"A mídia implorava pela intervenção militar"
AOL
- Como os jornais trataram a notícia do Golpe Militar?
Mino
Carta - Golpe?! Imagina se alguém iria usar este termo. Os
jornais sempre falaram em Revolução. Até hoje,
muita gente ainda diz que foi uma “Revolução”.
O uso indiscriminado desta palavra é uma coisa que me dói.
Tenho muito respeito pelas palavras, acho que cada uma tem seu peso,
seu valor... Mas, voltando a sua pergunta, a mídia brasileira,
desde aquela época, servia ao poder. Digo que o Brasil tem a
pior mídia do mundo. Ela é muito ruim, incompetente,
priva pela ignorância, pela vulgaridade, pelo distanciamento e
pela falta de responsabilidade. A mídia vinha invocando o
golpe há muito tempo. Isso é o que mais me lembro dos
editoriais de O Globo, do Estadão, do Jornal do Brasil. Nesse
tempo, a Folha de São Paulo não tinha o peso que
adquiriu depois. Mas esses três jornais soltavam editoriais
candentes, implorando a intervenção militar para
impedir o caos. Era o caos que estava às portas!
AOL
- Então, o golpe era previsível?
Carta - Era
claro que o golpe estava em movimento e logo também foi claro
que não haveria qualquer tipo de resistência, a não
ser uma ou outra coisa isolada que não adiantaria,
naturalmente, para coisa alguma. Quando recebi essa notícia –
nesse período, eu dirigia a redação da revista
Quatro Rodas – fiquei estarrecido. Mas, ao mesmo tempo, não
fui surpreendido. Aquilo estava engatilhado há muito tempo. De
resto, há o fato de que essa tragédia teve um lado –
não diria cômico porque foi uma tragédia baseada
na costumeira hipocrisia e prepotência da elite brasileira,
insuflada pelos Estados Unidos –, mas eu posso dizer que houve
um lado irônico. Tudo foi feito em nome de uma ameaça,
do comunismo, que não existia. O Brasil estava em processo de
industrialização. E isso traria certas conseqüências
inevitáveis, como por exemplo, o surgimento de sindicatos
fortes e o nascimento de um partido de esquerda de verdade, capaz de
chegar ao povo, ao contrário do que a esquerda brasileira tem
conseguido até hoje. Tudo isso, que iria acontecer mais cedo
ou mais tarde, representou, naquele momento, uma justificativa para
aqueles que queriam dar o golpe. Aquilo era, evidentemente,
previsível. Até porque não houve qualquer tipo
de resistência, não foi derramada uma única e
escassa gota de sangue pelas calçadas brasileiras.
AOL
- E se tivesse havido sangue?
Carta - Se tivesse havido
sangue, teríamos a prova de que havia alguma coisa
encaminhada, que o Brasil tinha uma resistência organizada. O
fato de não ter havido reação alguma prova, de
uma forma clamorosa, que não havia nada que justificasse o
golpe. Na verdade, havia sim um estudante que sonhava com um Brasil
melhor, um ou outro intelectual que achava que a coisa poderia ter
tomado um outro rumo e até alguns políticos dignos que
gostariam de viver em um País mais justo socialmente.
AOL
- O senhor diz que a mídia implorava pela intervenção
militar. Mas os donos dos jornais citados pelo senhor falam que foram
perseguidos.
Carta - Eles falam isso a custo da destruição
da memória. Primeiro, destrói-se a memória. Esse
é o processo. Em cima da escuridão, inventa-se qualquer
coisa, e os leitores engolem tranqüilamente porque o trabalho é
eficaz. A destruição da memória é algo
que aqui se pratica com extrema habilidade. Assim como o chute no
cadáver, a destruição da memória é
um dos esportes nativos do Brasil, praticado com extrema competência.
Em cima da destruição da memória, alguns jornais
inventam que sofreram censura. O Jornal do Brasil nunca foi
censurado. A Folha de São Paulo nunca foi censurada.
AOL
– Nunca?
Carta - A Folha de São Paulo não
só nunca foi censurada, como emprestava a sua C-14 (carro tipo
perua, usado para transportar o jornal) para recolher torturados ou
pessoas que iriam ser torturadas na Oban (Operação
Bandeirante). Isso está mais do que provado. É uma das
obras-primas da Folha, porque o senhor Caldeira (Carlos Caldeira
Filho), que era sócio do senhor Frias (Octavio Frias de
Oliveira), tinha relações muito íntimas com os
militares. E hoje você vê esses anúncios da Folha
– o jornal desse menino idiota chamado Otavinho (Otavio Frias
Filho) – esses anúncios contam de um jeito que parece
que a Folha, nos anos de chumbo, sofreu muito, mas não sofreu
nada. Quando houve uma mínima pressão, o sr. Frias
afastou o Cláudio Abramo da direção do jornal.
Digo que foi a “mínima pressão” porque o
sr. Frias estava envolvido na pior das candidaturas possíveis,
na sucessão do general Geisel. A Folha estava envolvida com o
pior, apoiava o Frota (general Sílvio Frota, ministro do
Exército no governo Geisel). O Claudio Abramo foi afastado por
isso. O jornal O Globo também não foi censurado. Isso é
uma piada. Mas o Estado de São Paulo e o Jornal da Tarde, sim,
esses dois foram censurados. Mas a censura veio porque havia uma
briga interna deles.
AOL - Como assim?
Carta - Se
houve um jornal que apoiou o golpe, foi O Estado de São Paulo.
O Estado, assim como o Carlos Lacerda, que acabou caçado três
anos depois que a “Redentora” se abateu pelo País.
Essa gente aspirava a um papel que não tiveram. Então,
começaram a brigar entre eles. O jornal Estado tinha uma
profunda antipatia pelo Castello Branco porque ele não aceitou
as sugestões do jornal na composição de seu
primeiro governo. E aí começou essa briga interna que
desaguou numa censura que era praticada na redação do
jornal. O Estado tinha de publicar versos de Camões nos
trechos das reportagens retiradas na redação. E no
Jornal da Tarde eles tinham de colocar receitas de bolo nesses
espaços.
AOL - Quem foi, de fato, censurado?
Carta
- A revista Veja sofreu uma censura duríssima. Começou
depois de 1969, depois de várias apreensões em bancas.
A censura só acabou quando saí da revista (Mino Carta
criou e dirigiu a revista Veja de setembro de 1968 até
1976).
AOL - A Veja nasceu três meses antes do AI-5.
Não havia esse receio?
Carta - Os senhores Civita não
entendiam nada de Brasil. Aliás, acho que continuam não
entendendo. O rapaz Roberto Civita, que é um outro idiota...
Entre o Otavio e o Roberto é um páreo duro para ver
quem é o mais imbecil... Mas, de qualquer maneira, a revista
foi censurada duramente, por muitos anos até 1976. E informo
que, a partir de um certo momento, a partir de abril de 1974, ela
passou a ser censurada nas dependências da Polícia
Federal. Até então, a Veja tinha sido censurada na
redação. Os censores iam até lá e liam.
Mas quando entrou a Polícia Federal, a Veja passou a ser
levada à casa dos censores.
AOL - E como foi aquele
episódio em que o senhor teve de desligar os telefones da
revista?
Carta - Nós iríamos sair com uma
matéria sobre tortura. Era uma grande matéria comandada
pela equipe de Raimundo Pereira. A equipe levantou mais de 150 casos
de tortura e havia três casos contados em detalhe. Uma semana
antes, nós tínhamos saído com uma capa sobre a
posse do Médici (1969-1974) dizendo que ele não queria
tortura. Fizemos uma puxação de saco com ele e, é
lógico, já sabendo que viria em seguida a matéria
com os casos de tortura. Queríamos só preparar o
caminho. Mas aconteceu que a imprensa da época foi atrás
da capa da Veja e começaram a dizer, durante toda aquela
semana, que o Médici realmente não queria tortura. Por
causa disso, saiu uma ordem, numa quinta-feira, de que o regime
militar proibia qualquer referência ao assunto. E na
sexta-feira (risos), eu mandei desligar os telefones da redação
para não chegar essa ordem até nós. A revista
saiu, mas foi recolhida nas bancas. Naquele tempo, não havia
assinaturas. Ela ia para a banca e a censura passava
recolhendo.
AOL - Como foi sua saída da
Veja?
Carta - Havia uma pressão muito grande dos
militares para que eu saísse. E a Editora Abril tinha uma
dívida fora do Brasil, de 50 milhões de dólares.
Eles pediram um empréstimo à Caixa Econômica
Federal, mas era um empréstimo dentro da normalidade, eles
ofereceram garantias suficientes. Só que era um pedido,
evidentemente, que vinha de uma editora e, portanto, tinha conotações
políticas. A Caixa Econômica aprovou o pedido, mas
precisava do aval do ministro da Fazenda. Mas o ministro da Fazenda
falou que precisava da permissão do ministro da Justiça
e a coisa acabou na mão do Falcão (Armando Falcão,
ministro da Justiça). E o Falcão falou: “Nós
vamos dar dinheiro para aqueles inimigos do governo, que publicam a
revista Veja?” Então começou essa pressão.
AOL
– E por isso Roberto Civita despediu o senhor?
Carta -
Não, eu é que fui ao Civita. Além de dirigir a
revista, eu era do conselho editorial da Abril, fazia parte do
“board”, como diziam eles. Bom, participava das reuniões
e sabia de tudo. Nesta altura, fiquei penalizado com a situação
deles. Em julho de 1975, falei para o Civita: “Eu saio. Durante
dois ou três meses, fico por trás do pano, até as
coisas ficarem bem. Depois, posso chefiar as sucursais da editora
Abril na Europa. Para mim está ótimo”.
AOL
- E qual foi a resposta?
Carta - Ele não quis. Então,
depois de uma semana, voltei a falar com ele: “Bem, se é
para eu ficar aqui na Veja, vou continuar fazendo meu papel. Não
vou ceder (à censura)”. Ele respondeu que tudo bem.
Então, como primeira medida, eu chamei o Plínio Marcos
para fazer uma coluna de esportes, na qual você pode imaginar o
que ele falava. É isso. Depois ofereci emprego a uma pessoa
que fazia parte do grupo do Vladimir Herzog. E voltei a falar com o
Civita, que me perguntou o porquê de eu não tirar
férias. Eu disse: “Está bem, eu tiro”. E
durante as minhas férias, eles se animaram. Quando eu voltei,
o Civita me disse que eu tinha de mandar embora o Plínio
Marcos. Eu respondi: “Não mando. Se tiver de mandar
embora o Plínio Marcos, você manda me manda embora junto
com o Plínio”. E ficou aquele “mando”, “não
mando” até que eu saí.
AOL - E com o
Millôr Fernandes, foi a mesma coisa?
Carta - Ah, isso
foi antes. Na época do Geisel, eu tinha negociado com o Falcão
o fim da censura. Disse a eles: “Vocês querem fazer a
abertura lenta, gradual, porém segura, então, tira a
censura”. O plano deles, teoricamente, era esse. O Golbery (do
Couto e Silva) me disse isso. E, de fato, quatro dias depois que o
Geisel tinha tomado posse, o Falcão me chamou até
Brasília e disse que a censura sairia. Eu disse: “Tudo
bem, mas isso não me implica nenhum tipo de compromisso?”
Ele respondeu que não. Eu voltei e já saímos com
uma capa sobre os exilados. Isso causou certos problemas. Depois
trouxemos uma matéria sobre os 10 anos do Golpe, o que nos
trouxe mais problemas ainda. Até então não havia
a censura. Mas aí veio uma charge do Millôr, que tinha
uma seção na Veja. A censura voltou com tudo e, a
partir daquele momento, veio aquela época a qual me referi
antes, de precisar mandar a matéria para a Polícia
Federal.
AOL - O Roberto Civita chegou a mandar o Millôr
Fernades embora por conta disso?
Carta - Não. Imagine:
ele ofereceu a cabeça do Millôr Fernandes ao Golbery. O
Golbery disse a ele: “Não. Eu não estou te
pedindo isso”. Esse era o Roberto. O Golbery não
conhecia que... Isso eu contei muito no meu primeiro livro (O castelo
de âmbar, Editora Record). Está lá, está
tudo lá. E nunca foi desmentido porque não há
como desmentir. Aquilo lá é a sacrossanta verdade
factual.
AOL - Uma das coisas que o sr. conta no livro é
de que foi o general Golbery quem o avisou que o ministro da Justiça
Silvio Frota iria cair no dia 12 de outubro de 1977. O sr. já
conseguiu descobrir o porquê desta data?
Carta - Não.
Até hoje nunca descobri. Mas só voltando à
questão da censura, isso é um assunto que sempre mexe
comigo. Pior do que Veja, foi a situação dos
alternativos. Veja certamente foi censurada de uma forma duríssima.
Pior ainda foi com os alternativos. Os jornais alternativos, digo, o
Opinião – aliás, naquele tempo já era o
Movimento –, o Pasquim, o jornal do D. Paulo (Evaristo Arns),
da Cúria de São Paulo, enfim... Todo esse tipo de
publicação tinha de mandar o material para Brasília.
Nós, na Veja, mandávamos para a rua Xavier de Toledo,
de segunda à sexta-feira, e para casa dos sensores, aos
sábados. Mas os donos dos jornais alternativos tinham de
mandar para Brasília. Todo o material. Então, alguém
pegava uma pasta, levava até Brasília, entregava. Aí,
os caras faziam mil sacanagens, devolviam o material e alguém
colocava no avião e voltava para o Rio, ou para São
Paulo. Era ainda pior. Eu não conheço censura deste
tipo, na história do século passado, em nenhum lugar
assim. No tempo do fascismo e do nazismo não era assim. Os
censores iam para as redações.
AOL - A
impressão que dá é que, apesar de toda a
censura, naquele tempo o jornalismo era mais crítico.
Carta
- Sem dúvida. A busca da entrelinha era real. Havia muitos
jornalistas que tentavam enfiar nas entrelinhas algumas coisas. Às
vezes, era algo que só a mãe dele percebia, mas não
tem importância. Havia pelo menos esse esforço. Diria
que era um jornalismo melhor do que hoje.
AOL - O sr. fala
como se tivesse perdido o idealismo daquela época.
Carta
- Não. Eu sou muito otimista na ação. Tanto que
temos aqui a melhor redação que eu dirigi na vida. Sou
otimista na ação, sou otimista em todas as bolas, mas
não deixo de ser muito cético em relação
ao País. Porque há uma sociedade ruim, má e um
povo resignado. Então, é difícil você
tirar disso alguma esperança para o atual futuro.
AOL
- Afinal, os militares da época não tinham contas nas
ilhas Cayman.
Carta - Evidentemente, havia gente corrupta. Mas
era gente menos voltada para este aspecto, para essa questão.
Neste aspecto, a culpa deles foi ter protegido muitos corruptos. O
Golbery, que certamente teve um papel muito importante para o bem e,
sobretudo, para o mal, ele é um homem que morreu pobre, que
nunca teve nada. Não era esse o ponto. Agora, ele tinha uns
amigos do capeta. É muito simbólica essa maneira de ver
as coisas. O Andreazza (general Mario Andreazza) também é
outro acusado de não sei o quê. Pois morreu e os amigos
tiveram de fazer uma vaquinha para o enterro. Mas, certamente, ele
tinha uma tranca de amigos muito perigosos.
AOL - E quais
são os nomes desses amigos perigosos?
Carta - É
melhor silenciar... Há referências a todos em “O
castelo de âmbar”.
(AOL, http://noticias.aol.com.br/brasil/fornecedores/aol/2004/03/26/0016.adp, 26/03/2004)