NOTÍCIAS – 26/10/2003


“O CITADINI SÓ NÃO SERÁ PRESIDENTE SE NÃO QUISER”



Presidente do Corinthians acha que o vice é o homem ideal para sucedê-lo


WAGNER VILARON


Choque de vaidades, disputas políticas e um racha entre futebol e área social. Como se não bastasse, uma crise financeira sem precedentes. Poucas vezes em sua história de 93 anos, o Corinthians viveu processo tão turbulento em seus bastidores. Diante de tal cenário, o Estado procurou aquele que está à frente de todo o processo para que explicasse o que acontece no Parque São Jorge. E o presidente Alberto Dualib aceitou a entrevista esclarecedora.


Aos 83 anos (11 dos quais na presidência), o 'chefão', ao mesmo tempo que não consegue mais disfarçar o cansaço e a saturação diante dos problemas inerentes ao cargo - "está na hora de sair, me dedicar mais à minha família, passear com minha esposa" -, mostra força interna. Ainda é o único dentro do clube capaz de conciliar inimigos políticos declarados.


Dualib falou sobre tudo. Desde a comentada perda de poderes do vice-presidente de Futebol, Antonio Roque Citadini, resultado de queda-de-braço com o vice de Esportes Terrestres, Nesi Curi, passando pela polêmica renovação de contrato de Vampeta, os protestos da torcida, a admiração por Vanderlei Luxemburgo e a polêmica presença de sua neta, Carla Dualib, à frente do marketing corintiano.


Estado - Presidente, durante os últimos dias comentou-se muito sobre as brigas políticas que existem no Parque São Jorge. Como o senhor tem administrado esse momento conturbado?
ALBERTO DUALIB - É aquela velha história que o Roque (Antonio Roque Citadini) costuma dizer: aqui no Corinthians, qualquer espirro vira pneumonia. Dizem que houve discussões, brigas, que um quase agrediu o outro, mas não é nada disso. É óbvio que as pessoas têm pontos de vista diferentes sobre isso ou aquilo. Existem discussões, algumas até mais acaloradas, com tons de voz mais exaltados. Mas nada que extrapole isso.


Estado - E por falar no Citadini, o senhor concorda que ele perdeu poder após as mudanças no Futebol?
DUALIB - De maneira alguma. Isso não existe! O Fran e o Andres (Francisco Papaiordanou e Andres Sanches) entraram na função de diretores de Futebol para ajudar o Roque, que já algum tempo está sobrecarregado. Ele (Citadini) tinha de cuidar de viagens da equipe, negociações, contratos, dar entrevistas para todo mundo e ainda por cima se dedicar ao Tribunal (de Contas do Estado de São Paulo, onde é conselheiro). Ninguém agüenta esse ritmo. Só que ele ainda tem de dar aval para tudo. O Fran e o Andres são auxiliares do Roque e devem passar tudo para ele, assim como o Roque passa tudo para mim. Aqui existe uma hierarquia que é respeitada.


Estado - Mas presidente, no clube o assunto é um só. Todos comentam as discórdias entre o Nesi Curi e o Roque Citadini...
DUALIB - Olha, vou ser bem sincero. A mim não chegou nada disso ainda. Como disse antes, opiniões contrárias sempre vão existir. E o Corinthians tem alguns grupos políticos bem definidos. Dentro desse contexto, é natural que cada um defenda seu lado. Mas veja o caso o Nesi. É um companheiro nosso de longa data, que passa quase que o dia inteiro aqui dentro resolvendo problemas aqui e ali.


Estado - Realmente tais diferenças existem e não são pequenas. Qual é a estratégia para conciliar tantos pensamentos diferentes?
DUALIB - (pausa...) Olha, se existe um jeito para fazer isso, eu ainda não conheço.


Estado - O senhor sempre apontou o amor ao Corinthians para justificar o longo período no poder. Mas não existe também uma preocupação com eventuais disputas políticas que podem acontecer após sua saída?
DUALIB - É verdade. Já estou cansado. Porém, sem falsa modéstia, ainda conseguimos convergir os interesses, mesmo quando são diferentes. As pessoas respeitam bastante a nossa história no clube. E olha que não é fácil. Poderia estar me dedicando a minha família. Tenho de cumprir este mandato (até final de 2004), mas está chegando a hora de pegar minha esposa e passear mais, aproveitar mais a vida.


Estado - O senhor sempre disse que o Roque Citadini é seu candidato à sucessão. Ainda mantém essa posição?
DUALIB - Claro que sim. Se ele quiser, assume agora a presidência! Na última eleição tentei de todas as formas convencê-lo a ficar no meu lugar, mas ele não pôde, pois é muito ocupado lá no Tribunal. Tem outra coisa. Também permaneço na presidência porque, na hora "H", ninguém quer pegar. O Nesi também já disse que não quer.


Estado - E por que é tão complicado encontrar um sucessor?
DUALIB - Sinceramente eu não sei a resposta para essa pergunta.


Estado - O senhor acredita que as dificuldades que o clube tem, não só as políticas, mas sobretudo as financeiras, afastam os pretendentes?
DUALIB - Pode ser. mas é preciso deixar claro uma coisa. Essas dificuldades não são do Corinthians, são do futebol em geral. O Corinthians ainda é um clube privilegiado, que tem talvez a melhor estrutura social do País.


Estado - Mas é notório que áreas como quadras de tênis e poliesportivas e piscinas ficam boa parte do tempo às moscas...
DUALIB - Pois é. É nessas horas que nós precisamos dos verdadeiros corintianos. A área social precisa se sustentar, não pode ficar dependendo de recursos do Futebol. Já pedi, mais de mil vezes, para que as pessoas paguem as mensalidades. Nem precisa pagar os atrasados, basta ser um pagador regular a partir de agora.


Estado - Presidente, não são apenas as dependências do clube que andam vazias. As arquibancadas também...
DUALIB - Mas tudo isso vale também para os torcedores. Nesses momentos mais complicados, quando o time não vence, é que eles deveriam dar força. Nossa equipe é boa e precisa incentivar. E quer saber de uma coisa, a culpa por isso é minha! Acostumei mal esse pessoal. Sou daquela época que ficamos 23 anos sem ganhar título. Agora eles ganham todo ano e ficaram mal acostumados. E veja você, ao que tudo indica o Corinthians vai ser o único clube paulista a ser campeão neste ano (Campeonato Paulista).


Estado - O senhor disse que o grupo é bom. Então não pega mal renovar o contrato do Vampeta? Ele não deu exemplo ruim quando abandonou o clube mesmo com o salário em dia (atraso era nos direitos de imagem)?
DUALIB - Isso realmente não se faz. Ele errou e sabe disso. Ficou até com a imagem manchada diante dos próprios colegas de profissão, pois foi a partir desse fato que se levantou aquela questão do INSS e do tratamento diferenciado que os clubes davam aos atletas, pagando os salários integrais mesmo quando esses estão afastados. Agora os dirigentes estão revendo essa questão e os jogadores deixaram de ter um privilégio que sempre desfrutaram.


Estado - O senhor diria que o Vampeta foi ingrato?
DUALIB - Veja bem, nós resgatamos o Vampeta. Ele estava esquecido lá na Europa, o Corinthians foi lá, trouxe de volta e ele acabou indo para a Itália depois numa negociação de cerca de US$ 18 milhões. O jogador já ficou milionário só com o porcentual que recebeu (cerca de US$ 2,7 milhões). Agora nós estamos acertando tudo. Esses dias mesmo (segunda-feira) ele saiu daqui com um cheque de R$ 100 mil. Acho que agora ele tem o suficiente para comprar o leitinho das crianças...


Estado - Mas e a renovação, presidente?
DUALIB - Isso eu deixo para comentar depois...(pausa)...sabe o que é, a gente fica preocupado em ver tanto garoto no time. A renovação da equipe é ótima, mas é preciso ter gente com mais experiência também.


Estado - Os atletas experientes que vieram não corresponderam?
DUALIB - Não, estão abaixo do que esperávamos. Nos casos do Robert e do Jamelli, os dois estavam fora do País e chegaram fora de forma. Já quanto ao André Luiz a responsabilidade foi minha. Negociei direto, ele ligava lá na minha casa. Depois que o Vampeta saiu do time, eu tinha convicção de que ele seria o nome para dar equilíbrio ao meio-campo.


Estado - Diante de tantos problemas, como vai ser a formação do time para a próxima temporada?
DUALIB - Estamos trabalhando no planejamento, mas os recursos são escassos. Não existe fórmula secreta. Não tem como fazer futebol sem dinheiro.


Estado - Existe alguma chance de o Juninho Fonseca ser mantido como treinador?
DUALIB - Claro que sim! Ele já mostrou que trabalha muito bem com os meninos. E olha, técnico ganha jogo.


Estado - E qual técnico ganha jogo hoje no Brasil?
DUALIB - O Vanderlei (Luxemburgo, atual técnico do Cruzeiro). É verdade que com ele a gente tem de administrar uma crise por dia, mas é um bom treinador.


Estado - Um último detalhe para esclarecer presidente. Muita gente contesta a presença de familiares seus, no caso sua neta, Carla Dualib, no clube. O que senhor pode falar sobre isso?
DUALIB - É bom esclarecer que a Carla é uma grande profissional, que já trabalhou nas principais agências de São Paulo, estudou nos Estados Unidos. Foi ela quem comandou todos os trabalhos de marketing realizados na época da parceria com a Hicks Muse. Ultimamente, realizou um grande evento lá no Fasano e conseguiu atrair uns 230 empresários. Enfim, ela está aqui porque produz e traz resultados para o clube.



(O ESTADO DE S. PAULO, ESPORTES, 26/10/2003, p. E-6)