ESTOURA A BOLHA DOS ESPORTES NA TV


Emissoras não querem mais pagar fortunas para transmitir eventos


POR CLAUDIO BRANDT
Repórter do The Wall Street Journal


Uma outra bolha parece ter estourado, desta vez no mundo das transmissões de eventos esportivos. E não há sinais de recuperação no horizonte.


Com cada vez mais emissoras recusando-se a pagar caro num mercado publicitário recessivo, os preços de direitos para exibir esportes na TV estão em queda. É a reversão de uma tendência dos anos 90 alimentada pela busca de programação exclusiva, principalmente por parte das TVs por assinatura, que pudesse cativar espectadores e garantir audiência.


A escalada levou a transmissão das Copas do Mundo de 2002 e 2006 a ser negociada, em 1997, por US$1,1 bilhão, valor cinco vezes maior que o das três copas anteriores juntas.


Mas a alta parece ter atingido seu limite. Sem condições de repassar aos anunciantes as contas dos esportes, redes de TV do mundo inteiro não só começam a se recusar a pagar preços exorbitantes como estão buscando alternativas para baratear sua programação esportiva.


GLOBO RENEGOCIA

Várias emissoras se preparam para renegociar os contratos da Copa, por exemplo.


Entre elas está a Rede Globo, que pagou US$220 milhões pela Copa 200l2 - o maior valor pago por qualquer rede de TV do mundo - e agora quer renegociar o valor contratado pela copa de 2006, US$240 milhões. No Brasil, a Globo já está renegociando seus contratos locais e diz ter conseguidu reduzir em 30% este ano o valor dos principais campeonatos de futebol.


A mesma sorte não tiveram as duas maiores TVs comerciais abertas da Grã-Bretanha, Granada e Carlton, que decidiram ontem pedir a concordata de sua joint venture ITV Digital, depois que a TV por assinatura não conseguiu renegociar seu contrato para transmitir os jogos da segunda divisão inglesa. A ITV ainda deve aos clubes US$254,8 milhões de um contrato de US$449,6 milhões, negociado no auge de uma acirrada disputa com a British Sky Broadcasting pelos direitos.


Os clubes dizem que podem quebrar se não receberem esse dinheiro.


Dono dos direitos das Copas de 2002 e 2006, que comprou para revender a TVs do mundo todo, o grupo de mídia alemão Kirch foi talvez a primeira vítima do estouro da bolha. Seu dono, Leo Kirch, já expressou disposição em ceder o controle para garantir a sobrevivência do grupo, que enfrenta urna crise de liquidez e talvez seja forçado a vender sua participação na empresa que organiza a Fórmula 1 por menos da metade dos US$1,6 bilhão que pagou, segundo pessoas a par do assunto. O vice-presidente do Kirch, Richard Dorfman, confirmou numa feira no início do ano que em muitos mercados já há uma redução dos preços dos contratos para televisão.


"As redes de TV de todo o mundo terão de forçosamente renegociar os preços dos direitos esportivos", disse Marcelo Campos Pinto, diretor-executivo da Globo Esportes, divisão da Globo responsável pela negociação dos contratos de transmissões esportivas, ao Wall Street Journal.


A DirecTV Latin America, que comprou os direitos para transmitir as duas copas na Argentina, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Venezuela, pode fazer companhia à Globo. "Não sabia que a Globo estava pensando em renegociar o que pagaram polo mundial de 2006", diz Raúl Reyes, vice-presidente da operadora de TV por satélite. "Talvez fosse uma boa idéia que aparecêssemos juntos para renegociar."


Ao contrário da programação de novelas, shows e filmes, cujos produtores podem responder rapidamente ao aumento da demanda criando novos programas e enredos, a programação esportiva de grande audiência é limitada pelo favoritismo do público por determinados esportes e campeonatos. Assim, quando surgem novos canais por assinatura dedicados ao esporte, eles passam a disputar os mesmos eventos já transmitidos por outras TVs, o que provoca a inflação dos preços dos direitos.


Foi o que aconteceu nos Estados Unidos, Europa e América Latina, onde a pressão das novas redes de TV por assinatura por conteúdo esportivo foi o principal propulsor da alta de preços.


Na Europa, a proliferação das TVs por assinatura nos anos 90 ajudou a fazer o preço pago pela transmissão do campeonato inglês de futebol subir 117 vezes desde 1986. Os direitos, que custavam 3,1 milhões de libras por ano em 1986, dispararam para 366,7 milhões de libras (US$522,.5 milhões) por ano em 2001, de acordo com levantamento feito por Simon Bowmaker, professor de Economia do Esporte da Universidade de Edimburgo, na Escócia.


"O sentimento geral (na Europa) tem sido há algum tempo que os preços pelos direitos esportivos estão altos demais", diz Anna Overton, analista de mídia da Standard & Poor's em Londres.


Pressionada pela concorrência da Rede Record e de TVs por assinatura que ameaçavam entrar pesado no mercado brasileiro,a Globo fechou os contratos da Copa no fim dos anos 90, no auge da bolha inflacionária dos direitos esportivos. Ela conseguiu vender as seis cotas de patrocínio, mas isso vai lhe garantir uma receita direta de apenas R$210 milhões (US$93,4 milhões) ou cerca de 40% dos US$220 milhões pagos pelo direito de transmissão.


PREJUÍZOS

A Globo bem que tentou repassar os direitos a uma segunda rede, para recuperar parte do investimento, como ocorreu em copas anteriores, mas até o momento não teve sucesso. Nem a Band nem a Record acharam que valia a pena pagar o preço pedido.


Se a Globo tiver prejuízo com o esporte, terá sido só mais um caso entre vários. Sob o peso de contas gigantescas das grandes ligas esportivas dos EUA, as divisões de esportes das quatro maiores redes de TV aberta do país, ABC, CBS, NBC e Fox, perde ram em conjunto mais de US$1 bilhão no ano passado, de acordo com estimativas do setor. Isso as está levando a alterar sua abordagem dos esportes.


A ABC, que com a ESPN desembolsou US$23 milhões para exibir a Copa da França, só vai transmitir a Copa 2002 graças à liga americana de futebol, a Major League Soccer, que pagou cerca de US$40 milhões pelos direitos e os ofereceu sem custos à Disney Corp., a dona da ABC e da ESPN. A MLS quer divulgar o futebol, que ainda dá pouca audiência nos EUA.


No Brasil, o alto custo fez a Band decidir-se por abandonar quase completamente o futebol, trocando-o por transmissões de basquete e vôlei, além de esportes olímpicos e outros de menor audiência, retomando uma estratégia que a projetou nos esportes nos anos 80.


Interessada em aumentar sua programação esportiva mas indisposta a pagar preços inflacionados, a Record fez uma parceria com a Traffic - empresa de negociação de direitos esportivos do Grupo J. Hawilla - pela qual poderá transmitir os jogos dos principais campeonatos brasileiros e da Libertadores da América sem ter de tirar do bolso os valores que normalmente teria de pagar. Nem a Record nem a Traffic quiseram detalhar como será feita a divisão da receita publicitária.


"Os direitos atingiram o pico em sua capacidade de rendimento", diz Marcelo Milliet, vice-presidente encarregado das áreas financeira e de direitos da Traffic. "É preciso pensar em novas direções."


Além da parceria com a Record, a Traffic decidiu criar uma produtora própria para oferecer produtos mais acabados. A produtora - que irá cobrir cerca de 100 jogos anualmente para a Record, além de transmitir entre 60 a 70 jogos para redes de fora do Brasil - já produz um programa semanal com os melhores momentos para o mercado internacional. Além disso, também está querendo comprar horários nas redes e fazer suas próprias produções.



STEFAN FATSIS, TERESA BOUZA E CHARLES GOLDSMITH colaboraram neste artigo.




(O ESTADO DE S. PAULO, ECONOMIA, 28/3/2002, P. B-14)