Seu País
DANTAS E OS PETISTAS
ESPIONAGEM
O ministro da Justiça não vê problemas em receber
o banqueiro acusado de fabricar dossiê contra o presidente
POR
SÉRGIO LÍRIO
É quase impossível,
mesmo nos porões irrespiráveis da história do
capitalismo à brasileira, apontar um homem de negócios
associado a termos tão desabonadores. Em decisões
judiciais nas Ilhas Cayman e nos Estados Unidos, em investigações
da Polícia Federal e do Ministério Público no
Brasil, o nome do banqueiro Daniel Dantas, não raras vezes, é
antecedido ou sucedido por verbos como mentir, roubar, chantagear,
enganar, espionar, corromper. Inúmeras provas documentais e
testemunhais, anexadas a dezenas de processos na Justiça, aqui
e no exterior, mostram que o dono do Opportunity liderou, a partir da
privatização da Telebrás, em 1998, um esquema de
fraude comparável ao praticado pelos executivos da
norte-americana Enron. Com uma diferença. Até agora,
não há nenhum sinal de que os responsáveis por
afundar a companhia energética do Texas, e lesar milhares de
acionistas e consumidores, estejam envolvidos em qualquer conspiração
para derrubar o presidente dos Estados Unidos ou sejam mentores de
dossiês com dados financeiros de políticos de seu
país.
Dantas. segundo a revista Veja, fez
isso e muito mais. Ele estaria por trás da montagem de um
robusto dossiê que foi entregue à publicação
pelo ex-agente da CIA e ex-diretor da Kroll Frank Holder, e que
relacionava, entre outros papéis, supostas contas no exterior
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de ministros,
ex-ministros e senadores. São vários os indícios
de que a documentação é falsa.
Apesar da
gravidade da revelação, o dono do Opportunity foi
tratado por parte do governo e do Partido dos Trabalhadores com uma
deferência normalmente dispensada ao papa ou ao dalai-lama. Na
noite da terça-feira 16, o banqueiro encontrou-se com o
ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, uma das
vítimas do dossiê, na casa em Brasília, do
senador Heráclito Fortes (PFL-PI), espécie de líder
da "bancada do orelhudo". Também participaram os
deputados federais José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Sigmaringa
Seixas (PT-DF).
Parênteses: na quinta-feira 25, os dois
ex-chefões da Enron Kenneth Lay e Jeffrey Skilling foram
condenados por um júri popular pelos crimes de fraude e
conspiração. Devem pegar entre 20 e 30 anos de
cadeia.
Os
ataques do PCC em São Paulo ajudaram a abafar, na imprensa, a
reunião na casa de Heráclito Fortes, mas isso não
significa que os motivos do encontro, revestido de certa naturalidade
pelo governo, a ponto de o ministro Tarso Genro defini-lo como
"institucional", ainda precisam ser mais bem explicados. No
mínimo, a reunião causou constrangimentos e deu margem
para interpretações de que o governo cedeu à
chantagem e preferiu fazer um acordo nos bastidores. A Polícia
Federal, que abriu inquérito para apurar quem fabricou e vazou
o dossiê, criticou a atitude do ministro. Deputados e senadores
do PT também demonstraram desconforto com a situação,
principalmente pelo fato de os participantes só terem admitido
a existência do convescote depois de revelado pela própria
revista Veja, quatro
dias depois.
"Tenho vários encontros fora da
agenda. Esse foi mais um. Soube que ele (Dantas) queria
se explicar. Uma das minhas funções é conversar,
ouvir os cidadãos. No dia seguinte, informei ao presidente da
reunião", afirmou Thomaz Bastos a CartaCapital.
"Não teve acordo.
Disse-lhe que o governo acreditava ser ele o autor do dossiê e
que a Polícia Federal havia aberto inquérito para
apurar os fatos."
A reunião durou cerca de duas
horas. Para "quebrar o clima", os participantes conversaram
sobre os ataques do PCC em São Paulo e sobre futebol. Dantas
teria narrado algumas de suas façanhas no mercado financeiro,
aparentemente as legais. O assunto que motivou o encontro ocupou
menos de meia hora da conversa. O banqueiro negou a autoria do dossiê
e de tê-lo repassado a Veja. E
repetiu a ladainha: teria sido informado da existência das
supostas contas, mas não dera crédito às
informações. Não falou, nem lhe foi perguntado,
quem o havia informado nem se desconfiava a quem, a não ser
ele, interessaria divulgar dados contra integrantes do governo.
Depois de se justificar, DD entregou uma carta de quatro parágrafos
ao ministro com explicações. Pelo conteúdo da
correspondência e pelo que os participantes dizem ter tratado
na casa do pefelista, Márcio Thomaz Bastos poderia ter evitado
o encontro. Bastaria, diante do pedido de audiência, sugerir ao
banqueiro que deixasse a carta na portaria do ministério ou
que a enviasse pelos Correios, como fazem cidadãos sem acesso
privilegiado ao poder. Durante uma rodada de quibes e esfirras, o
ministro e o fabricante de dossiês falaram de amenidades. Em
seguida, Bastos, Cardozo e Seixas partiram no carro do deputado
brasiliense.
Admita-se que nada de mais foi discutido no
encontro. Ainda assim, a reunião entre o banqueiro acusado de
cometer um crime e uma de suas vítimas coroou uma estratégia
na qual o Palácio do Planalto e parte do PT, ao menos em
público, se mostraram mais indignados com o conteúdo da
reportagem de Veja do
que com as provas de que Dantas é o mentor de um novo Dossiê
Cayman. Por que tanto temor em deter, de uma vez por todas, as
malfeitorias do orelhudo?
Há várias hipóteses.
O dono do Opportunity, mostra a análise de decisões
judiciais contrárias a ele, desenvolveu uma técnica
para espalhar sua influência na política e nos negócios.
Ela é baseada em três pilares. Os maleáveis são
corrompidos. Dos incautos, Dantas tenta se aproximar por meio de
parentes e amigos. Já os inflexíveis viram alvo de
espionagem e dossiês. Não se sabe até que ponto
os interesses do banco carioca e de parte da ex-cúpula petista
andaram unidos, mas é possível encontrar gente do
partido em cada uma dessas categorias, a ponto de um ministro de
Estado definir assim a posição da legenda em relação
ao banqueiro: "O medo do PT tem nome. É Daniel
Dantas".
Voltemos à reunião. Márcio
Thomaz Bastos soube do interesse do banqueiro em encontrá-lo
por meio de Sigmaringa Seixas. O deputado diz ter sido procurado por
um assessor do Opportunity, cujo nome ele se recusa a revelar,
conhecido de outros tempos. "Levei o assunto ao Márcio.
Ele não viu nada de errado em conversar com o Dantas. Quem
deve responder se o encontro foi ou não apropriado é o
ministro", afirma. Por sugestão de Bastos, Seixas
convidou o colega José Eduardo Cardozo para ir também.
Ambos serviriam de testemunha.
Relações
anteriores ligam os participantes da reunião. Bastos defendeu
no início dos anos 90 Luiz Octávio da Motta Veiga,
então presidente da Petrobras. Uma década depois, Motta
Veiga, já funcionário do Opportunity, levou ao encontro
do ainda advogado a presidente da Brasil Telecom Carla Cico. Queriam
um parecer do escritório do futuro ministro sobre a suposta
venda superfaturada da Companhia Riograndense de Telecomunicações
(CRT). A BrT pagou à Telefônica 850 milhões de
dólares pelo controle da CRT. O Opportunity, um dos
acionistas, achava que a empresa valia 600 milhões de dólares.
E acusava a Telecom Italia, também sócia, de fraude na
operação. Márcio Thomaz Bastos diz que recusou o
trabalho por ter emitido parecer a advogados que estavam do outro
lado da disputa. O ministro nega ter conhecido ou encontrado Dantas
antes da reunião na casa de Heráclito Fortes.
O
deputado Cardozo também esteve metido no caso da venda da CRT.
Em 2003, no início do mandato, o parlamentar chegou a fazer
uma representação ao Ministério Público
Federal com base em um dossiê que apontava conluio entre
integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso e executivos da
Telecom Italia na suposta compra superfaturada da operadora
gaúcha. "Até hoje tenho convicção de
que houve algo errado nesse negócio", afirma o
parlamentar.
A pouca familiaridade, àquela altura, com
os métodos do Opportunity pode ter levado Cardozo a servir de
instrumento involuntário na guerra comercial pelo controle das
empresas de telecomunicações no Brasil. À época,
os aliados de Silvio Berlusconi, primeiro-ministro de 2001 a 2006,
encontraram na Telecom Italia uma forma de atingir a DS, ex-
Partido Comunista Italiano, principal obstáculo às
pretensões do político dono do Milan e de um
conglomerado de comunicação. O então presidente
da empresa Roberto Colaninno era próximo ao partido de
esquerda. Foi uma fase em que jornais ligados a Berlusconi passaram a
divulgar com freqüência reportagens sobre escândalos
da multinacional em diversas partes do mundo. Nos bastidores, o
Opportunity alimentava as acusações contra a Telecom
Italia. O deputado petista virou celebridade na imprensa daquele
país por causa da representação ao MP, arquivada
menos de um ano depois.
Segundo o parlamentar, depois de
entregar o dossiê a procuradores de Brasília, executivos
da Brasil Telecom indicados por Dantas o procuraram. Ele afirma que,
naquele tempo, desconhecia a participação do
Opportunity na elaboração das denúncias sobre a
venda da CRT e achou que a BrT poderia contribuir com as apurações.
Isso explicaria, segundo ele, o contato com Sami Arap Sobrinho,
ex-diretor-jurídico da empresa.
Explicaria também
o teor de um e-mail trocado entre Arap e Humberto Braz, lobista de
Dantas em Brasília. A agenda de Braz, publicada por Carta
Capital na edição
377 (de 25 de janeiro deste ano), é um roteiro de como o
banqueiro operava seus interesses políticos em Brasília.
Há encontros regulares com personagens centrais da crise
política, entre eles o publicitário Marcos Valério
Fernandes de Souza, o ex-presidente do Banco Popular do Brasil Ivan
Guimarães, o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, amigo
do ex-ministro José Dirceu, e o marqueteiro Duda Mendonça.
O
e-mail, apreendido juntamente com a agenda de Braz e datado de 8 de
julho de 2004, narra uma conversa de Arap com Cardozo. O deputado
estava em viagem à Itália.
Segundo Arap, o
parlamentar não se sentia confortável, naquele momento,
em se encontrar com políticos ligados a Berlusconi, dando a
entender que a BrT havia solicitado esses encontros. O diretor da
companhia frisa, porém, no e-mail: "Comprometeu-se,
todavia, a tentar obter o máximo de informações
sobre nossos interesses e, numa viagem separada (não
custeada pelo PT), reunir-se com
pessoas de nosso interesse".
Cardozo confirma a conversa
com Arap, diz que realmente o executivo lhe pediu para se encontrar
com deputados italianos ligados a Berlusconi, mas critica o tom usado
pelo executivo no e-mail. "Disse mesmo que não poderia me
reunir com a oposição italiana, por causa das ligações
do PT com a DS. Mas não me comprometi a nada. Meu único
objetivo era acrescentar informações à
investigação no Brasil, que achava, e ainda acho,
relevante. Não trabalhei pelos interesses de ninguém",
diz.
Registre-se, em favor do deputado paulista, que, durante
o caricatural depoimento de Dantas à CPI dos Correios, em
novembro de 2005, ele foi um dos poucos a argüir o banqueiro com
alguma firmeza e substância.
A divisão da bancada
sobre a convocação de Dantas, na CPI dos Correios, é,
aliás, outro sinal de como o orelhudo provoca calafrios em
parte do Partido dos Trabalhadores. Houve muitas tentativas de
impedir ou retardar a convocação. Um dos que atuaram
para convencer a legenda a desistir do requerimento foi o deputado
Paulo Delgado (PT-MG). O parlamentar mineiro expressou a um dos
técnicos que assessoravam a bancada preocupação
com a divulgação dos trajetos dos aviões do
consórcio Voa, jatinhos pagos com dinheiro da Brasil Telecom,
mas usados de acordo com os interesses particulares de
Dantas.
Delgado, especialista em Relações
Internacionais, mostrou-se particularmente conectado a outros
assuntos a envolver Dantas. O deputado criticou a Operação
Chacal, que apreendeu, em outubro de 2004, documentos na sede do
Opportunity e na casa do banqueiro, e escreveu artigos contra o
acordo firmado entre o Citibank e os fundos de pensão para a
venda conjunta da Brasil Telecom, bombardeado pelos aliados de DD no
Congresso. Pelo que se
tem conhecimento, foi a única vez que o parlamentar manifestou
opinião sobre uma operação da PF no governo
Lula. Não há registros também de que Delgado
acompanhe assuntos relacionados a empresas de telefonia. O deputado
não respondeu aos pedidos de entrevista de Carta
Capital.
Não se
pode, porém, atribuir a Delgado o fracasso da aparente
estratégia petista para interpelar o banqueiro no depoimento
de seis meses atrás. Parlamentares do partido passaram mais de
uma semana a se preparar, mas dois dias antes da sessão foram
informados de que o PT havia fechado acordo com o PSDB e o PFL para
adiar a ida do banqueiro ao Congresso. Em troca, a CPI discutiria a
aprovação do requerimento de quebra do disco rígido
dos computadores do Opportunity, apreendido durante a Operação
Chacal. Era mentira. Deputados e senadores só souberam que a
sessão estava de pé horas antes de DD pisar na sala da
comissão de inquérito. Se a manobra teve ou não
efeito fundamental sobre o desempenho pífio da bancada não
se sabe, mas o fato é que o banqueiro nadou de braçadas
diante de governistas que preferiram bater boca com a oposição
a pressionar o depoente.
Parte da mídia brasileira
descobriu agora que Dantas está no centro da crise política,
algo que CartaCapital aponta
há muito tempo. Muitos vislumbram, porém, uma chance de
derrubar o governo Lula.
Só o andamento das
investigações poderá confirmar ou não
essa possibilidade. Mas, até o momento, a história das
relações do Opportunity com uma banda do PT é,
no fim das contas, a crônica de uma investida malsucedida. DD
tinha dois objetivos: livrar-se das investigações sobre
o caso Kroll e manter-se à frente de empresas avaliadas em
mais de 15 bilhões de reais. Os principais empecilhos eram a
Polícia Federal e Sérgio Rosa, presidente da Previ,
fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil,
que tenta evitar prejuízos à fundação.
Nada disso aconteceu. O banqueiro acabou denunciado pelo
Ministério Público Federal e responde a ação
que o acusa de comandar uma "quadrilha internacional de
espionagem". A tentativa de derrubar Rosa não prosperou e
o banqueiro perdeu o controle da Brasil Telecom em outubro do ano
passado.
Nesse processo, faltam evidências de que Lula
tenha interferido na disputa, ao contrário de seu antecessor.
Em 2002, quando o Opportunity estava pressionado pelos demais sócios
das empresas de telefonia, Dantas foi recebido à noite no
Palácio do Planalto por Fernando Henrique Cardoso, vindo
diretamente das Ilhas Cayman. Poucos dias depois, o governo
interferiu na Previ e deu fôlego ao banqueiro na queda-de-braço
contra as fundações.
Houve quem tentou ajudá-lo
no PT e no governo. Delúbio Soares esteve com Cados Rodenburg,
sócio e ex-cunhado de Dantas. Ivan Guimarães
encontrou-se várias vezes com o lobista Humberto Braz. Antonio
Carlos de Almeida Castro, o Kakay, amigo de Dirceu, foi contratado
como advogado pela Brasil Telecom. Há registros de pagamentos
de 8 milhões de reais a seu escritório. O ex-diretor de
Marketing do Banco do Brasil, Henrique Pizzolatto, ainda precisa
explicar a mudança repentina de lado na disputa comercial e as
pressões que exerceu no conselho de administração
da Previ contra Sérgio Rosa.
O ex-ministro José
Dirceu nega interferências a favor de Dantas, mas ele é
uma sombra constante no episódio. CartaCapital ouviu
relatos de interferência direta de Dirceu, que ele nega, a
favor de DD, na PF e no Superior Tribunal de Justiça.
Na
semana passada, a Polícia Federal recebeu 25 caixas enviadas
pela Kroll International com os arquivos da investigação
conduzida no Brasil a pedido do Opportunity. Eles podem esclarecer
quem no governo Lula defendeu os interesses do banqueiro. E de que
maneira.
Um aperitivo do que há na montanha de
documentos foi publicado por Veja. Em
reunião datada de 10 de fevereiro de 2005, da qual
participaram, entre outros, Dantas, Cada Cico, Frank Holder e Roberto
Mangabeira Unger, que prestou consultoria à instituição
financeira, o dono do Opportunity narrou como conseguiu uma entrada
no governo. Descreve a ata da reunião: "Ele (Dantas)
afirmou especificamente ter
recebido confirmação direta de uma fonte muito próxima
ao ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de que enquanto
Dirceu não fosse investigado (...) ele apoiaria
Dantas".
Talvez, passados dois anos da divulgação
da espionagem de desafetos e concorrentes do banqueiro e um ano da
eclosão do escândalo do Valerioduto, a documentação
entregue pela Kroll responda a duas perguntas cruciais: Quem, no PT,
tem medo de Daniel Dantas? E por quê? .
TERREIRO AMIGO
Dantas
foi convidado a falar na CCJ do Senado, comandada pelo aliado ACM
A
oposição deu um nó na bancada governista. Daniel
Dantas não será convocado pela CPI dos Bingos, como
queriam os petistas. Em compensação, terá um
palco mais eficiente para difundir a versão que lhe convém
sobre suas relações com o Partido dos Trabalhadores, a
Comissão de Constituição e Justiça (CCJ)
do Senado, terreno do velho aliado do banqueiro, o baiano Antonio
Carlos Magalhães. Na CCJ, Dantas não será
obrigado a assinar um termo no qual se compromete a dizer a verdade.
Os senadores também convidaram Gustavo Marin, presidente do
Citibank no Brasil. Os depoimentos foram marcados para o dia
7.
Enquanto os governistas ficaram com o ônus de vetar a
convocação do banqueiro à CPI, líderes do
PFL e do PSDB operavam para garantir espaço para Dantas
desempenhar o papel de pobre empresário achacado pelos
petistas, apesar de todas as evidências de que ele é, na
verdade, o achacador.
Os oposicionistas pretendem ainda
ressuscitar a discussão sobre o acordo firmado entre o
Citibank e os fundos de pensão. Segundo o acerto, as fundações
se comprometem a comprar a parte do banco americano na Brasil Telecom
se, até o fim de 2007. ambos não consigam vender suas
participações conjuntamente. Alvo de investigações
na CPI e de discursos inflamados de tucanos e pefelistas. o acordo é
uma das peças de resistência da tese de defesa do dono
do Opportunity. Dantas afirma que o Citi se aliou ao governo para
tirá-lo das empresas de telefonia. Coincidência ou não,
os depoimentos estão marcados para a véspera de a
Justiça de Nova York decidir se o banqueiro pode ou não
usar um acordo, assinado por ele próprio em nome dos demais
associados, para retomar o controle da BrT.
Desde o estouro da
crise política, Dantas vem sendo usado como um estepe da
oposição. Em determinados momentos, ele serviu como
moeda de troca para impedir que os governistas avançassem
sobre as ligações de Marcos Valério com tucanos
e pefelistas. Em outros, ele é tratado como uma bomba capaz de
fazer o que não se conseguiu até agora, implodir o
governo Lula.
O problema dessa estratégia é que
o banqueiro é uma arma sem controle. Alçado ao mundo
pelas mãos de ACM, cevado durante o processo de privatização
na era de Fernando Henrique Cardoso, Dantas, a qualquer momento, pode
se virar contra tucanos e pefelistas.
O desconforto é
tanto que integrantes do PFL andam incomodados com a relação
subalterna do piauiense Heráclito Fortes com o Opportunity. A
revelação de que o senador ciceroneou o encontro entre
Dantas e Márcio Thomaz Bastos irritou vários
integrantes da legenda. Segundo O Estado de S.
Paulo, correligionários
consideram que a forma insistente com que Heráclito defende DD
pode levar a opinião pública a tomar Dantas como um dos
quadros do partido.
Será essa uma percepção
tão equivocada? Pela resposta de Heráclito, não.
Ao tomar conhecimento das críticas, o senador afirmou: "Quando
eu cheguei ao partido, o Dantas já estava lá".
NOS EUA É DIFERENTE
Executivos
da Enron são condenados e devem pegar até 30 anos de
prisão
Enquanto no Brasil punições a
criminosos de colarinho branco são raras e muitas vezes não
passam de multas de somas irrisórias, a Justiça dos
Estados Unidos provou que funciona. E bem. Dois executivos, Kenneth
Lay e Jeffrey Skilling, que comandaram, nos anos 90, a empresa de
energia Enron, foram considerados culpados pelos crimes de fraude e
conspiração.
O caso foi apreciado por um júri
popular, composto por oito mulheres e quatro homens. Depois de seis
dias de julgamento, Skilling foi condenado em 18 acusações
de fraude e conspiração e uma por uso de informação
privilegiada. Os jurados condenaram Lay em seis acusações
de fraude e conspiração e quatro por fraude bancária.
As sentenças, a ser cumpridas em prisão, variam de
cinco a dez anos para cada acusação. A decisão
da pena será anunciada pelo juiz no dia 11 de setembro.
Segundo o promotor-geral do caso, Paul McNulty, "ninguém,
nem o primeiro escalão das 500 maiores companhias listadas
pela revista Forbes, está acima da lei'.
O caso
Enron foi um dos mais ruidosos da década passada. As ações
da empresa valorizaram-se excessivamente, tornaram-se darlings em
Wall Street, com base em balanços anabolizados e relatórios
irrealistas de perspectivas de lucros. O castelo de cartas ruiu no
início de 2001, com a descoberta das ilicitudes. Segundo o que
o júri considerou, Skilling e Lay mentiram para os
investidores, os seus empregados e o governo.
O julgamento e a
condenação dos ex-executivos da Enron são
exemplares, mas não foram os primeiros do mundo empresarial.
Também recentemente julgados, e cumpriram sentenças,
Martha Stewart - um mix de empresária e apresentadora de
televisão - e Frank Quattrone, do setor de tecnologia
bancária, além de casos menores, envolvendo as empresas
Tyco, Adelphia Communications e HealthSouth.
Esses escândalos
financeiros foram um dos principais motivos da implementação
da Lei Sarbanes-Oxley, que impõe um rigor redobrado na
auditoria dos números de empresas de capital aberto. Até
mesmo as companhias brasileiras, que são negociadas na Bolsa
de Nova York, têm de se enquadrar nos rigores da chamada Sox.
Iniciativa de país civilizado.
(Carta Capital, www.cartacapital.com.br, ano 12, ed. 395, 31/05/2006, pp. 1ª, 24-29)