JUNINHO, WALDEMAR E O MILAGRE



Papo com o Juca
JUCA KFOURI


Júnior decepcionou muita gente. Do presidente do Corinthians ao presidente da República, que havia lhe dedicado especial atenção. Mas, sobretudo, Júnior deve ter decepcionado a si mesmo, pelo erro de avaliação, pela falta de coragem para enfrentar a situação, por ter abandonado o barco na segunda onda mais forte.

Curioso, e sintomático, é que ele fez o mesmo quando participou de apenas uma reunião do grupo de trabalho que criou o Estatuto do Torcedor, abandonando-o por considerar que tinha muitos cartolas e nenhum jogador em atividade, deixando perplexos os que o convidaram. Da mesma maneira que tem gente perplexa até agora no Parque São Jorge.

Principalmente Roque Citadini, único responsável por sua contratação, levado por um sentimento correto que recaiu na pessoa errada. Ossos do ofício.

Que têm preço, é claro. Aqui foi dito, e será repetido, que o Corinthians estava sendo ousado. E que havia feito a ousadia mais difícil, com Rivellino e Júnior. Mais fácil teria sido ousar com Neto e Casagrande.

Pois eis que um dos males da repentina renúncia de Júnior está exatamente no trauma que causou em relação às novas experiências com ex-craques de futebol, algo que certamente custará caro para ele e que atingirá por tabela gente que não teve nada a ver com isso, como Walter Casagrande Jr.

Juninho é uma interrogação. Mas uma interrogação que, ao menos, tem a ver com o Corinthians e que nunca foi de fugir da raia. Que seja feliz.

Waldemar de Oliveira parece não ter os mesmos hábitos de higiene do irmão Oswaldo. Topou conviver com baratas e cocô de gato na Gávea.

Brincadeiras sem graça à parte, o desafio dele é maior que o de Juninho, porque num clube de torcida ainda mais numerosa – e incomparavelmente mais desorganizado e caótico, em clima pré-eleitoral para piorar.

Se não bastasse, terá de cara uma desconfiança suscitada pelos torcedores são-paulinos: ele era o responsável pelo treinamento da defesa tricolor, exatamente o setor que mais dores de cabeça deu ao mano Oswaldo no Morumbi. Que também seja feliz.

Mas o fato é que os dois clubes mais populares do país encontraram soluções domésticas para tentar terminar o ano com dignidade. Desde logo, no entanto, é bom sublinhar que de ambos não se pode esperar aquilo que a sabedoria popular já consagrou no futebol e na vida: santo de casa não faz milagres.



(LANCENET, 16/10/2003)