que conversou com o deputado federal Gilmar Machado (PT-MG) e
pediu uma solução para o problema na Petrobrás.
Otacílio conta então que deu R$15 mil a Gilmar. E
Adauto pergunta: "Você acha que ele queria 20?"
Ao
ser questionado por ÉPOCA, o ex-ministro teve uma reação
ainda mais surpreendente. Na primeira conversa, negou qualquer
possibilidade de propina, disse que não se lembrava dos
diálogos com Otacílio nem de ter apresentado o
empresário ao deputado Gilmar Machado. Quinze minutos depois,
Adauto ligou para ÉPOCA e se corrigiu. Já se lembrava
melhor dos fatos. Desta vez, disse que havia pedido uma colaboração
financeira para a campanha de Machado à prefeitura de
Uberlândia em 2004. E que Otacílio precisava de um
intermediário, no caso o deputado Machado, para falar na
Petrobrás. Otacílio queria abrir uma distribuidora de
combustíveis no triângulo Mineiro, diz Adauto. Gilmar
Machado também mudou de opinião. Ao ser questionado por
ÉPOCA, o deputado inicialmente negou conhecer Otacílio.
Quando a reportagem esclareceu que se tratava do empresário
preso pela Operação Cevada, a memória voltou.
"Ele me foi apresentado pelo Anderson Adauto. Queria abrir uma
distribuidora de combustíveis em Uberlândia" . O
deputado diz ter encaminhado o pedido por escrito ao chefe de
gabinete da presidência da BR Distribuidora, Diego Hemandez.
"Mas não recebi nenhum centavo", diz. "Não
trabalho informalmente. "
O deputado federal José
MilHão (PTB-MG) também foi acionado para socorrer
Otacílio. O parlamentar garantiu que colocaria a cúpula
petebista para resolver o problema do empresário. Disse que
conversaria até com o presidente do partido, o deputado
Roberto Jefferson. "O diretor da área na Petrobrás
era o doutor Pemando (Cunha,
diretor de Logística e Operação),
indicado pelo PTB, e eu pedi
mesmo que ele ajudasse o Otacílio", confirmou a Epoca o
deputado José Militão. Segundo ele, "os dois
chegaram a conversar, mas o problema não foi resolvido."
Já
o deputado estadual Alberto Pinto Coelho (PP-MG) teria sido acionado
por outro motivo. Caminhões da Dismar Distribuidora, empresa
de Otacílio, que transportavam produtos da Schincariol com
notas fiscais irregulares, vinham sendo parados nos postos de
fiscalização em Minas. Para resolver o problema, ele
ligou para o parlamentar e falou das notificações.
Coelho prometeu telefonar para os diretores de fiscalização
para pôr fim às dificuldades. O deputado não
retomou as ligações de ÉPOCA.
A conexão
política é mais uma ponta da gigantesca investigação
em tomo da Schincariol. Além de sócios, executivos e
parceiros da empresa, foram presos funcionários públicos
e até o advogado titular da companhia. Enquanto a polícia
fazia seu arrastão na empresa, ainda se podia ver uma ironia
no ar. Acusada de transformar seus livros de contabilidade numa peça
de ficção, a Schin veicula uma propaganda na televisão
com um mote sintomático: "É enrolation",
dizem os atores, nos anúncios da cerveja.
O
QUE A PF OUVIU
Alguns
trechos das conversas gravadas pela Polícia Federal, que
indicam irregularidades na Schincariol
Resumo de diálogo
entre Otacílio Araújo Costa, proprietário da
Dismar Distribuidora, e o ex-ministro dos Transportes Anderson
Adauto, atual prefeito de Uberaba
OTACÍLIO diz que o
processo está parado. Conta que conversou com o deputado
Gilmar Machado (PT-MG) e pediu uma solução para o
problema da Petrobrás. Otacílio afirma ter dado R$15
mil a Gilmar. Anderson questiona: "Acha que ele queria
20?"
Diálogo entre Carlos Brito, da distribuidora
Disbetil, e um homem identificado como Beto, funcionário da
transportadora Transponencial, prestadora de serviços para a
Disbetil, sobre troca de placas dos caminhões para enganar a
fiscalização
CARLOS BRITO - É, Beto, tá
havendo muito esse tipo de problema. Sabe, quando não é
a gente, é vocês, esse problema, isso os meninos me
provaram lá também - essa questão de muita troca
de placa, bicho, é uma coisa que a gente vai ter que sentar e
reavaliar porque eu vou ter que contratar um funcionário extra
porque o adjunto não vai ter tempo de estar fazendo outra
coisa. Eu não sei, eu queria que você, inclusive, visse
isso aí, o porquê de tanta troca de placa. Eu fiquei lá
e os meninos me provaram por A mais B. Inclusive eu estava na hora,
num dia lá, quando você ligou para o Cleidson e na mesma
hora o menino estava ligando para o Mozart para trocar uma placa, já
quase 4 horas da tarde
A SCHIN E A IMPRENSA
A
escuta da Policia Federal captou várias conversas entre
Adriano Schincariol, principal executivo da empresa, e o publicitário
Luís Lara, da agência de propaganda Lew, Lara. Nos
diálogos gravados, os dois discutem a divulgação
de reportagens sobre a cervejaria e seus concorrentes em vários
veículos de imprensa, como as revistas ÉPOCA, Veja,
Istoé e IstoÉ
Dinheiro, além das
emissoras de televisão Bandeirantes e Record.
O
primeiro diálogo foi registrado às 13h07 do dia 11 de
dezembro de 2004. Lara diz a Adriano: "Vi você na Veja,
achei genial o negócio da
ética e achei muito boa a outra notícia do Conar".
No dia seguinte, em nova conversa, Lara conta:
"Ontem eu
estive lá naquela cidade e mostrei a fita com as quatro
matérias para o japonês e o caipira da Casa Civil".
Para a PF, a cidade seria Brasília e os dois personagens o
ministro Luiz Gushiken e o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu.
A fita conteria matérias divulgadas em telejornais. Depois, o
publicitário diz: "Mostrei de novo a ÉPOCA, que
eles não tinham visto" . Lara se refere provavelmente a
uma reportagem publicada na edição de 12 de dezembro,
que contava que a Schincariol contratara uma auditoria tributária
da empresa Trevisano O relatório produzido pela consultoria
afirmava que o sistema tributário brasileiro era mais
favorável à AmBev. Na reportagem, a AmBev rebatia as
acusações, com críticas ao estudo e à
Schin: "É estranho que a forma de apuração
do imposto seja questionada depois de 16 anos de vigência",
disse o diretor da empresa Milton Seligman.
Nas gravações
da PF, Lara ainda recomenda a Adriano: "Vê esse negócio
do Jornal da Band
e da Record. Eu
acho horrível gastar dinheiro nisso. É muito melhor
gastar dinheiro com a Nova Schin, mas você precisa ter
blindagem nesses dois veículos". Na mesma conversa, falam
da estratégia para lidar com as revistas:
Adriano
- Precisa blindar IstoÉ
e ÉPOCA, né?
Lara
-É exatamente essas...
Ontem eu estive longamente com o (Domingo)
Alzugaray (dono da IstoÉ).
Você blindou este ano as duas por intermédio daquele
nosso amigo lá, agora se você quiser blindado o ano que
vem... Ontem eu estive longamente com o Alzugaray. Aqui entre nós,
ele está com um problemão de caixa...
Adriano
- Fala para o Luís
também para ele ver isso aí, para a gente fechar estes
dois também para o ano que vem.
Lara-
O Domingo, se você der um dinheiro agora, no final do ano, no
começo do ano, ele vai usar em créditos o ano que vem.
Ele vai fazer o que você precisar. Ele te dá uma capa da
Dinheiro sobre
a pauta fiscal.
Adriano
- Aí mata a pau,
não?
Lara -
Se você quiser, eu faço com o Domingo aí. Se você
colocar na mão dele R$500 mil, R$1 milhão na mão
dele, o dinheiro que for, agora, nesta próxima semana, ele
está com um problema de caixa seriíssimo, é
gravíssimo, você pode contar com ele no ano que
vem...
Procurado por ÉPOCA na quinta-feira passada,
quando esta reportagem foi concluída, Luís Lara disse
que se excedeu ao mencionar que a revista IstoÉ
Dinheiro poderia dar uma capa
sobre a Schincariol. "Na verdade, a conversa era compra de
publicidade antecipada", disse o publicitário. A resposta
da Editora Três pode ser lida no quadro abaixo.
(ÉPOCA
NEGÓCIOS, Época, n. 370, 20 DE JUNHO, 2005, pp.
49, 56-60)
RESPOSTA
DA EDITORA TRÊS
Praticamente
todas as grandes empresas fazem habitualmente compras de publicidade
no atacado com pagamento antecipado em quase todos os grandes
veículos. Isto é uma prática no mercado. A
própria Schincariol, por exemplo, fez compra antecipada na
Editora Três e na Editora Globo.
Aperto de caixa no fim
do ano, com pagamento de 13º salário, etc., não é
privilégio das empresas de comunicação.
Praticamente o país inteiro fica com o caixa apertado no fim
do ano.
Schincariol foi capa da revista Dinheiro
por méritos próprios: praticamente dobrou suas vendas
em um ano. Antes da Dinheiro, mereceu
capa e reportagens de destaque em várias outras publicações,
entre elas a Época Negócios.
Domingo Alzugaray
(ÉPOCA NEGÓCIOS, Época, n. 370, 20 DE JUNHO, 2005, p. 60)