NOTÍCIAS
- 15/12/2003
MESA REDONDA
DO DIÁRIO DE S. PAULO
PONTOS
CORRIDOS CAI NO GOSTO DA MAIORIA
Dos
participantes do encontro, apenas representantes da Portuguesa e da
Federação Paulista preferem o mata-mata
Uma
pergunta simples conduziu parte do debate com os dirigentes do
futebol paulista sobre a temporada do futebol brasileiro: qual foi a
avaliação de cada um em relação ao
sistema de pontos corridos, que deu ao Cruzeiro a faixa de campeão
nacional? Dos seis representantes diretos dos clubes, apenas o da
Portuguesa, Avelino Tomás, disse preferir as disputas em
partidas de ida e volta, com a classificação dos oito
finalistas. Opinião, aliás, compartilhada pelo
presidente da Federação Paulista (FPF), Marco Polo Del
Nero. Os demais dirigentes parecem ter pego gosto pelos pontos
corridos.
Até
mesmo Mustafá Contursi, que disputou um campeonato com fase de
classificação e quadrangular final, preferiu seguir com
a maioria e declarar seu apoio aos pontos corridos. Aliás, a
Série B deveria ter utilizado uma fórmula igual à
da Série A, o que só não ocorreu por causa de
problemas financeiros. Veja o que cada um disse sobre o tema:
Avelino
Tomás (vice da Lusa) — Somos um país
continental, portanto diferente da Itália. Por isso, os pontos
corridos não funcionam por aqui. O torcedor se cansou do
Campeonato Brasileiro da forma em que ele foi disputado. Isso também
explica um pouco a preferência pelo torneio da Série B,
que teve emoção até o fim.
José
Cirillo Jr. (vice do Palmeiras) — Acho os pontos corridos o
mais justo para os participantes. Mas acredito que este sistema com
24 clubes é pesado demais. Defendo a participação
de apenas 20 equipes. Sempre achei que o mata-mata, do primeiro
contra o oitavo, era uma loteria. Queria deixar claro ainda que a
Série B do Brasileiro, na qual o Palmeiras participou e
ganhou, só não foi desta mesma forma por questões
financeiras. Os clubes não tinham verba para as longas
viagens.
José
Teixeira (gerente da Lusa) — Para mim, outros detalhes são
mais importantes num campeonato, como a repetição da
fórmula para acostumar o torcedor brasileiro nas
arquibancadas. Eu vivi vários regulamentos e campeonatos e
sempre vi sucesso nas decisões e etapas finais. Mas bem ou
mal, o sistema de disputa de um torneio deve ser sempre repetido. Nos
pontos corridos há o interesse dos clubes até o fim do
campeonato.
Nairo
de Souza (presidente do São Caetano) — Sou a favor
dos pontos corridos, pois desta forma o campeão sempre vai ser
a melhor equipe do ano.
Luiz
de Paula (vice do São Caetano) — Também
prefiro o sistema de pontos corridos. Acho que, com a manutenção
do regulamento, os times irão se preparar melhor em 2004.
Mesmo assim, do ponto de vista da emoção, acho que o
sistema anterior, com oito classificados, ainda é mais
interessante para o público.
Antônio
Roque Citadini (vice do Corinthians) — Acho que estamos nos
esquecendo de um aspecto muito importante do sistema de pontos
corridos que é o da permanência dos clubes até o
fim do torneio. Mesmo com jogos sem bilheterias, as TVs sempre nos
pagarão para entrar em campo.É verdade, temos de
corrigir erros cometidos neste ano por pura inexperiência, como
o período de janela para as trocas dos atletas. Os times devem
ter mais liberdade em relação a isso.
Carlos
Roberto de Mello (vice do Corinthians) — Não resta a
menor dúvida de que o assunto é controvertido. Os
play-offs apontam para a apoteose, mas somente para alguns do
certame.Os pontos corridos deixam todos em atividade até o fim
e premia o mais eficiente.
Alberto
Dualib (presidente do Corinthians) — Claro que, pela
cultura brasileira, os play-offs têm mais entusiasmo. Mas são
só oito clubes. Neste caso, fico com os pontos corridos e
lamento que o sistema não tenha sido implantado em 2002, pois
aí o Corinthians ganharia o título.
Mustafá
Contursi (presidente do Palmeiras) — Pelo que ouvi dos que
vivenciaram, fico com os pontos corridos. Só acho que o
sistema de descenso deveria ser como na Argentina e no México,
numa média dos resultados dos três últimos anos.
Marco
Polo Del Nero (presidente da Federação Paulista de
Futebol) — Eu acho que o sistema de pontos corridos faz o
campeonato ficar mais justo, só que não traz muitas
emoções. No ano passado, o Santos se classificou em
oitavo e acabou sendo campeão porque subiu no momento
decisivo.
Marcelo
Portugal Gouvêa (presidente do São Paulo) —
Tenho certeza de que o sistema de pontos corridos vai pegar. Acho que
tecnicamente a edição deste ano foi ótima, mas
financeiramente não foi. O teste final será no próximo
ano, quando o público vai dar a resposta se quer a manutenção
da fórmula.
Dagoberto
dos Santos (diretor do Santos) — Eu sou a favor dos pontos
corridos, ainda mais se tivermos apenas 20 clubes na primeira
divisão. É preciso também que haja o sistema de
classificação de vários clubes para competições
internacionais, assim muitos clubes terão motivação
até o fim do campeonato.
(DIÁRIO
DE S. PAULO, ESPORTES, 15/12/2003, p. C-6)
LEGISLAÇÃO
DEIXA OS PAULISTAS EM PÉ DE GUERRA
ROBSON
MORELLI
MATEUS SILVA ALVES
Dirigentes
dos clubes de São Paulo debatem acertos e erros da atual
temporada e declaram toda sua indignação com os
governantes do país
O
DIÁRIO promoveu na última quinta-feira sua 14ª
mesa-redonda de futebol, reunindo dirigentes de Palmeiras,
Corinthians, São Paulo, Santos, Portuguesa e São
Caetano. O objetivo foi fazer um balanço da temporada 2003 e
projetar os rumos do futebol brasileiro em 2004. Dos seis presidentes
convidados, apenas o santista Marcelo Teixeira não pôde
comparecer à sede do jornal, mas foi representado por
Dagoberto dos Santos, diretor financeiro do clube. A Federação
Paulista também se fez ouvir através do presidente
Marco Polo del Nero. Ao todo, 12 personalidades debateram erros e
acertos da atual gestão do esporte. Foram mais de duas horas
de conversa franca e democrática, em que todos puderam expor
suas opiniões e sugestões.
A
constatação foi uma só: os cartolas estão
em pé de guerra com os governantes que tentam regulamentar as
leis do futebol nacional. Segundo eles, tudo está sendo feito
sem qualquer consulta ou debate prévio com os clubes, partes
diretamente interessada no assunto. “A Lei Pelé, da
forma em que está sendo aplicada, rasga os contratos de
trabalho dos atletas, e nós, dirigentes, temos de assumir
dívidas e mais dívidas”, esbravejou Antônio
Roque Citadini, vice-presidente corintiano.
Mustafá
Contursi, presidente do Palmeiras, foi ainda mais categórico.
Disse que o país não tem uma legislação
para o futebol. E acusou: “cada autoridade de Brasília
tenta fazer uma legislação à sua imagem e
semelhança. Os decretos feitos por eles criam obrigatoriedades
aos clubes que nem a lei determina. E pior que não podem ser
cumpridas”, comentou. “O que estão fazendo em
Brasília são verdadeiras armadilhas legislativas para
os clubes. Temos sido fiscalizados e multados com freqüência
por condutas que não nos convencem.”
Mustafá
acrescenta que as leis impostas aos clubes foram feitas sem que eles
participassem das discussões. “Não pedimos perdão
de nada, tampouco anistia ou privilégios. Queremos apenas
participar.”
DEBANDADA
Alberto
Dualib, do Corinthians, ressaltou a conduta sorrateira de alguns
atletas que, na calada da noite, rompem seus contratos e vão
para a Europa. “Isso só ocorre porque há uma
multiplicidade de leis. Falei recentemente com o presidente Lula e
enumerei a ele uma série de problemas. Mas ele me gozou. Disse
que deveria estar feliz porque não devo nada ao INSS e não
fui arrolado nas CPIs do futebol.”
Citadini
acusou as tarifas que os clubes são obrigados a pagar ao longo
do ano. “O Estatuto do Esporte é demolidor para os
clubes. Os governantes criaram invasões nas nossas receitas,
como os 20% sobre os valores da televisão que temos de
repassar aos atletas a título de direitos de arena.”
Os
dirigentes condenaram o uso do futebol para legalizar os bingos,
segundo eles, um verdadeiro câncer. “Usam o futebol para
favorecer a bancada dos bingos”, acusa Citadini.
(DIÁRIO
DE S. PAULO, ESPORTES, 15/12/2003, p. C-6)
SÃO-PAULINO
DESEJA MUDANÇA NAS LEIS TRABALHISTAS
O
presidente do São Paulo, Marcelo Portugal Gouvêa,
acredita que os jogadores de futebol não devem continuar a
serem tratados pela lei como trabalhadores comuns. Na opinião
do dirigente são-paulino, o trabalho de um atleta profissional
tem particularidades que deveriam ser especificadas pela legislação
trabalhista.
A
atual legislação, segundo Portugal Gouvêa, cria
armadilhas para os clubes, uma vez que permite aos jogadores pedir
indenizações milionárias. Ele cita o caso do
meia Carlos Miguel, que defendeu o clube na década de 90 e
pediu na Justiça cerca de R$ 4 milhões de indenização.
Em sua ação, o jogador pediu o pagamento de
horas-extras e adicional noturno, domingo em dobro, entre vários
outros benefícios.
Preocupado
com a possibilidade de ver uma disseminação de casos
como o de Carlos Miguel, o presidente do São Paulo afirma, por
exemplo, que jogar à noite faz parte da vida de um jogador de
futebol e que ele não deve ser indenizado por isso. “Como
se sente um dirigente que recebe uma notificação da
Justiça dizendo que o jogador deve receber o pagamento de
horas-extras porque trabalhou à noite e que também deve
receber em dobro por cada domingo trabalhado?”, perguntou o
dirigente do São Paulo. “É preciso criar uma
legislação trabalhista específica para os
jogadores de futebol”, completou Portugal Gouvêa.
GENTE DIFERENTE
Os
jogadores certamente não verão a proposta do presidente
do São Paulo com muita simpatia, mas o dirigente argumenta que
os atletas contam com privilégios com os quais os
trabalhadores comuns sequer sonham. “O jogador de futebol está
completamente fora do contexto dos trabalhadores comuns. Eles ganham
muito mais do que os outros, recebem luvas, direito de arena, entre
outras vantagens. A legislação deveria criar um novo
regime para isso”, afirmou ele.
O
vice-presidente do Corinthians, Antônio Roque Citadini, apóia
a idéia do são-paulino. Ele também acha que os
jogadores não devem ser tratados como os outros trabalhadores
porque a profissão lhes dá uma grande quantidade de
benefícios. “Os jogadores não precisam trabalhar
oito horas por dia, por exemplo”, lembrou.
Além
de se queixar da legislação trabalhista, o presidente
do São Paulo também mostrou muitas reservas com o
Estatuto do Torcedor. Embora a lei tenha entrado em vigor há
pouco tempo, Portugal Gouvêa acha que ela não está
servindo para atrair um maior número de torcedores aos
estádios. “A maioria dos clubes cumpriu o Estatuto do
Torcedor, adaptando os estádios, mas qual foi o aumento de
público que tivemos com isso?”, perguntou.
(DIÁRIO
DE S. PAULO, ESPORTES, 15/12/2003, p. C-6)
ORGANIZAÇÃO
GANHA AVAL NESTA TEMPORADA
Futebol
comemora crédito em 2003
Os
representantes dos clubes de São Paulo fizeram avaliação
positiva da organização do futebol brasileiro na
temporada que se encerra. Para dirigentes como Antônio Roque
Citadini, do Corinthians, o futebol ganhou crédito perante a
opinião pública, e até mesmo diante de
patrocinadores, sobretudo pelo planejamento ao longo do ano. “Nem
tudo está mal no futebol brasileiro. Pouca gente ressalta, mas
o futebol melhorou fora de campo e graças aos clubes”,
fez questão de lembrar Roque Citadini. “Este ano, bem ou
mal, tivemos torneios com começo, meio e fim, em que as datas
e os prazos foram respeitados. Os clubes que subiram, subiram de
fato, e os que caíram, caíram de fato.”
Para
o corintiano, sempre respaldado pelos demais participantes da mesa,
resta agora repetir a fórmula para que as competições
sejam melhor assimiladas pelo torcedor brasileiro. Citadini rebateu
com veemência o argumento de que o futebol vai bem somente
dentro de campo. Para ele, a temporada de 2003, além de
disputada, não teve manchas, nem mesmo as liminares que
tiraram pontos de uns e repassaram para outros. O presidente do São
Caetano, Nairo de Souza, também fez avaliação
positiva da temporada. “Conseguimos alavancar o nível
das disputas. Tivemos um ano bem organizado fora de campo”,
concluiu. Foi consenso ainda o esforço dos clubes em se
adaptarem às novas regras e normas do futebol.
(DIÁRIO
DE S. PAULO, ESPORTES, 15/12/2003, p. C-7)
MARKETING ESPORTIVO
VISIBILIDADE
DOS PRODUTOS É MAIOR COM NOVA FÓRMULA
Os
homens do dinheiro dos clubes, ou da falta dele, estão
satisfeitos com a fórmula dos pontos corridos, sobretudo
porque os patrocinadores têm a oportunidade de permanecer na
vitrine por mais tempo, sem depender tanto do sucesso das equipes
dentro de campo. “No sistema de disputa do Campeonato
Brasileiro deste ano, todas as equipes disputaram e estiveram em
atividade até a última rodada. Por isso é mais
vantajoso para os clubes e também para os seus
patrocinadores”, atestou o vice-presidente de finanças
do Corinthians, Carlos Roberto de Mello.
A
visibilidade a que Mello se refere também diz respeito às
transmissões de televisão. O jogo entre Corinthians e
Grêmio, por exemplo, foi transmitido ontem ao vivo pela Rede
Globo para o Estado de São Paulo, mesmo com o Corinthians não
brigando por mais nada no torneio. “Os jogos não dão
prejuízo ao Corinthians porque a TV paga pelo campeonato
inteiro”, comentou Antônio Roque Citadini.
Mesmo
o Santos, clube que certamente chegaria aos play-offs caso a fórmula
antiga tivesse sido mantida, também acha que o sistema de
pontos corridos é mais vantajoso para as equipes. “Para
os patrocinadores é importante aparecer o ano todo, essa é
uma grande vantagem dos pontos corridos”, disse o
diretor-financeiro do Santos, Dagoberto dos Santos.
(DIÁRIO
DE S. PAULO, ESPORTES, 15/12/2003, p. C-7)
ERA
DAS PARCERIAS NÃO DEVE VOLTAR
Os
dirigentes de São Paulo não estão otimistas
quanto à possibilidade de conseguir parcerias com grandes
empresas. Eles acreditam que as constantes mudanças na
legislação esportiva brasileira afugentam as empresas
interessadas em investir no futebol do Brasil.
Alberto
Dualib garante que os problemas com a legislação
fizeram ruir a parceria com a empresa americana Hicks, Muse. “A
Hicks saiu do Corinthians porque viu que a cada hora mudava a
legislação. Eles chegaram ao Brasil com muitos planos
e, de repente, a lei mudou e eles ficaram sem ter como recuperar o
dinheiro investido. Se continuar dessa forma, não haverá
mais parcerias”, comentou Dualib.
Marcelo
Portugal Gouvêa concorda com o corintiano e acrescenta que a
falta de um bom calendário também prejudicou os clubes.
“Pergunte para qualquer investidor se ele quer vir ao Brasil e
ele dirá que não. As empresas não vêm
porque não somos organizados.”
(DIÁRIO
DE S. PAULO, ESPORTES, 15/12/2003, p. C-7)
MUSTAFÁ
PEDE MUDANÇA DE CRITÉRIO PARA DESCENSO
Dirigente sugere o sistema que considera mais justo
O
fantasma do rebaixamento ainda assombra o presidente do Palmeiras,
Mustafá Contursi, a ponto de ele não desejar a Segunda
Divisão nem mesmo ao seu pior inimigo. Para evitar que outros
times de tradição passem pelo que o Palmeiras passou em
2003, Mustafá defende o critério de média de
resultados dos três últimos anos para definir os times
que caem para a Série B, uma solução que já
foi tentada no futebol paulista e logo caiu em descrédito.
Mustafá considera esse sistema mais justo para definir os
nomes dos rebaixados.
“Acho
que o sistema de média de três anos é mais justo
e coerente, como ocorre na Argentina e no México. É
feita uma média de todos os clubes em três temporadas.
Quem tiver o pior índice desce”, comenta o dirigente.
A
idéia não teve a aprovação de todos os
participantes da discussão, sobretudo por ser confusa para os
torcedores. De qualquer forma, pela proposta de Mustafá, o
risco de um grande clube cair é mais remoto.
O
representante palmeirense, um dos últimos a se juntar ao
debate promovido pelo DIÁRIO, condena a maneira pouco
transparente e democrática com que Brasília tenta
regular o esporte mais popular do país, pois tudo, segundo
ele, é feito sem nenhuma participação de uma das
partes mais interessadas no assunto: os clubes.
“Nós
tentamos o diálogo de todas as formas, mas o governo nunca
acenou com essa possibilidade. Foi esquecido que um dia tivemos de
organizar a Copa João Havelange, mesmo com todo o entulho que
nos jogam nas costas. E que somos chantageados e apontados à
opinião pública como cartolas incompetentes. Somos
desmoralizados. Agora, para a discussão do Conselho Nacional
dos Esportes, nenhum clube foi chamado a opinar. Tudo é feito
baixando portarias e mais portarias”, diz. Indignado, Mustafá
cobra respeito dos governantes. “Estão tirando o nosso
dinheiro para sustentar uma estrutura paquidérmica que nós,
clubes, não queremos.”
(DIÁRIO
DE S. PAULO, ESPORTES, 15/12/2003, p. C-7)