O RESGATE DO FUTEBOL
LUÍS
NASSIF
Está
nas mãos do presidente da República a decisão de
mudar a história da mais importante manifestação
cultural do país, o futebol.
Os
anos 90 foram de modernização em muitas frentes. No
futebol houve involução. Historicamente, o futebol
sempre foi vítima da politização, do amadorismo
de gestão e da falta de controle sobre suas contas.
Nos
anos 90, o quadro se complicou agudamente, com o avanço do
crime organizado. O comércio irregular de jogadores veio se
somar à indústria de bingos e outras formas de economia
informal. Ao mesmo tempo, proliferaram as denúncias de
enriquecimento ilícito de muitos dirigentes, revelando total
falta de controle por parte da sociedade.
O
futebol tem triplo papel no país. O primeiro, o de instrumento
efetivo de congraçamento e de elevação da
auto-estima nacional. O segundo, como fator relevante da diplomacia
política e comercial do país. O terceiro, como agente
econômico dos mais relevantes. Houvesse tratamento
profissional, os campeonatos nacionais estariam sendo vendidos no
mundo inteiro.
A
profissionalização do setor depende de um conjunto de
decisões que obrigue, primeiro, a profissionalização
definitiva dos clubes (o que passa pela responsabilização
dos dirigentes por atos irregulares); depois, a criação
de órgãos reguladores que subordinem as federações
a normas adequadas.
A
idéia inicial do Planalto era editar uma medida provisória.
Acabou empacando no acordo com o Congresso para reduzir as MPs.
Agora, o novo ministro do Esporte e Turismo, Caio Luiz de Carvalho,
repõe a questão na pauta de governo, por meio de um
projeto de lei que pretende fixar a responsabilidade dos dirigentes
de federações, dos clubes e das ligas, assegurando
transparência de gestão. O projeto -apresentado
originalmente na gestão de Edson Arantes de Nascimento- torna
privativo de sociedades comerciais todas as atividades relacionadas
com o futebol profissional.
O
projeto de lei avança em duas formas de controle. A primeira,
obrigar os clubes a se constituírem em sociedade comercial ou
a contratar uma sociedade comercial para administrar suas atividades
profissionais, separando de vez a atividade de clube social da
atividade de estrutura de futebol profissional. Quem não
aderir a esse modelo perderá um conjunto de isenções
fiscais hoje previsto em lei. Como sociedade comercial, ficarão
obrigados a publicar demonstrações financeiras e a se
submeterem à auditagem de auditores independentes, devidamente
registrados na CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
A
segunda ferramenta de controle é a criação de
uma comissão de deliberação, normatização
e assessoramento no âmbito do Conselho Nacional de Esportes,
diretamente vinculada ao Ministro de Esporte e Turismo.
Seu
papel será o de "colaborar no desenvolvimento de
programas que promovam a massificação planejada da
atividade física para toda a população, na
melhora do padrão de organização, gestão
e qualidade do desporto nacional, bem como de garantir o direito a
todos de sua prática regular."
Papel
central do CNE será "normatizar as ações
com vistas a coibir práticas abusivas na gestão das
entidades dirigentes desportivas, das entidades de prática
desportiva, das ligas, das associações ou sociedades
que tenham como objetivo a exploração do desporto, ou
atividade física sob qualquer forma". Será
composto por: ministro do Esporte e Turismo, secretário
Nacional do Esporte e Turismo e um amplo colegiado, onde a
Confederação Brasileira de Futebol terá apenas
um assento.
Caberá
ao CNE analisar as contas dos clubes e deter poderes de suspensão
de benefícios públicos ou contratação com
a administração pública para quem não
prestar contas. Finalmente, o projeto de lei subordinará a
atividade do futebol às funções institucionais
do Ministério Público da União.
Basta
uma assinatura do presidente para extirpar da vida nacional resíduos
de um anacronismo secular que, nos últimos anos, passou a ser
uma das portas de entrada do crime organizado no país, de
acordo com os levantamentos da CPI do Futebol.
(FOLHA
DE S. PAULO, DINHEIRO, 29/5/2002)