NO VERMELHO, PARMA TORNA-SE NOVA DOR DE CABEÇA FINANCEIRA PARA PARMALAT



POR KEITH JOHNSON
THE WALL STREET JOURNAL



O principal negócio da Parmalat SpA é vender leite, biscoitos e suco ao redor do mundo, mas como muitos empresários italianos, o fundador Calisto Tanzi não podia resistir a ter seu próprio clube de futebol. Essa extravagância deixou a nova direção da empresa com mais uma dor de cabeça financeira.


A Parmalat é dona do Parma Associazione Calcio SpA, o time em Parma, cidade vizinha de Collecchio, terra natal de Tanzi, que emprega os brasileiros Júnior e Adriano. Tanzi despejou bastante dinheiro no clube, arcando com prejuízos necessários para a compra de astros que garantiram dois títulos da Copa da Uefa nos anos 90. E como muitas outras coisas associadas à Parmalat, Tanzi fez do clube um assunto de família: o time era dirigido por seu filho Stefano, e outros membros da família participavam do conselho, enquanto o uniforme azul e amarelo dos jogadores exibia o logo da Parmalat.


Agora que a Parmalat está em concordata e Tanzi está na cadeia, enquanto se investiga a alegada fraude de 8 bilhões de euros na empresa, o futuro do Parma também está em dúvida. O time acumulou um prejuízo de 77 milhões de euros em 2003, mas não está claro quem poderá, ou irá querer, pagar a conta para mantê-lo. Não é certo nem que a assembléia geral do Parma, marcada para hoje, vai ocorrer.


Além disso, o ministro da Indústria da Itália, Antonio Marzano, que supervisiona o programa de concordata da Parmalat, disse que o clube será vendido ao fim da temporada.


Porta-vozes do clube não quiseram comentar sobre a assembléia de hoje.


Para manter o Parma operacional ao longo dos anos, Tanzi e a Parmalat recorreram a injeções de capital, empréstimos, venda de ativos e emissões de títulos. Em 2002, por exemplo, demonstrações financeiras do clube mostram que 35 milhões de euros (US$44,7 milhões), mais de um terço do lucro operacional do clube, veio da Parmalat e empresas afiliadas. Parte desse dinheiro era relativo a um contrato de patrocínio.


Não está claro se a contabilidade do Parma está envolvida na suposta fraude que provocou o colapso da Parmalat, ou se Tanzi simplesmente despejou dinheiro no clube alimentando o sonho da glória futebolística. O Parma deve à Parmalat 53,1 milhões de euros (US$67,8 milhões) e outros 38,6 milhões de euros a divisões do grupo. A Parmalat também emitiu garantias fiduciárias para mais 157,5 milhões de euros.


Mas administradores da Parmalat dizem que não podem confiar na informação financeira fornecida pelo clube, diz uma pessoa a par da questão. Isso levanta a perspectiva de que a situação financeira possa ser ainda pior do que os atuais números sugerem.


Ao definir o futuro do Parma, os novos administradores da Parmalat também precisam lidar com seu passado financeiro. O Parma parece ter inflado o valor contábil de seus jogadores na última década, dizem especialistas em contabilidade futebolística. Os jogadores eram contabilizados como ativos intangíveis avaliados em 277 milhões de euros, mais de 13% do total de ativos intangíveis de todo o grupo Parmalat, em 30 de junho de 2003. Times de futebol podem contabilizar jogadores como ativos intangíveis pelas normas européias, mas os clubes em geral revisam periodicamente os valores dos jogadores, para mantê-los em maior sintoma com os preços de mercado.


Entre 1993 e 2002, o valor contábil dos jogadores do Parma aumentou 12 vezes — embora muitos de seus principais astros tenham sido vendidos para cobrir prejuízos operacionais.


O crescente valor dos jogadores deveria ter servido de alerta, dizem especialistas em finanças do esporte. O mercado para jogadores de futebol na Itália sofreu uma grande queda, acompanhando o enfraquecimento financeiro de muitos times do país.


DÍVIDA DO PARMA
EM MILHÕES DE EUROS

Ano Total
2001: 300,7
2002: 448,6



(GAZETA MERCANTIL, 9/1/2004)