ECONOMIA E NEGÓCIOS
BOLSAS


AS FRAUDES DESAFIAM O CAPITALISMO



Mais um escândalo bilionário apressa a reforma ética de Wall Street e das empresas americanas


Adriana Carvalho e Ronaldo França


Reuters


É preciso muito sangue-frio para enxergar alguma coisa positiva na crise de confiança que abala Wall Street. Mas, para muitos analistas, as revelações de fraudes como a da semana passada, que devem liquidar a WorldCom, a segunda maior empresa de telefonia de longa distância dos Estados Unidos, são o caminho mais curto para a cura dos males do mercado acionário americano, do qual a saúde da economia mundial tanto depende. Os executivos da WorldCom, controladora da brasileira Embratel, falsificaram o balanço, lançando cerca de 4 bilhões de dólares de perdas como se fossem investimentos da empresa. As ações da companhia se derreteram e, no pregão de quinta-feira passada, valiam alguns centavos de dólar. Há três anos, cada ação da WorldCom valia 95 dólares. "É um escândalo ultrajante. Vamos apurar tudo e deter os responsáveis pelos prejuízos aos acionistas e aos empregados da empresa", disse George W. Bush. O presidente americano lembrou que a fraude bilionária da Enron, a megaempresa de energia que implodiu em dezembro do ano passado, foi investigada e seus diretores, punidos com severidade. "Como sempre acontece nesse tipo de crise, o mercado financeiro sofre reformas e sai delas fortalecido", comenta o economista americano Fred Bergsten, diretor do Instituto de Estudos Econômicos Internacionais de Washington. Foi assim na famosa quebra do mercado acionário de 1929, que deu origem à criação do SEC, o comitê que regula as operações em bolsas de valores nos EUA.


Como a revelação da fraude veio na seqüência da descoberta de outras manobras escandalosas de grandes companhias americanas, o mercado mundial reagiu de modo violento. O Brasil foi um dos que mais sofreram. O dólar subiu vertiginosamente, atingindo a marca de 2,88 reais, sua maior cotação nos oito anos de vigência do Plano Real. A classificação de risco de investimentos no país fechou, na própria quarta-feira, em 1.709 pontos. Isso significa que as empresas brasileiras com dívidas em dólar tiveram de pagar 17,09 pontos porcentuais acima da taxa que remunera os investidores que possuem títulos do Tesouro americano. "A reação extremada mostra que há aversão ao risco entre os investidores internacionais, que não se sentem seguros nem nos próprios países quanto mais nos mercados emergentes", diz Dany Rappaport, da Tendências Consultoria. Não existe, em tese, motivo para que o vendaval americano tenha conseqüências graves no país.


Num cenário de médio prazo, o maior risco é o da retração ainda mais intensa dos investimentos estrangeiros. Mas mesmo essa tendência que parece clara agora pode ser revertida em pouco tempo com a melhoria do humor dos agentes econômicos mundiais.


No Brasil, o problema de credibilidade da bolsa americana foi magnificado porque o país tem um déficit em suas contas de 19 bilhões de dólares. Essa é a quantia que o governo precisa captar, neste ano, para rolar sua dívida. "Não é tanto dinheiro, numa economia globalizada. É até relativamente fácil de conseguir em tempos de normalidade", afirma o economista Raul Veloso, especialista em finanças públicas. "O problema é que o Brasil já vem atravessando uma fase difícil, com retração de investimentos devido ao processo eleitoral." Um dos nós do capitalismo é a convivência entre a competição e a confiança, que nem sempre andam juntas. Ainda mais num mundo em que a inadimplência de devedores internacionais beira os 120 bilhões de dólares. O Brasil tem o que os economistas chamam de bons fundamentos. A inflação está dominada, o país vem cumprindo suas metas fiscais e conseguiu até mesmo crescimento do emprego industrial.


No campo eleitoral, também apontado como responsável por tremeliques econômicos, o recuo da candidatura Lula poderia ser lido como fator de tranqüilidade. Mas o nervoso mercado internacional nem sempre consegue ouvir boas notícias. A diferença do Brasil de hoje para o que vivenciou a primeira grande crise do petróleo, em 1973, por exemplo, é a inserção na economia global. O país sente mais os golpes porque está mais próximo, mas é preciso mesmo estar mais perto do olho do furacão para alcançar os investimentos internacionais.


O escândalo da WorldCom tem chance de ser contido com mais sucesso do que foi o da Enron. A WorldCom já era vista como a ovelha negra das teles havia um bom tempo – em contraste com a Enron, que até a erupção do mar de lama que a enterrou era tida como uma empresa modelar.


Em maio, o fundador e então presidente da WorldCom, Benard Ebbers, renunciou ao cargo. Desde então ele vem sendo investigado pela SEC por um empréstimo pessoal de 366 milhões de dólares que obteve com a WorldCom no fim de 2000, para recuperar os prejuízos sofridos com aplicações em ações. O suspeito é que o empréstimo teve a aprovação de todo o corpo de diretores da companhia – falhas graves de altos executivos como essa, aliás, são apontadas como um dos grandes pecados que podem levar uma empresa à falência.


O escândalo da WorldCom é mais um golpe na fragilizada confiança das empresas dos Estados Unidos. Segundo a revista americana de negócios Fortune, só no último ano, 257 companhias listadas em bolsa, com patrimônio total de 258 bilhões de dólares, declararam falência. No primeiro trimestre deste ano, outras 67 seguiram o mesmo caminho.


Junto com as empresas, foram por água abaixo nomes que figuravam entre astros admirados da administração mundial.


Entre eles, Kenneth Lay e Jeffrey Skilling, principais executivos da Enron, e o cientista socialite Samuel Waksal, da ImClone Systems. Companhias de lendária eficiência, como a Boeing, estão também tendo de prestar contas de manobras escusas feitas internamente com o objetivo de esconder do público problemas graves, acusação que pesa sobre Philip Condit e Harry Stonecipher, presidente e vice-presidente da fabricante de jatos. Uma pesquisa realizada pela consultoria americana Booz Allen Hamilton com 2.500 grandes empresas mostra que, comparativamente com 1995, a rotatividade entre os dirigentes aumentou 53%. Em parte, a mobilidade desse carrossel se deve à perda de confiança dos acionistas nos dirigentes das companhias. O público americano está com a sensibilidade à flor da pele para essas questões. Há duas semanas, uma famosa apresentadora de televisão, Martha Stewart, foi envolvida em escândalos e teve o rosto estampado de modo sensacionalista em capas de revistas.


Amigona do cientista Sam Waksal, a rainha dos programas americanos de prendas domésticas foi acusada de obter informações privilegiadas. De posse de dicas preciosas, ela teria vendido suas ações da empresa de Waksal quando ainda valiam alguma coisa. A ImClone desenvolvia uma droga contra o câncer que foi reprovada pela Food and Drugs Administration (FDA), órgão americano que determina que remédios podem ser comercializados no país.


Numa reportagem de capa, a revista Fortune lista dez dos principais pecados que se vêm repetindo em companhias americanas com problemas de gerência e imagem. Os erros fatais mais comuns são o desprezo pelo risco e a ambição desmedida de dirigentes que se lançam em processo de aquisição e fusão visando primordialmente ao ganho financeiro pessoal. Fortune conclui que falta às empresas americanas um código de ética rígido. Muitas das falhas de falta de transparência ficaram escondidas ou foram desprezadas pelo mesmo público que agora coloca toda a culpa das faltas em Wall Street. O motivo foi um só: a euforia com a bolha especulativa das companhias de tecnologia, que criou a ilusão disseminada de prosperidade eterna nos anos 90. Menos de trinta meses depois que a bolha evaporou, as pessoas ainda vivem o desgosto que tipicamente se segue às grandes decepções coletivas e agora só pensam na identificação e na punição dos culpados. "Não importa a velocidade com que as ações sobem, dois mais dois sempre serão quatro", escreveu em 1932 o financista Bernard Baruch, um dos raros investidores que nada perdeu no crash da bolsa americana de 1929. Sábio conselho.






(REVISTA VEJA, ed. 1.758, 3/7/2002)