A BOA
LIÇÃO DO CASO ENRON
JOSÉ ROBERTO SAGUAS *
O escândalo Enron está
sendo um divisor de águas na história dos serviços
de auditoria e consultoria em todo o mundo. O episódio
provocou uma crise quase inimaginável: colocou em xeque a
credibilidade das empresas de auditoria, prinipalmente as
internacionais chamadas de "big five" (Arthur Andersen,
Price Waterhous & Coopers, Deloitte & Touche, KPMG e Ernst &
Young), pois não há como atenuar a grave omissão
praticada por uma delas no caso Enron. Outras auditorias também
tiveram problemas semelhantes recentemente.
Com certeza, há um evidente
conflito de interesses entre os trabalhos prestados por uma mesma
firma para áreas de auditoria e aqueles tipicamente voltados
para consultoria. Fazer auditoria e consultoria simultaneamente é,
numa analogia, como uma mesma empresa analisar o passado,
diagnosticar o presente e prever o futuro. Ou seja, o risco é
altíssimo de atestar que o presente e o futuro serão
perfeitos quando virarem passado. O episódio da Enron mostrou
bem no desastre que isso pode dar.
Para compreendermos os fatos é
preciso conceituar a diferença entre os dois tipos de serviço:
os de auditoria devem ser isentos de qualquer interesse a não
ser a análise sistemática da contabilidade formal das
empresas. A matéria-prima é baseada nos números
resultantes da operação da empresa e sua consistência,
usando como método para a análise "os princípios
universalmente aceitos de práticas contábeis".
Isto significa checar o que já foi realizado e, evidentemente,
se há sinais de eventuais fraudes, um indicador fundamental
para os acionistas, na maioria das vezes distantes do dia-a-dia da
empresa. Pagos pelas empresas, os serviços de auditoria têm
como clientes atentos os acionistas e os profissionais que atuam no
mercado financeiro.
Enquanto a auditoria busca
analisar o passado, os trabalhos de consultoria tratam de
diagnosticar o presente e dar diretrizes para o futuro. Cabe aos
profissionais das consultorias colaborar na gestão das
empresas e na sua transformação cultural e atualização
tecnológica Exigem, portanto, um grau de conhecimento técnico
muito maior que os trabaIhos de auditoria e, por isso, são
muito mais dispendiosos.
A partir dos dados históricos
da empresa, um auditor tem condições de identificar
onde existem problemas. Já a busca das soluções
é (e deve ser) recomendada pelos consultores. Feitas a
auditoria e a consultoria por uma mesma empresa, cria-se uma relação
quase de pressão por parte das auditorias, pois, se aqueles
problemas não forem resolvidos, provavelmente constarão
de ressalvas nos relatórios anuais de auditoria, o que pode
depreciar a credibilidade da empresa junto a seus acionistas e ao
mercado. Fica, portanto, fácil convencer os executivos da
empresa auditada, até por conveniência de tempo, em de
fato contratar esses serviços da mesma empresa de auditoria, e
o que se segue é uma relação de dependência
maléfica e infecciosa.
A Securities and Exchange
Commission (SEC) americana, organismo equivalente à Comissão
de Valores Mobiliários (CVM) brasileira, vinha, já há
algum tempo, alertando para essa perigosa situação. Mas
os "lobbies" atuaram no sentido contrário e, na
realidade, essa prática acabou se perpetuando.
No caso da Enron, essa situação
levou os auditores a deixairem passar, sem nenhuma ressalva, os altos
salários e os bônus dos executivos da empresa, aplicação
dos fundos de pensão dos empregados na própria empresa
e outras ilegalidades igualmente escandalosas, especialmente no campo
político.
Não há como
justificar, do ponto de vista ético, a coexistência
desses dois tipos de trabalho em uma mesma empresa, até porque
os trabalhos de consultoría exigem especializações
que uma empresa de auditoria não detém por sua própria
base de formação de profissionais. A tendência é
para uma diminuição da qualidade final dos serviços.
Cabe ainda citar os serviços
de naturza tributária fomecidos pelas empresas de auditoria.
Vale o mesmo raciocínio, ou seja, como pode uma empresa de
auditoria atestar com isenção que a situação
tributária da empresa auditada é regular, se foi ela
mesma que forneceu as bases legais para a correção de
eventuais distorções?
O que preocupa, neste momento, é
quantas empresas estão em situação semelhante à
da Enron, sobretudo no Brasil, em que o mercado de capitais já
é fraco institucionalmente e, portanto, precisa rnais do que
nunca de credibilidade.
Não há um falso
dilema: as empresas de auditoria devem sair do mercado de consultona.
Quem ainda atua nas duas áreas já está,
acertadamente, optando por uma ou outra. Certamente os auditores
sérios não só desejam isso, como não
querem ver seus nomes conspurcados no futuro com outros escândalos
como o da Enron. E ainda por cima serem solidários em
processos que podem somar bilhões de dólares.
Essa é uma lição
positiva que o caso Enron vai deixar.
(GAZETA MERCANTIL, 18/2/2002, p. 3)