NELSON
E A INVASÃO CORINTIANA
Nelson Rodrigues
1—Uma
coisa é certa: — não se improvisa uma vitória.
Vocês entendem? Uma vitória tem que ser o lento trabalho
das gerações. Até que, lá um dia,
acontece a grande vitória. Ainda digo mais: — já
estava escrito há seis mil anos, que em um certo domingo, de
1976, teríamos um empate. Sim, quarenta dias antes do Paraíso
estava decidida a batalha entre o Fluminense e o Corinthians.
2—Ninguém
sabia, ninguém desconfiava. O jogo começou na véspera,
quando a Fiel explodiu na cidade. Durante toda a madrugada, os
fanáticos do timão faziam uma festa no Leme, em
Copacabana, Leblon, Ipanema. E as bandeiras do Corinthians ventavam
em procela. Ali, chegavam os corinthianos, aos borbotões.
Ônibus, aviação, carros particulares, táxis,
a pé, a bicicleta.
3—A
coisa era terrível. Nunca uma torcida invadiu outro estado,
com tamanha euforia. Um turista que, por aqui passasse, havia de
anotar no seu caderninho: — "O Rio é uma cidade
ocupada". Os corinthianos passavam a toda hora e em toda
parte.
4—Dizem
os idiotas da objetividade que torcida não ganha jogo. Pois
ganha. Na véspera da partida, a Fiel estava fazendo força
em favor do seu time. Durmo tarde e tive ocasião de
testemunhar a vigília da Fiel. Um amigo me perguntou: —
"E se o Corinthians perder?” O Fluminense era mais time.
Portanto, estavam certos, e maravilhosamente certos os corinthianos,
quando faziam um prévio carnaval. Esse carnaval não
parou. De manhã, acordei num clima paulista. Nas ruas, as
pessoas não entendiam e até se assustavam. Expliquei
tudo a uma senhora, gorda e patusca. Expliquei-lhe que o Tricolor era
no final do Brasileiro, o único carioca.
5—Não
cabe aqui falar em técnico. O que influi e decidiu o jogo foi
a torcida. A torcida empurrou o time para o empate.
6—A
torcida não parou de incitar. Vocês percebem? Houve um
momento em que me senti estrangeiro na doce terra carioca. Os
corinthianos estavam tão certos de que ganhariam que apelaram
para o já ganhou. Veio de São Paulo, a pé, um
corinthiano. Eu imaginava que a antecipação do carnaval
ia potencializar o Corinthians. O Fluminense jogou mal? Não,
não jogou mal. Teve sorte? Para o gol, nem o Fluminense, nem o
Corinthians. Onde o Corinthians teve sorte foi na cobrança dos
pênaltis. A partir dos pênaltis, a competição
passa a ser um cara e coroa. O Fluminense perdeu três, não,
dois pênaltis, e o Corinthians não perdeu nenhum. Eis
regulamento de rara estupidez. Tem que se descobrir uma outra
solução. A mais simples, e mais certa, é fazer
um novo jogo. Imaginem que beleza se os dois partissem para outro
jogo.
7—Futebol
é futebol e não tem nada de futebol quando a vitória
se vai decidir no puro azar. Ouvi ontem uma pergunta: "O que vai
fazer agora o Fluminense?" Realmente, meu time não pode
parar. O nosso próximo objetivo é o tricampeonato
carioca. Vejam vocês:
—
empatamos uma partida e realmente um empate não derruba o
Fluminense. Francisco Horta já está tratando do
tricampeonato. Estivemos juntos um momento. Perguntei: — "E
agora?" Disse — amanhã vou tomar as primeiras
providências para o tricampeonato. Como eu, ele não
estava deprimido. O bom guerreiro conhece tudo, menos a capitulação.
Aprende-se com uma vitória, um empate, uma derrota. Só
a ociosidade não ensina coisa nenhuma.
No seguinte
jogo, vocês verão o Fluminense em seu máximo
esplendor.
NELSON
RODRIGUES era tricolor e publicou este texto no GLOBO em 6/12/76,
no dia seguinte ao jogo Fluminense x Corinthians.