Citadini: 'Júnior foi frustrante'



O vice de Futebol do Corinthians revelou ao JT sua mágoa com a passagem relâmpago do treinador e disse preferir pessoas que tenham identidade com o clube, caso de Rivellino e Juninho


O advogado Antônio Roque Citadini, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, falou com exclusividade ao JT ontem à tarde.
Com mandato no Corinthians até 2005, o vice-presidente do clube falou claramente de sua frustração com o episódio Júnior, técnico contratado para "fugir da mesmice do futebol" e que deixou o clube na mão depois de 11 dias de trabalho. "Admito: foi frustrante demais."


Jornal da Tarde - O que é necessário hoje para tirar a palavra crise do vocabulário do corintiano?
Antônio Roque Citadini - Em primeiro lugar é preciso dar a dimensão exata para crise. Atualmente uma derrota é crise, a saída de um jogador é crise. O torcedor do Corinthians ganha muito hoje. E tantos títulos criam uma situação corriqueira. Este ano nós ganhamos o Paulista em cima do Palmeiras, do São Paulo. Só isso bastaria para falar durante uns três anos. Gente como eu, que peguei todo o impacto dos 21 anos (na conta do dirigente, de 1955 a 1976) sem títulos, tinha 4 anos quando foi campeão em 1954, cria o que a gente chama de couro grosso. Não estou aqui pregando o sofrimento como forma de superar esse tipo de problema, mas o fato existe.


E o que fazer?
No meio do furacão tem gente que perde o foco. A fragilização econômica dos clubes é enorme depois de um período em que forma feitos grandes investimentos, três quatro anos atrás. O que acontece? Os clubes ficaram fragilizados com a perda dos investidores e com a perda da receita que era gerada pela venda de jogadores.
Quando eu cheguei ao Corinthians em 2000, o departamento de Futebol tinha uma despesa mensal de R$ 3,8 milhões. Isso foi reduzido para menos de R$ 1,8 milhões. Foi um esforço fabuloso. E tem aí um agravante: todo mês são R$ 300 mil, R$ 400 mil que saem do futebol e vão aportar lá no clube social. Isso não é possível, tem de acabar.


O torcedor quer saber disso?
Não, certamente o torcedor não se interessa por isso, mas é relevante que ele saiba. Antes os clubes vendiam um jogador por ano e cobriam esse problema, que aliás não é só nosso. É do Palmeiras, do Vasco, do São Paulo, isso não é segredo para ninguém.


Qual é o segredo do Cruzeiro?
Pois é, qual é o segredo do Cruzeiro? Vou pegar pelo São Caetano. O São Caetano não tem um clube social. Os clubes não estão no mesmo patamar. O Osvaldo de Oliveira saiu agora falando que não recebe há 14 meses e não falou nada sobre o Corinthians. Isso nos honra, mas tivemos de fazer um ajuste muito violento.


Eu gostaria de insistir no Cruzeiro, Citadini.
Isso vai acabar ano que vem. O que acontece agora no Cruzeiro é que foi o último que vendeu muitos jogadores - o Geovani, o Fábio Júnior, o Sorín, um monte. E tem mais: não se pode esquecer que o Cruzeiro está assim agora. No ano passado não ganhou nada. E também em Belo Horizonte não tem praia perto.
Aqui em São Paulo, uma hora de carro você está no Guarujá e isso atrapalha todos os clubes - Corinthians, Sírio, Hebraica. Não tendo déficit com o social, o Cruzeiro pode manter o equilíbrio.


Que benefícios o Corinthians teve com essa saída de tantos jogadores?
Alguns vieram para o primeiro semestre (para a Libertadores), casos do Liédson e do Lucas. Outros eram fruto da parceria coma Hicks (maio de 1999 a maio de 2002), caso do Leandro. O Fábio Luciano chegou no fim de 99, fez uma belíssima carreira no clube e estava com 27 anos e pediu que o Corinthians facilitasse sua saída. Recebeu uma proposta da Turquia no meio do ano. O contrato dele seria até dezembro, mas aí a Turquia já poderia ter contratado outro. O Kléber começou aqui com 11 anos. Falamos para ele que (o empréstimo para o Hannover) não seria bom para ele nem para o Corinthians. Mas ele quis.


O episódio Júnior não caiu mal? Não queima o filme?
Queimaria se fosse só eu, se fosse da minha cabeça, mas não foi assim. É melhor quando o jogador tem identidade com o clube, como está agora, com o Rivellino, o Juninho, o Márcio, o Solitinho. Mas admito: foi frustrante demais.


WANIA WESTPHAL


(JORNAL DA TARDE, ESPORTES, 17/10/2003, p. B-4)