NOTÍCIAS –
22/5/2003
PAINEL
FC
FIGARO
O vice
corintiano Roque Citadini recusou (e depois aceitou) convite para
participar ontem de um debate sobre o imbróglio da suspensão
do Brasileiro numa emissora de TV. Tinha como programa ir a uma
ópera.
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 22/5/2003)
ESTATUTO DO TORCEDOR

“Não
acho que um confronto como esse seja a melhor solução.
Existem disposições na lei que devem sair, mas não
é por causa disso que você vai dizer que a lei não
pode ser cumprida. Temos que negociar.”
ANTONIO
ROQUE CITADINI, vice-presidente de futebol do Corinthians
“Há
itens no estatuto que não poderemos cumprir até a
próxima rodada do Brasileiro. Não tenho condições
de assumir a responsabilidade do torcedor no estádio. As
medidas são inaplicáveis no momento.”
EURICO
MIRANDA, presidente do Vasco
JOGO EMPATADO
|
A FAVOR DA |
10 X 10 |
CONTRA A |
|---|---|---|
|
VASCO |
|
CORINTHIANS |
Ameaça
de clubes cria apêndices para estatuto sancionado há uma
semana pelo presidente Lula
GOVERNO
CEDE A CARTOLAS E VAI ATENUAR A LEI DO TORCEDOR
FÁBIO
VICTOR
DO PAINEL FC
MARCOS CÔRTES
DA SUCURSAL DE
BRASÍLIA
O governo Lula disse que não
cederia à ameaça dos clubes de paralisar o Brasileiro,
passou seis horas negociando com cartolas uma revisão no
Estatuto do Torcedor e, às 22h30 de ontem, acertou um acordo
que simboliza um recuo diante da posição inicial.
Com isso, o campeonato não
será paralisado -a rodada do fim de semana está
garantida.
Depois de um ano de debate público
com dirigentes de clubes, análise pela Câmara e no
Senado e sanção do presidente da República, o
governo chegou, por pressão do establishment da bola, à
conclusão que dois artigos (19 e 37) do lei, sancionada na
semana passada por Lula, possuem mais de uma interpretação.
O artigo 19 diz que as entidades e
dirigentes que organizam competições são
responsáveis por prejuízos causados ao torcedor
"independentemente de culpa".
O 37 afirma que a instauração
de processo por descumprimento da lei acarretará afastamento
compulsório dos dirigentes e demais pessoas que, direta ou
indiretamente, puderem interferir na elucidação dos
fatos.
Ao fim de uma reunião no
gabinete do ministro do Esporte, Agnelo Queiroz, os clubes e a CBF
tiveram a promessa de que os dois itens que mais lhe incomodavam no
texto serão "reinterpretados".
A solução encontrada
por Queiroz foi pedir um parecer da Advocacia Geral da União
com caráter normativo -ou seja, o texto da lei não será
mudado, mas a interpretação da AGU servirá de
norma para a administração federal.
A assessoria jurídica do
Ministério do Esporte fez seu próprio parecer, redigido
pelo advogado Francisco Guimarães, e o encaminhou, ontem à
noite mesmo, à AGU. A tendência é que o órgão
reproduza o que sugeriu a pasta.
Assim, sobre o artigo 19, a
instrução normativa irá esclarecer que os
dirigentes e entidades só serão responsabilizados
"diante de comprovada imprudência quanto às
exigências de segurança estabelecidas para garantir os
direitos constitucionais assegurados indistintamente a todos".
O 37 é mais complicado. A
Folha apurou que o governo não está disposto a
mudar o teor do artigo. Para fechar o acordo, incluiu o trecho no
pacote, mas deverá somente maquiar sua redação.
O governo descartou a possibilidade
de editar uma medida provisória, especialmente por causa da
repercussão negativa da MP que editou para viabilizar o GP
Brasil de F-1, no mês passado.
Apesar de demandas operacionais para
a realização dos jogos do fim de semana, não há
previsão para emissão do parecer.
Ao fim da reunião, o
presidente do Clube dos 13, Fábio Koff, afirmou que só
haverá campeonato neste ano se o parecer da AGU estiver em
consonância com o entendimento dos cartolas.
RECUOU
O recuo do governo se deu em poucas
horas. Ontem mesmo, Queiroz ameaçava punir dirigentes com
afastamento do futebol por até dez anos, e Aldo Rebelo (PC do
B-SP), líder do governo na Câmara, acusava a CBF de
organizar e liderar a resistência.
Após reunião de cerca
de duas horas com parlamentares e cartolas na Câmara, o
deputado Gilmar Machado (PT-MG) apresentou ao ministro duas
propostas: a edição de uma medida provisória
sustando os efeitos do estatuto para este ano e um termo de ajuste de
conduta. O termo seria uma espécie de ajuste fino, em que
dirigentes e governo firmariam entendimento sobre pontos específicos
do estatuto.
Segundo Machado, o documento da AGU
vai servir apenas para "oficializar" o acordo.
Colaborou Iuri Dantas,
da Sucursal de Brasília
SORTEIO
DE ÁRBITROS VAI ACONTECER
DO PAINEL FC
Inicialmente uma das maiores queixas
dos cartolas, o sorteio de juízes antes dos jogos, previsto no
artigo 32 do Estatuto do Torcedor, foi aceito, e o primeiro deverá
acontecer hoje à tarde.
Ontem, em Brasília, os
dirigentes cederam e pediram ao governo um tempo para a CBF
regulamentar a prática, inédita no país.
Mas, na madrugada de hoje, o presidente da CBF,
Ricardo Teixeira, anunciou que eles acontecerão já para
este fim de semana. Até então, a entidade alegava que
uma resolução da Fifa proibia a realização
de sorteios.
O estatuto determina que a escolha será
feita entre nomes previamente selecionados.
Participaram do encontro com Agnelo Queiroz
presidentes de Vasco, Fluminense, Cruzeiro, Atlético-PR, além
de Fábio Koff, que comanda o Clube dos 13, e representantes da
CBF.
Segundo participantes do encontro ouvidos pela
Folha, foi o presidente do Vasco, Eurico Miranda, quem mais
dificultou as negociações entre clubes e governo,
insistindo na mudança radical dos artigos que prevêem
severas punições a dirigentes esportivos.
A inclusão do artigo 37 no acordo, por
exemplo, foi quase uma conquista pessoal de Eurico. Já estava
quase acertado que somente o 19 seria levado para parecer da AGU,
quando, no final da reunião, o vascaíno esperneou e
arrancou do governo o compromisso de que o 37 também terá
uma instrução normativa. (FV)
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 22/5/2003)
MEMÓRIA
EM
2002, CÚPULA ESPORTIVA AJUDOU A GERAR ESTATUTO
DA
REPORTAGEM LOCAL
O Estatuto de Defesa do Torcedor foi entregue pelo
governo FHC ao Congresso em outubro de 2002, seis meses após a
formação, pelo Ministério do Esporte, de um
grupo só para estudar o assunto.
O grupo fez encontros durante três meses e
reuniu os presidentes Ricardo Teixeira (CBF), Fábio Koff
(Clube dos 13) -que o deixou antes de seu final- e Carlos Arthur
Nuzman (COB), o técnico Carlos Alberto Parreira, o diretor da
Globo Esportes, Marcelo Campos Pinto, e ex-atletas.
Com base nos trabalhos, no dia 30 de outubro foi
enviado ao Congresso, em regime de urgência, o código do
torcedor.
Após ser analisado por três comissões
da Câmara, o projeto de lei sofreu várias mudanças.
Foram retirados, por exemplo, os itens que permitiam ao torcedor
entrar com um pedido de indenização em caso de erros de
árbitros ou da Justiça Desportiva. E foram incluídas
emendas que tratam dos deveres do torcedor, com punições
para quem brigar.
Aprovado no fim de fevereiro na Câmara, o
estatuto, ao lado do projeto da medida provisória 79, voltou a
ganhar destaque na última quinta, quando foi sancionado por
Lula.
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 22/5/2003)
JURIDIQUÊS
Art.
13: O torcedor tem direito a segurança antes, durante e após
as partidas.
Os clubes acreditam que não podem ser
responsabilizados pela segurança, atribuição do
poder público, ainda mais nas cercanias do estádio.
O
governo, que deu prazo de seis meses para a entrada em vigor do
artigo, defende ser dever dos organizadores zelar pela segurança
da torcida.
Art.
14: A responsabilidade pela segurança do torcedor é do
mandante de jogo e de seus dirigentes. Perderá o mando de
campo, por no mínimo dois meses, o mandante que não
observar o disposto deste artigo.
Os clubes dizem que precisam de
um prazo maior para adaptar as suas arenas e contratarem pessoal
especializado para monitorar os fãs. Os dirigentes dos times
que não possuem estádios próprios defendem que
não têm autonomia para tomar decisões em estádios
públicos ou de terceiros.
O governo alega que o artigo foi
discutido com os clubes, aprovado pelo Congresso e pelo presidente, e
não deveria causar nenhuma surpresa.
Art.
16: É dever da organizadora da competição
disponibilizar uma ambulância para cada 10 mil torcedores.
Os
clubes acham a exigência exagerada e onerosa, apesar de já
a cumprirem -não com a média de agora.
O governo diz
se tratar de norma de segurança e lembra que a média de
público no Nacional não supera 15 mil torcedores (o que
obrigaria a contratação de duas ambulâncias por
jogo).
Art.
17: É direito do torcedor a implementação de
planos de ação referentes à segurança,
transporte e contingências que possam ocorrer durante os
eventos esportivos. Tais planos serão elaborados pela
organizadora da competição, com a participação
dos clubes, e deverão ser apresentados previamente aos órgãos
responsáveis pela segurança pública.
Os
clubes defendem que não podem assumir tarefas que são
da administração pública nem interferir na sua
execução. Os que não possuem arenas também
afirmam que não têm autonomia para implementar nada nos
estádios em que apenas são locatários.
O
governo acredita que os clubes que organizam o evento devem zelar
pela sua perfeita execução.
Art.
19: Os organizadores, bem como seus dirigentes, respondem
solidariamente com os mandantes e seus dirigentes, independentemente
da existência de culpa, pelos prejuízos causados a
torcedor que decorram de falhas de segurança nos estádios
ou da inobservância do disposto no estatuto.
Os clubes não
querem a responsabilização objetiva dos dirigentes.
O
governo diz que há uma precipitação dos
dirigentes. Lembra que o artigo prevê a responsabilização
em casos de falhas de segurança.
Art.
20: A venda de ingressos será realizada em pelo menos cinco
postos de venda diferentes da cidade.
Os clubes consideram a
operação inviável e onerosa.
O governo
considera a operação um direito do torcedor.
Art.
32: Os árbitros devem ser sorteados, dentre aqueles
previamente selecionados.
Os clubes acreditam que a medida poderá
acarretar "injustiças", como ter um árbitro
qualificado em um jogo de menor expressão.
O governo
defende que o sorteio não prejudica o nível da
arbitragem, já que pode haver uma pré-seleção.
(FOLHA DE S. PAULO,
FOLHA ESPORTE, 22/5/2003)
FUTEBOL
Enquanto
cartolas se desentendem, CBF escala juízes e atletas treinam
NO
DIA DE GREVE DE FUTEBOL, A BOLA SÓ PÁRA NO DISCURSO
DA REPORTAGEM LOCAL
O futebol brasileiro não parou durante a
greve arquitetada pelos cartolas. Jogadores treinaram, partidas
seguiam programadas e decisões administrativas foram tomadas,
como venda de ingressos e viagens. Também a confusão
continuou. Aliás, aumentou, pois os clubes, na berlinda, nem
de longe alcançaram consenso.
O protesto contra a nova legislação
esportiva, acertado em reunião na noite de terça-feira
na sede da CBF, melindrou vários dirigentes. Só
participaram do encontro oito clubes, dirigentes de federações
estaduais, o presidente da confederação, Ricardo
Teixeira, e o secretário-geral Marco Antonio Teixeira. Dois
executivos representaram a Globo, detentora dos direitos de
televisionamento.
E quem não participou resolveu dar palpite.
O São Paulo, por exemplo, emitiu comunicado deplorando a
decisão. Segundo o presidente Marcelo Portugal Gouvêa, o
Estatuto do Torcedor "contém imprecisões que
merecem ser reconsideradas, mas é absurdo suspender o
campeonato".
Suspensão, diga-se de passagem, que
consumiu o dia presumida. Apenas no final da noite a CBF a confirmou,
ironicamente, negando a paralisação do futebol na
rodada deste fim de semana.
Todos estavam à espera das decisões
de Brasília, para onde se deslocou a tropa de choque da bola
capitaneada por Fábio Koff, presidente do Clube dos 13.
E, enquanto estas se davam, cada clube atirava
para o lado que lhe interessava. Alvimar Perrella, presidente do
Cruzeiro, um dos clubes que participaram do encontro e pediram a
supressão do artigo 19 do estatuto -sobre responsabilização
de dirigentes-, minimizava a suspensão. "Sou leigo em
legislação, mas a CBF não podia tomar a decisão
de parar." Para alguns juristas, apenas a Assembléia
Geral da entidade teria poderes para tanto.
Do outro lado, Paulo Carneiro, presidente do
Vitória, único clube-empresa da Série A e que
defende a aplicação integral da nova lei, também
acreditava na realização dos jogos. "Não
recebi nada."
A própria entidade reforçou a idéia
de continuidade. Sugeriu aos clubes da Série B que têm
jogos marcados para amanhã que viajassem. Publicou até
a escala de arbitragem para as três partidas programadas -sem
sorteio, o que feriria a nova legislação.
Uníssona, a reivindicação de
mudanças perdeu terreno para a discussão sobre a
paralisação. O Corinthians, outro grande que não
foi ao encontro, se posicionou contra. "Não dá
para viabilizar alguns artigos, mas nem por isso apoiamos a decisão
de parar o campeonato", disse o vice-presidente Antonio Roque
Citadini.
"O que lamento é o governo cobrar, mas
não dar recursos para os clubes", completou, aproveitando
para passar o chapéu.
O presidente do Bahia, por sua vez, criticou a
concentração de poder. "Não entendo como
oito clubes e quatro federações possam responder por 48
times", disse Marcelo Guimarães.
Paraná e São Caetano foram mais
radicais, disseram que vão a campo no sábado de
qualquer maneira. E o Coritiba divulgou que os dirigentes devem "ser
responsabilizados por seus atos".
Os clubes têm problemas. Mas cada um parece
ter a sua solução.
(FOLHA DE S. PAULO, FOLHA
ESPORTE, 22/5/2003)
ANÁLISE
LEI
FOI FEITA PARA CARTOLA, NÃO PARA A ARQUIBANCADA
JOSÉ
HENRIQUE MARIANTE
EDITOR-ADJUNTO DE ESPORTE
Um dia antes de o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva assinar a nova legislação do esporte, a
Globo foi obrigada a mostrar um corintiano espetado pelo traseiro em
uma absurda grade no estádio do Morumbi.
A terrível imagem seria argumento
suficiente para justificar o rigor de qualquer lei, das existentes às
serem criadas. Assim como a tragédia de São Januário,
a luta campal no Pacaembu, o gradil do Maracanã e os tantos
episódios violentos que o futebol nacional já
produziu.
Na cerimônia de assinatura, o tal torcedor,
um taxista que teve o baço retirado, não foi lembrado.
Lula preferiu pedir ajuda para fazer a lei emplacar. Errou o foco?
Não, antecipou dificuldades. O Estatuto do Torcedor e a
chamada MP79, versão um pouco mais ácida da Lei Pelé,
não foram elaborados para ajudar o torcedor a torcer.
Foram feitos, ainda no governo anterior, para
responsabilizar dirigentes por todo tipo de delito, seja ele fiscal,
financeiro, esportivo ou até mesmo cível. A idéia,
que moveu boa parte dos trabalhos das duas CPIs, é limpar o
setor. Garantir direitos ao fã do esporte, que, aliás,
já são garantidos por outras leis, é um meio de
aumentar a vidraça da cartolagem, uma desculpa louvável.
Houve debate. Fóruns foram criados,
entendidos e interessados foram ouvidos, e até um patético
jogo-modelo, onde uma torcida organizada organizava as arquibancadas,
foi realizado. A lei foi para o Congresso, passou nas duas Casas por
acordo de lideranças -com pautas trancadas, virou escambo-, o
governo sancionou, e o torcedor, de estalo, virou respeitado
consumidor, com direitos e deveres, da noite para o dia. Bacana,
não?
Sim, muito. Mas, como estádio de futebol
não é lugar de bacana, clubes, federações
e CBF resolveram parar o campeonato, estratégia tão
radical quanto a utilizada contra eles pelos legisladores: usar o
incauto torcedor e sua paixão.
Poucos serão os fãs que estarão
pensando na importância do número de ambulâncias
se seu time não entrar em campo no domingo. Ou a necessidade
de receber um comprovante de ingresso. Ou que isso tudo pode salvar
sua vida e/ou garantir que seu time não está sendo
roubado nas bilheterias.
Torcedor não raciocina, pois, se o fizesse,
não iria ao estádio ser tratado como gado. E quem
raciocina (e derruba cada vez mais as rendas dos jogos) duvida
seriamente daquela imagem da arquibancada mostrada na TV, gente
feliz, pais e filhos, namorados, uma propaganda enganosa da atividade
de torcer.
A do Morumbi violentou esse sonho. E provou
que é apenas o do torcedor que está na reta.
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 22/5/2003)
ATÉ
"REBELDES" MANTÊM TREINOS
DA REPORTAGEM LOCAL
Pelo menos dois dos clubes que votaram pela
paralisação do Campeonato Brasileiro deram curso normal
a seus treinamentos e concentração, visando os jogos da
rodada do próximo final de semana, que, segundo proclamaram
dirigentes desses mesmos clubes na reunião de anteontem na
CBF, estaria cancelada.
Ontem, antes de viajar para Brasília e se
reunir com Agnelo Queiroz, ministro do Esporte -para debater a
inviabilidade da aplicação do Estatuto do Torcedor-, o
presidente Mario Petraglia, do Atlético-PR, deixou instruções
para o clube iniciar amanhã, às 10h, a venda de
ingressos para a partida contra o Flamengo, no domingo. O time
paranaense tem treinamento marcado para hoje, às 16h, e
entrará em campo no mesmo horário, no domingo, com o
Flamengo presente ou não, segundo sua assessoria.
Já o outro Atlético, o mineiro,
começou ontem mesmo a concentração de seus
atletas para a partida diante do Fluminense, marcada para depois de
amanhã, no estádio Independência.
Ricardo Annes Guimarães, presidente do
clube, também presente à reunião no Rio que
anunciou a paralisação do torneio nacional, não
mudou nem mesmo a programação da equipe, que treina
hoje em dois períodos.
A notícia de que o Campeonato Brasileiro
seria suspenso não alterou a rotina do Coritiba, que, pela
tabela, no final de semana enfrenta o Paysandu, em Belém, no
domingo. A delegação da equipe paranaense tem
confirmadas as passagens de avião para a viagem ao Pará
às 7h de amanhã.
Pela Série B, o Palmeiras em um primeiro
momento contava que não jogaria mais no sábado contra o
Caxias, no Sul. O clube, então, decidiu liberar anteontem o
atacante Muñoz para resolver problemas particulares na
Colômbia, achando que não haveria rodada no fim de
semana.
Mas declarações do técnico
Jair Picerni ontem entregavam o arrependimento. "Ele viajou,
então está legal, mas agora parece que vai ter rodada",
disse. "Uma outra paralisação seria péssima",
completou, lembrando o atraso para o início da Série B,
que deixou a equipe quase um mês sem jogar.
FUTEBOL PENTACAMPEÃO
O Corinthians treinou de manhã e à
tarde para enfrentar o Juventude no sábado. A maioria dos
atletas lamentou o impasse. "O futebol pentacampeão do
mundo deveria ser organizado. Falta união dos jogadores.
Poderíamos nos unir para tentar organizar o nosso futebol",
mostrou engajamento o lateral-direito Rogério.
Já os são-paulinos se dividiram nas
críticas. O zagueiro Jean atacou uma possível
paralisação: "Depois, é a gente que sai
perdendo. Os atletas terão de jogar duas vezes por semana e
ficar sem férias". Já o uruguaio Lugano,
recém-chegado ao país, disparou contra as novas regras:
"As exigências [do Estatuto] na Espanha, no Japão e
na Itália são normais. Mas na América do Sul nem
sempre há recursos para um investimento na melhoria dos
estádios".
O imbróglio também deixou indignados
jogadores que atuam fora do país. "Está difícil
explicar para os coreanos a confusão que está
acontecendo no Brasileiro", afirmou o atacante Dodô, que
hoje atua pelo Ulsan Hyundai, time da Coréia do Sul.|
(FOLHA DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE,
22/5/2003)
FUTEBOL
Após
discutir possibilidade de promover partidas com portões
fechados, Teixeira quebra silêncio e ressuscita rodada
ACORDO
FECHADO, CBF ESQUECE PARALISAÇÃO
FERNANDO
MELLO
DO PAINEL FC
Um dia depois de patrocinar a
reunião que suspendeu o futebol no país, a CBF resolveu
manter a disputa da rodada do final de semana do Campeonato
Brasileiro.
A decisão foi tomada por Ricardo Teixeira,
presidente da CBF, por volta das 23h de ontem. O cartola, que não
fez nenhum pronunciamento, quer diluir entre os 48 clubes das duas
principais divisões a decisão ou não de
paralisar o esporte mais popular do país.
Teixeira cogitou agendar uma reunião do
Conselho Técnico das duas séries, na próxima
terça-feira, para decidir o futuro do campeonato. Desistiu.
Fará chegar aos clubes que eles terão que convocar o
conselho se quiserem parar.
A decisão do dirigente, revelada a amigos
no fim da noite de ontem, aconteceu menos de duas horas depois da
reunião entre dirigentes de clubes e o ministro do Esporte,
Agnelo Queiroz, na qual foi feito um acordo para amenizar pontos do
Estatuto do Torcedor que afetavam os cartolas.
O presidente da CBF, com seu ato, quer se
desvincular totalmente da negociação para parar o
futebol. Desde o encontro que referendou a suspensão do
torneio, o presidente da CBF não falou. Tampouco a entidade
oficializou a interrupção da competição,
seja por nota oficial ou declaração.
O silêncio da entidade e de seus dirigentes
fazia parte da estratégia de não inviabilizar uma saída
negociada com o governo federal.
A pauta inicialmente alardeada para o evento de
terça dava conta de que o encontro definiria vagas na Copa
Sul-Americana e na Libertadores de 2004. Mas desde a véspera
pelo menos três dos integrantes mais importantes da reunião
sabiam que o que seria discutido era o motim contra pontos do
Estatuto do Torcedor.
Primeiro, Teixeira ouviu as ponderações
dos clubes, feitas especialmente por Eurico Miranda (Vasco) e Mario
Celso Petraglia (Atlético-PR). Eduardo Viana, o Caixa D'Água
(Federação do Rio), defendia a manutenção
dos jogos, mas sem público. Foi apoiado por alguns dos
cartolas.
O presidente da CBF posicionou-se contra. Disse
que não queria se parecer com um deputado da ala radical do
PT, mas com alguém com poder de negociação nos
bastidores.
"Não quero ser radical. Não
quero ser o Babá dos cartolas. Quero assumir um papel
conciliador como o de Tancredo Neves, o de José Sarney",
declarou Teixeira, segundo interlocutores.
O dirigente afirmou ainda que o ato poderia ser
entendido como uma afronta por integrantes do governo. Propôs-se,
então, a paralisação para forçar o
ministério do Esporte a negociar.
PASSEATA
Durante a reunião na sede da CBF, que durou
duas horas e meia, os cartolas cogitaram levar os principais
jogadores do país para uma passeata em frente ao Palácio
do Planalto, em Brasília.
No encontro, que contou ainda com
as presenças de Fábio Koff (Clube dos 13), Marcelo de
Campos Pinto (Globo Esportes), Marco Antonio Teixeira
(secretário-geral da CBF), Carlos Eugênio Lopes (Diretor
Jurídico da CBF) e Onaireves Moura (Federação do
PR), os dirigentes decidiram se organizar para barrar pontos do
estatuto. Citaram mais de uma vez o caso do torcedor Rui Nelson de
Moura Jr., que caiu sobre uma grade com lanças no Morumbi há
uma semana. Se o estatuto estivesse em vigor, o presidente do
Corinthians, Alberto Dualib, poderia ser responsabilizado.
Discutiu-se também o cancelamento dos jogos
de ida das semifinais da Copa do Brasil de ontem à noite.
Desta vez, a Globo foi contra. Disse que sua grade já estava
feita. Ponderou-se também que ingressos já tinham sido
vendidos, o que poderia dar margem para mais confusões no
tribunal.
Na terça, ficou combinado que só os
dirigentes de clubes falariam. Eurico foi um dos escalados para dar
entrevista à Globo. Teixeira e os representantes da Globo
Esportes acertaram não falar.
Para os presentes, a suspensão do
Brasileiro, amplificada pela presença de repórteres da
TV Globo no saguão (o que significaria uma entrada ao vivo no
"Jornal Nacional"), faria o governo ouvir a proposta dos
cartolas, o que de fato aconteceu.
Na avaliação da CBF, a paralisação
não sairia mesmo do papel. Haveria uma "solução
negociada" com o governo. Clube dos 13 e Globo também
apostavam em um acordo de cavalheiros.
Mesmo assim, um advogado da CBF foi avisado de
que, logo após a reunião com o ministro, poderia ter
que procurar um partido político para entrar imediatamente no
Supremo Tribunal Federal com uma Ação Direta de
Inconstitucionalidade. Após o acordo dos clubes com Queiroz,
essa estratégia foi descartada.
GLOBO
NEGA SEU APOIO FORMAL E TEME TAPETÃO
DO
PAINEL FC
Dirigentes de clubes presentes à
reunião de anteontem na sede da CBF disseram que a cúpula
da Globo Esportes garantiu apoio à tentativa de paralisação
do campeonato.
Segundo eles, a detentora dos direitos de TV
temia que, se o Estatuto do Torcedor não fosse discutido ou
revisto em parte pelo governo federal, havia a possibilidade de o
torneio ser resolvido no tapetão.
Um dos pontos que dariam margem para isso é
a obrigatoriedade de o árbitros serem designados por sorteio.
Se isso não acontecesse, o clube que se sentisse prejudicado
poderia pleitear os pontos na Justiça.
Muitos dos cartolas afirmaram, de forma
reservada, que a força da Globo seria usada para forçar
o governo a sentar para negociar itens do estatuto.
Marcelo Campos Pinto, diretor-executivo da
Globo Esportes, disse que a emissora se manteria neutra, negando
apoio institucional da TV para a interrupção. "A
paralisação é ruim para nós. Em nenhum
momento foi discutida a cobertura jornalística da Globo, que é
e sempre foi imparcial. E, do ponto de vista comercial, é
inegável que a paralisação nos traz prejuízo,
pois temos um produto a entregar aos telespectadores e anunciantes."
(FM)
(FOLHA DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE,
22/5/2003)
FUTEBOL
Rodada
passada do Brasileiro e semifinais da Copa do Brasil ferem muitas
determinações do Estatuto do Torcedor
PELA
LEI, TEIXEIRA JÁ PODIA TER SIDO PUNIDO
RODRIGO
BUENO
LÚCIO RIBEIRO
DA REPORTAGEM LOCAL
Os torcedores poderiam suspender ou até
destituir Ricardo Teixeira, presidente da CBF, o que nem CPI em
Brasília conseguiu.
A Confederação Brasileira de
Futebol, que organiza o Campeonato Brasileiro, já cometeu uma
série de irregularidades passíveis das punições
acima segundo o Estatuto de Defesa do Torcedor.
A nova lei entrou em vigor no dia 16 de maio,
quando foi publicada no "Diário Oficial". Isso quer
dizer que as suas determinações deveriam ter sido
cumpridas já na rodada do fim de semana passado do futebol
nacional, assim como nas partidas de ontem das semifinais da Copa do
Brasil.
E mais de dez artigos do estatuto foram
desrespeitados. Pelo artigo 37, na hipótese de violação
das regras ou dos dispositivos da lei, os dirigentes são
destituídos ou suspensos por seis meses.
O texto trata de punição ao
presidente da entidade organizadora do campeonato e também aos
dirigentes de clubes. Para o desespero de alguns desses, segundo a
Folha apurou, o parágrafo 3º do artigo 37 prevê
a suspensão compulsória dos dirigentes que venham a ser
processados -ficariam afastados de seus postos até sair uma
decisão final do caso.
Se fosse suspenso ou destituído, Ricardo
Teixeira ficaria impedido de tentar outra reeleição na
CBF.
Uma das falhas da CBF na rodada passada do
Brasileiro foi o descumprimento da determinação de dar
publicidade às súmulas e aos relatórios das
partidas. Na Copa do Brasil, também houve deslizes que ferem o
estatuto. Os árbitros que atuaram ontem não foram
definidos após sorteio.
Nos jogos, deveriam ter sido afixados em todas as
entradas dos estádios o regulamento e a tabela da competição,
por exemplo.
Já era obrigatória a divulgação
da renda e do público das partidas durante a realização
das mesmas pelos serviços de som e imagem nos estádios.
A segurança dos torcedores em eventos esportivos também
já era da responsabilidade dos mandantes dos jogos.
A determinação de disponibilizar uma
ambulância, um médico e dois enfermeiros para cada dez
mil torcedores presentes às partidas não foi cumprida
em vários estádios -no Mineirão, onde jogaram
Cruzeiro e Corinthians, cinco ambulâncias e cinco médicos
deveriam estar de prontidão.
Os torcedores também não ganharam
recibos pela aquisição dos ingressos. Em vários
estádios, ninguém ficou com comprovantes de pagamento
pelas entradas.
Os mandantes das partidas deveriam oferecer aos
torcedores boas condições de transporte, alimentação
e higiene. Porém estádios visitados pela Folha
nos jogos do final de semana não mostraram melhorias em seus
sanitários em relação ao que ofereciam antes da
sanção da nova lei.
PRAZOS
Algumas determinações
do Estatuto de Defesa do Torcedor vão entrar em vigor apenas
daqui a seis meses. O monitoramento por imagem do público e a
numeração de todos os ingressos estão entre
essas determinações.
Se Teixeira e os dirigentes dos clubes já
poderiam responder por irregularidades, os torcedores também
não ficam atrás.
Pelo artigo 39 do estatuto, torcedor que promoveu
tumulto, praticou ou incitou violência ou invadiu local
restrito aos competidores deve ser impedido de ir aos estádios
e às suas proximidades pelo prazo de três meses a um
ano.
Quem cometeu tais infrações em um
raio de cinco quilômetros ao redor dos estádios também
deve ser punido da mesma maneira.
A Justiça esportiva também já
pode ser alcançada pelo estatuto. Pelo artigo 34, é
direito do torcedor que os órgãos da Justiça
esportiva observem os princípios da impessoalidade, da
moralidade, da celeridade e da independência.
Ou seja, se um torcedor entender que o STJD tomou
uma decisão parcial ou demorou para analisar um caso, já
poderia protestar -anteontem, o STJD indeferiu mandado de garantia
impetrado pelo São Paulo, que queria impedir a primeira
partida entre Goiás e Cruzeiro pela Copa do Brasil.
Colaborou Marília Ruiz, da
Reportagem Local
Leia a íntegra do Estatuto do Torcedor na
www.folha.com.br
(FOLHA DE S. PAULO,
FOLHA ESPORTE, 22/5/2003)
SAIBA
MAIS
EM
OUTROS PAÍSES, LEIS DO TORCEDOR SÃO COSTUMEIRAS
DA
REPORTAGEM LOCAL
Enquanto o governo brasileiro sofre com a
resistência à lei do torcedor, no mundo a legislação
não é nova. Na Europa, data do fim dos anos 80.
Na Espanha, que tem um campeonato tido como modelo
de organização mundial, muitas das prerrogativas do
Estatuto do Torcedor já estão em vigor. Por exemplo,
está prevista na Lei do Esporte espanhola, de 1990, a
responsabilização de organizadores de eventos por
acidentes decorrentes da falta de segurança nos estádios,
com penas que podem variar de multas até a reclusão.
São citados na lei, como exemplos de irresponsabilidade, a
superlotação dos locais e a falta de centros
operacionais de controle de segurança.
Lá, a apresentação de
boletins financeiros e de prestações de contas é
obrigatória, até porque a maioria esmagadora dos clubes
profissionais de futebol se transformou, por lei, em "sociedades
anônimas desportivas", o que faz com que eles se enquadrem
em regras fiscais iguais às de qualquer empresa.
Calendários antecipados e acessibilidade de
deficientes físicos aos estádios também são
obrigatórios. Isso também acontece em Portugal e na
França, Inglaterra e Alemanha.
Além disso, os assentos de todos os locais
de realização de partidas são numerados, e a
presença de câmeras de vigilância fixas e móveis
também é exigida por lei. A "Comissão
Nacional contra a Violência nos Estádios" reúne
e publica dados sobre brigas e ações de vandalismo,
além de elaborar políticas de prevenção.
O mesmo faz a FLA (Football Licensing Authority)
britânica, além de coordenar "in loco" a ação
das autoridades. A entidade ficou famosa por ter controlado os
temidos "hooligans", após a promulgação
da lei inglesa dos estádios, o "Football Spectators Act",
de 1989.
Na Inglaterra, na Itália e até na
vizinha Argentina, as autoridades adotaram penas mais rígidas
para coibir a violência nos estádios e imediações.
Além
disso, foram tomadas medidas como o cadastramento de torcedores
violentos e a obrigatoriedade de apresentação à
polícia dos causadores de problemas, no horário das
partidas de seus clubes.
Nos EUA, a legislação esportiva tem
variações de Estado para Estado, mas algumas leis
federais, como as para deficientes, são respeitadas em todo o
país. Assentos são obrigatórios.
(Folha de S. Paulo, Folha Esporte,
22/5/2003)