BANCO NOROESTE
COCHRANE ACUSA
Ex-controlador
do Noroeste fala, pela primeira vez, sobre o desfalque de US$ 242
milhões nos cofres do banco
O ex-banqueiro
Leo Cochrane Júnior não consegue pensar em outra coisa:
há quatro anos e três meses ele persegue os
US$ 242
milhões que sumiram dos cofres do seu banco, o Noroeste,
vendido para o Santander em 1998. O dinheiro teria sumido pelas mãos
do homem de confiança dos
ex-donos do banco, o diretor da
área internacional, Nelson Sakaguchi. Acusado de desviar o
dinheiro, Sakaguchi devolveu as denúncias e responsabilizou os
controladores do Noroeste pelo desfalque.
Desde então, a
vida de Cochrane perdeu parte do antigo brilho. Ex-presidente da
Febraban, gostava de freqüentar festas no Rio e em São
Paulo. Os garçons dos melhores restaurantes o conheciam pelo
nome. Depois do escândalo, os convites escassearam e ele se
recolheu. Cochrane gastou seu tempo – e
US$ 9 milhões
– tentando desembrulhar a história do Noroeste e limpar
seu nome. Nesse nova fase, começou a namorar Michelle
Magalhães, viúva do ex-deputado Luiz Eduardo
Magalhães.
O esforço para recuperar o dinheiro foi
recompensado recentemente. Parte dos recursos – US$ 60 milhões
– foi localizada. Seus advogados agora brigam para trazer o
dinheiro de volta. Cochrane tem outra disputa pela frente: quer
responsabilizar Sakaguchi pelo desfalque. “Ele inventou uma
história da carochinha, é um mentiroso”, ataca
Cochrane, na primeira entrevista que concedeu desde que o escândalo
estourou, em 1998.
Os controladores do banco
conseguiram se livrar da acusação de ter dado um golpe
no Noroeste?
O que tenho a dizer é o que vimos
repetindo durante todo este período. Não existiu
qualquer participação dos ex-controladores do banco no
golpe. De qualquer maneira, o trabalho desenvolvido no exterior por
nossos advogados e investigadores demonstra o que ocorreu com o
dinheiro desviado através de transferências financeiras
para o exterior, transferências estas que somaram
aproximadamente 190 milhões de dólares
norte-americanos.
Como pôde tanto dinheiro ser
desviado sem ter sido notado?
Sem dúvida foi um dos
maiores desfalques do sistema financeiro. Os desvios tiveram a
participação do diretor da Área Internacional,
contando com desvios funcionais de outros funcionários locados
nesta diretoria. Os demonstrativos financeiros não indicavam
qualquer irregularidade, demonstrativos esses que nos eram submetidos
com pareceres sem ressalvas da empresa de auditoria
PriceWaterhouseCoopers.
Parte do dinheiro já
voltou por meio de acordos. Quanto do total desviado o sr. espera
recuperar?
Nós gostaríamos de recuperar todo o
dinheiro, mas em função da complexidade da rede criada
para lavagem de dinheiro, fica difícil avaliar o volume que
será recuperado.
Quanto o sr. gastou em busca
deste dinheiro?
Nós gastamos com advogados,
investigadores e demais despesas algo realmente em torno de 9 milhões
de dólares norte-americanos.
Qual tem sido a
rotina do sr. desde a venda do banco?
Não só a
minha como a dos demais colegas tem sido o acompanhamento rigoroso de
todo esse trabalho.
O senhor continua achando que
apenas o sr. Sakaguchi esteve envolvido no golpe?
Eu acho que
o responsável pelo golpe, mesmo pelo que tem aparecido nas
investigações, é o sr. Sakaguchi. Agora, se há
envolvimento de outros funcionários, isso cabe à
Polícia investigar. Certamente, contudo, não há
envolvimento de nenhum dos ex-controladores.
Nelson
Sakaguchi continua afirmando que fez tudo a mando das famílias
Cochrane e Simonsen...
Tenho a dizer que ele é um
grande mentiroso.
E o processo que os ex-controladores
do banco estão movendo contra a auditoria
PriceWaterhouseCoopers?
A perícia foi concluída.
Foi designada uma audiência para tomada de depoimentos, que
está para ser realizada no próximo dia 21 de junho.
Após esta audiência, o juiz deverá dar a
sentença.
O senhor e o sr. Sakaguchi ainda
mantêm contato?
Não mantenho e não
quero.
O sr. sabia que o sr. Sakaguchi tinha
investimentos ou interesses na Nigéria?
Evidentemente
que não sabia.
Como um executivo experiente
como o sr. Sakaguchi pode ter caído num golpe aplicado por
nigerianos?
Não acredito nesta hipótese. Para
mim, pessoalmente, conhecendo-o por mais de quinze anos, realmente me
parece um conto de carochinha ou, quem sabe, de mãe-de-santo.
(Istoé
Dinheiro,
http://www.terra.com.br/istoedinheiro/249/financas/249_cochrane_acusa.htm,
05/06/2002)
A defesa de Sakaguchi
Nelson
Sakaguchi, ex-diretor do Noroeste, é o principal suspeito pelo
sumiço dos US$ 242 milhões. Sakaguchi diz que é
vítima de uma armação. “Os controladores
desviaram o dinheiro para pagar menos impostos na venda do banco”,
acusa ele, na seguinte entrevista à DINHEIRO:
DINHEIRO
– O que aconteceu com o dinheiro do banco?
NELSON SAKAGUCHI
– Na época, fui informado que o dinheiro foi destinado à
construção de um aeroporto na Nigéria. Não
sei onde está o dinheiro. O ex-controlador Leo Jr. e o
ex-diretor Luiz Mattos sempre souberam e ainda sabem onde está
o dinheiro.
DINHEIRO – Os ex-controladores
encontraram contas no exterior em seu nome e no de sua esposa...
SAKAGUCHI – Isso é uma armação.
Alguém abriu e movimentou contas no meu nome e no de minha
esposa para nos incriminar.
DINHEIRO – Porque os
ex-controladores teriam dsviado o dinheiro?
SAKAGUCHI –
O interesse é fiscal. O imposto de renda sobre a venda do
banco (27,5%) é calculado após o desconto do rombo. É
mais conveniente pagar imposto de US$24,2 milhões (incluindo o
rombo) ou de US$90,8 milhões?
DINHEIRO
– Quais suas chances de ser inocentado na Justiça
Federal?
SAKAGUCHI – Acredito na Justiça.
Ficará provado que fui usado. Ao contrário de muitos,
não tenho fortuna, apenas uma casa, um sítio e uma
aposentadoria. Tenho a verdade ao meu lado e estou lutando por ela.
(Istoé Dinheiro, http://www.terra.com.br/istoedinheiro/249/financas/249_cochrane_acusa.htm, 05/06/2002)