3ª PESQUISA LANCE!-IBOPE
FUTEBOL
DA ELITE
LANCEPRESS!
"Futebol é
coisa do povão" ou "futebol é diversão
de pobre". Quem nunca ouviu um desses comentários? No
entanto, trata-se de mais uma crença popular derrubada pela 3ª
Pesquisa LANCE-Ibope. O levantamento não deixa dúvida:
o interesse pela modalidade é maior entre a parcela da
população com maior poder aquisitivo.
Só
para se ter idéia, a metodologia da pesquisa definiu cinco
faixas de renda: até um salário mínimo, de um a
dois, de dois a cinco, de cinco a dez e acima de dez. Entre os que
declararam receber até um salário, o percentual que
disse "gostar muito de futebol" foi de 32,8%. O índice
sobe a cada faixa até o máximo de 45% entre os
privilegiados que recebem mais do que dez. Nesse mesmo grupo, o
índice de quem "não gosta nada" ficou em
19,2%.
Os números ficam ainda mais contundentes ao se
somar os 35,5% daqueles que disseram "gostar um pouco" de
futebol. Nesse caso, o percentual da chamada elite que de alguma
forma gosta de futebol atinge 80,5% entre a parcela da população
com maior receita. O mesmo cálculo entre a faixa de renda
imediatamente abaixo (de cinco a dez) é próximo:
79,4%.
Os número são absolutamente coerentes. Ao
se inverter a análise, ou seja, considerar somente a resposta
"não gosta nada" de futebol, os percentuais crescem
conforme diminuiu a renda do indivíduo. Vai de 19,2% entre as
pessoas com mais de dez salários até 34,3% entre
aqueles com até um salário.
Em 1998, a pesquisa
era dividida em apenas três classes: até dois, mais de
dois a cinco e acima de cinco salários. Ao adaptar o formato
de 2004 àquele adotado há seis anos (por exemplo,
agregar as faixas "até um" e "de um a dois"
presentes no levantamento atual à de "até dois"
de 98), os resultados mostram o aumento dos índices.
No
caso daqueles que se encontram na faixa de rendimento mais elevada,
que compreende não só os ricos, mas também a
classe média, o interesse por futebol saltou de 63% para
79,9%. Tais números são maiores do que a média
total, que passou de 53% para 71,9%.
Por outro lado, a média
dos que não gostam ou não têm interesse caiu de
44% (1998) para 27,7% (2004). Entre a elite os números
despencaram de 35% para 19,8%. Já dentro do universo da
população mais simples, o desinteresse pelo futebol era
de 54% no primeiro levantamento e hoje é de 31,9%.
(LANCE!,
7/10/2004)
TORCIDA, NÃO:
CLIENTELA
LANCEPRESS!
No atual
momento do futebol brasileiro, nenhum desafio é maior para o
marketing dos clubes do que o de transformar seus torcedores em
consumidores. Ou, como preferem dizer alguns profissionais
especializados em marketing esportivo, o objetivo é "converter
paixão em receita".
E a Terceira Pesquisa
Lance!-Ibope prova que, ao contrário do que historicamente se
pensava, futebol não é "coisa do povão".
Diante da pergunta "o(a) sr.(a) diria que gosta muito, gosta um
pouco ou não gosta nada de futebol", o índice
daqueles que disseram "gostar muito" sobe conforme a faixa
de renda familiar. Entre os que ganham até um salário
mínimo o porcentual é de 32,8%. Esse número
salta para 45% entre aqueles cuja renda ultrapassa os dez
salários.
PROBLEMAS
Porém, há
consenso de que duas questões dificultam a concretização
de tal objetivo. A primeira é romper com a tradição
administrativa dos clubes, na qual dirigentes criam espécies
de feudos para se sustentarem no cargo por longos períodos.
–Seria
necessária a conscientização desses diretores. O
principal é profissionalizar a administração,
mas isso não quer dizer apenas contratar alguém
remunerado. É preciso que seja um técnico da área
com autonomia para tomar decisões –, explicou o
professor de consultor de marketing esportivo José Cocco.
O
segundo empecilho, motivo de lamentações de dirigentes,
é implantar ações comerciais em um país
em desenvolvimento, onde a população não dispõe
do mesmo poder aquisitivo de sociedades como a americana, asiática
ou européia. Essa condição, entre outras
complicações, ajuda a proliferar a pirataria.
–Claro
que todos nós que trabalhamos com marqueting gostaríamos
de mudar essa realidade e fazer os torcedores consumirem mais. Porém
precisamos sempre lembrar que vivemos em uma realidade de terceiro
mundo, o que faz a prática ficar mais complicada do que a
teoria –, afirmou o diretor de Marqueting do São Paulo,
Márcio Sanzi.
A explicação é
contestada por Cocco. De acordo com o consultor, trata-se de
argumentação frágil, pois um pouco de bom senso
seria suficiente para resolver o problema.
–Se nos
Estados Unidos o refrigerante custa US$3,00, aqui cobra-se R$3,00.
Tudo é proporcional –, observou.
(LANCE!, 04/10/2004)
O
QUE FAZER?
LANCEPRESS!
PROFISSIONALIZAÇÃO:
Hoje em dia a maioria dos departamentos de marketing dos clubes
brasileiros está nas mãos de sócios esforçados,
dedicados, mas nada técnicos. Na Europa e nos EUA o cargo é
ocupado por executivo da área, remunerado conforme resultados,
como em qualquer empresa.
ESTRUTURAÇÃO:
Contratado o executivo, o passo seguinte é montar o famoso
"data base", um arquivo de informações
variadas sobre o mercado que sirva de base para a elaboração
das estratégias mercadológicas. Antes da ação
é necessário conhecer o consumidor e suas expectativas.
O serviço serve para prover essa leitura.
APROXIMAÇÃO:
Com as informações sobre os consumidores e o mercado em
geral, inicia-se o planejamento estratégico para elaborar
produtos que cativem esse público e o tornem consumidores da
marca do clube. Se bem-sucedido, o clube finalmente começará
a ter lucro com sua torcida.
PARCERIAS: Com boa imagem
no mercado, o clube passa a ser alvo do interesse de empresas que
gostariam de associar sua marca 'a agremiação ou
auxiliá-la a aumentar suas receitas.
EXPANSÃO:
Uma vez organizado e estruturado, o clube tende a expandir sua
representatividade e, conseqüentemente, seu leque de torcedores.
Mantidas as diretrizes anteriores, a perspectivas de alcançar
novos mercados e aumentar o faturamento crescem consideravelmente. A
estratégia do real Madrid na Ásia é exemplo
disso.
(LANCE!,
04/10/2004)
A
LIÇÃO DA PESQUISA
LANCEPRESS!
Não
faltam conclusões sobre os dados fornecidos pela 3ª
Pesquisa LANCE!-Ibope. Uma delas é a falta de relação
entre o aumento do número de torcedores e o público
presente nos estádios.
Por exemplo, a média de
público do Flamengo, maior torcida brasileira com 18,1% da
população, foi de 10.102 pessoas nos últimos
três Campeonatos Brasileiros.
Já a do Paysandu,
17ª no ranking das maiores torcidas, chegou a 15.947. Portanto,
a presença da torcida na arquibancada não é,
definitivamente, parâmetro científico para determinar
qual é a mais numerosa.
Em Minas Gerais houve esse tipo
de fenômeno. Durante muito tempo o Atlético-MG foi
considerado o "clube da massa" naquele estado, uma vez que
na maioria das vezes suas partidas atraíam mais torcedores ao
Mineirão do que o tradicional adversário. Porém,
o levantamento deixa claro que a torcida do Cruzeiro é quase
duas vezes maior do que a do rival: 32,8% e 16,9% da população
mineira (3,7% e 2% no país), respectivamente.
Especialistas
e dirigentes de clubes são unânimes quanto a um aspecto.
Se para aumentar o contingente de torcedores o segredo é
conquistar títulos, só isso não resolve a
questão da freqüência aos estádios.
–Se
fosse assim não haveria espaço, pois bastaria um time
ser campeão para que todos os torcedores fossem aos jogos –,
explicou o executivo de marketing esportivo Ricardo Alfram.
Uma
das conclusões, nesse caso, é que o estímulo
responsável pela escolha do time age sobre o indivíduo
até o momento da decisão. A partir daí não
há volta, afinal, como diz um velho ditado popular, "o
cidadão troca de mulher, mas não de time". Casos
de "casacas" são raros.
Está aí
a explicação para o fato de as torcidas de Santos e
Botafogo serem maiores entre os torcedores com mais de 50 anos,
exatamente aqueles que tiveram a oportunidade de acompanhar o auge
dessas equipes durante a "era Pelé" e a "era
Garrincha". No caso dos paulista, o índice de é de
3,7%, contra 2,8% dos cariocas. Com o Corinthians, constata-se o
oposto. Nesse mesmo período a equipe amargava a famosa fila.
Resultado, nessa faixa etária seus índices são
os menores.
No entanto, a história é diferente
quanto à motivação em ir ao estádio. Ao
contrário do exemplo anterior, nesse caso a pessoa precisa ser
motivada o tempo todo, seja por conquistas ou até momentos de
crise profunda, como aconteceu com o Palmeiras em 2003. Rebaixado
para a Série B do Campeonato Brasileiro, o time do Parque
Antártica conseguiu uma das maiores médias de público:
14.456.
(LANCE!, 04/10/2004)