Filial
brasileira do McDonald's teria pago por benefícios
tributários
Sábado, 17 de Dezembro de 2005,
3h53
Fonte: INVERTIA
Há cerca de
dois anos, a filial brasileira do McDonald's, a maior rede de
fast-food do mundo, está sendo investigada devido à
suspeita de ter "comprado" uma norma da Receita Federal
publicada em fevereiro de 2002 e que permitiu à empresa uma
economia de pelo menos R$ 100 milhões em impostos.
De
acordo com reportagem publicada na última edição
da revista Veja, baseada em documentos até então
inéditos, a direção do McDonald's pagou R$ 5
milhões a integrantes da Receita pela norma e, na tentativa de
ocultar o suposto suborno, falsificou uma nota fiscal.
A Veja
teve acesso à versão supostamente falsa da nota e ao
documento verdadeiro. Segundo a revista, a nota adulterada suprime
digitalmente a descrição pelo serviço prestado,
enquanto a original aponta que os R$ 5 milhões pagos
correspondem a serviço de assessoria para "dedutibilidade
de royalties".
Relatório sigiloso da corregedoria
da própria receita, parte fundamental das investigações,
revela detalhes da operação. Segundo o documento, os R$
5 milhões foram pagos em três parcelas, sendo que a
última e maior, no valor de R$ 3,7 milhões, foi
repassada em 8 de março de 2002 - dez dias após a
publicação da norma tributária no Diário
Oficial da União.
O dinheiro foi entregue à
consultoria RPN, de Brasília, que repassou R$ 1,5 milhão
a outra empresa do ramo, também na capital federal - a Martins
Carneiro, sociedade entre dois especialistas em questões
tributárias: Paulo Baltazar Carneiro e Sandro Martins.
Na
época do pagamento, Martins ainda trabalhava como auditor da
Receita, enquanto Carneiro já estava aposentado. Sendro
Martins era assessor do então secretário da Receita,
Everardo Maciel, e na atual gestão, de Jorge Rachid, foi
rebaixado de posto assim que as investigações tiveram
início.
Ainda segundo a Veja, os R$ 3,5 milhões
que restaram após o repasse à Martins Carneiro não
ficaram na conta da RPN. O dinheiro entregue à empresa, na
época de propriedade do já falecido Jone Perdigão
Nogueira, foi sacado em seguida em espécie, na boca do caixa.
Atualmente, os investigadores tentam rastrear o destino desse
dinheiro a fim de apurar se há outros envolvidos no caso
dentro da Receita.
NORMA
A publicação
da norma tributária foi solicitada em outubro de 2001 pela
Associação Brasileira de Franchising, mas, diz a Veja,
o texto foi redigido pelo McDonald's. Pedia-se o desconto integral no
Imposto de Renda do pagamento de royalties ou a elevação
da alíquota de dedução no IR de 1% para 5%.
O
pleito recebeu parecer favorável e, em um trâmite
rápido, a norma foi publicada em 26 de fevereiro de 2002, com
a assinatura de Everardo Maciel. Em seguida, o McDonald's ingressou
com recurso solicitando a anulação de multas em função
da dedução irregular de royalties do IR - que teria
chegado a 10%, em vez do 1% determinado pela Receita.
A
celeridade na aprovação da norma e a concidência
nas datas da sua publicação e do pagamento do R$ 1,5
milhão à Martins Carneiro despertou a suspeita da
corregedoria, que desde então deu início às
apurações.
Foi então que apareceu a nota
supostamente falsificada, apresentada pela direção do
McDonald's, no valor de R$ 3,7 milhões, pagos à RPN,
supostamente por uma "assessoria empresarial". O então
gestor da RPN na época, Jone Perdigão, confirmou a
versão e informou o repasse de R$ 1,5 milhão para a
Martins Carneiro, alegando ter contratado Baltazar Carneiro e Sandro
Martins para darem palestras a seus clientes sobre tributos.
Porém
a versão não convenceu os auditores, pois se apurou que
as referidas palestras sairiam ao custo de R$ 300 mil e, fora o
McDonald's, os demais clientes da RPN disseram nunca terem ouvido
falar das mesmas. A versão de suborno ganhou mais força
com o testemunho sigiloso de uma pessoa que trabalhou para o
McDonald's, que confirmou a suposta existência de um acerto com
a RPN para conseguir o aumento da dedução dos royalties
no IR. E garantiu haver documentos da rede de fast-food revelando
etapas da operação.
Pressionada, a diretoria do
MacDonald's apresentou à Receita documentação do
caso em setembro passado, incluindo a nota original, mostrando que a
RPN de fato fora contratada para trabalhar em favor da norma
tributária. Também apareceu o contrato com a
consultoria, revelando mais detalhes, porém uma página
do mesmo teria desaparecido, sem haver explicação para
isso.
Por conta das irregularidades, a direção
da filial brasileira da rede de fast-food demitiu importantes membros
da direção, como Marcel Fleischmann, que deixou a
presidência da filial. Especula-se que o MacDonald's tenha
fornecido os documentos comprometedores para desvincular as
irregularidades da matriz, sediada nos Estados Unidos - onde a
legislação prevê penas duras para casos como o
investigado.
(Invertia, Notícias, http://br.invertia.com/noticias/noticia.aspx?idNoticia=200512170653_INV_28899591&idtel=, 17/12/2005)