NOTÍCIAS – 16/3/2003


CLUBE COLECIONA TÍTULOS. E OS RIVAIS TREMEM...




Com a ótima média de pelo menos um título por ano desde 1977, o Corinthians esbanja confiança nas finais. Como hoje, contra o pressionado São Paulo.


A final do Campeonato Paulista com o São Paulo é a quarta decisão em menos de um ano que o Corinthians disputa. Mais: de 1997 para cá, o time foi campeão pelo menos uma vez por ano. Dirigentes e jogadores não conseguem esconder: o fato de a equipe ser colecionadora de títulos abala a estrutura emocional dos adversários. O zagueiro Fábio Luciano, capitão do time, admite: "Não dá para negar. Os times que decidem contra nós entram em campo com muito respeito. E o São Paulo não deve ser diferente. Quando o jogo começar, certamente eles vão se lembrar que perderam para nós o Rio-São Paulo do ano passado."


No ano passado, além de ganhar o torneio regional, o Corinthians conquistou a Copa do Brasil, após eliminar o São Paulo nas semifinais, e foi vice-campeão brasileiro, perdendo a final para o Santos de Robinho e Diego.


O vice-presidente Antônio Roque Citadini busca na "modernizadora administração" do presidente Alberto Dualib a explicação para o sucesso do time.


"Quando Dualib assumiu, o Departamento de Futebol Profissional não tinha sequer uma bicicleta ergométrica para os jogadores se exercitarem. Hoje, temos o melhor conjunto de aparelhos para recuperação de jogadores do futebol brasileiro. Não sou só eu que digo: quando o Parreira foi contratado, ficou surpreso com as excelentes condições de trabalho que encontrou no Corinthians. Ele mesmo me disse que o Corinthians é um clube diferenciado.


Falar sobre as conquistas do clube é um assunto que deixa o dirigente eufórico. Ele também acha que os adversários tremem quando decidem contra o Corinthians.


"O que acontece é que o Corinthians entra em campo tranqüilo. Do outro lado, normalmente, como é o caso do São Paulo nesta decisão, o adversário entra traumatizado pelo fato de não ter conseguido ganhar títulos nos últimos anos. Tivemos uma década de ouro e posso garantir a nossos rivais que vamos continuar colocando a faixa no peito por muito tempo ainda."


A tese de que a seqüência de títulos fez com que a torcida se acomodasse e deixasse de comparecer aos estádios é rechaçada por Citadini.


"O que ocorre é que hoje as dificuldades para ir ao estádio são bem maiores do que há uns dez anos. A insegurança hoje é muito grande e afasta as famílias dos estádios. Além disso, as opções de lazer aumentaram bastante."


Apesar do sucesso, clube perde sócios


Se o time de futebol vai bem e não pára de conquistar títulos, o mesmo não se pode dizer da parte social. O Parque São Jorge está abandonado.


O número de sócios pagantes atualmente não chega a 12 mil. O próprio Citadini lembra que o clube já chegou a ter 120 mil sócios pagantes. O dirigente também tem uma explicação para isso.


"Houve uma mudança de hábito na população de São Paulo. A maioria dos prédios hoje possui piscinas e academias de ginástica. Esse aspecto contribui para tirar as pessoas de clubes poliesportivos como o Corinthians."


A crise financeira do clube foi um dos motivos para o fim da parceria comercial com a Hicks Muse. A cúpula do grupo norte-americano não gostou de saber que parte do dinheiro que liberava para o Departamento de Futebol era desviado para cobrir rombos da parte social.


E os corintianos não têm do que se queixar dos parceiros comerciais que o clube teve até hoje. Depois do acordo com a extinta Excel - de janeiro de 1997 a dezembro de 1998 - e a Hicks Muse - de junho de 1999 a setembro de 2002 -, o time disparou a ganhar títulos. O dinheiro investido na contratação de reforços mudou o perfil do time. Foram oito as conquistas de 1997 a 2002. Campeão paulista (97); brasileiro (98); paulista e brasileiro (99); mundial da Fifa (2000); paulista (2001); e Copa do Brasil e Rio-São Paulo (2002).


No poder desde 1993, Alberto Dualib não se cansa de dizer que antes de assumir o trono no Parque São Jorge o Corinthians era considerado um "time caseiro".


"Isso faz parte do passado. O Corinthians é o clube paulista que mais títulos do Campeonato Brasileiro conquistou na última década", lembra Citadini, referindo-se às conquistas de 90 - na administração do ex-presidente Vicente Matheus -, 98 e 99.


Mas o corintiano ainda carrega a frustração de ainda não ter conquistado a Libertadores. Com a irreverência costumeira, Citadini procura minimizar a importância da competição:


"O dia em que o Corinthians conquistar uma Libertadores ninguém mais vai falar sobre isso. E pode ter certeza de que esse dia está chegando."



WLADIMIR MIRANDA Jornal da Tarde







(JORNAL DA TARDE, ESPORTES, CADERNO B, 16/3/2003, p. 8)





ENTREVISTA: ANTONIO ROQUE CITADINI


"NUNCA ESQUECEREMOS O CASO RICARDINHO"


QUAL É A IMPORTÂNCIA DE UM DIRIGENTE NA CONDUTA E CONQUISTAS DE UM CLUBE?
-O primeiro trabalho do dirigente é não atrapalhar o clube. Ele precisa ter um diálogo com a comissão técnica e com os atletas, ser zeloso para que o planejamento seja cumprido. Deve cobrar mesmo.


O SENHOR DEFENDE PRÊMIOS EXTRAS PARA OS ATLETAS EM CASO DE TÍTULOS CONSEGUIDOS?
-Acho que o clube deve sempre estabelecer uma forma de premiação extra em caso de conquistas. Temos de pensar em objetivos.


O QUE O SENHOR ACHA DOS DIRIGENTES FALASTRÕES?
-Falastrão para mim é um sujeito que fala muito. Eu só falo o que tem sentido. Eu não falo demais, como alguns pensam. Também discordo dos que me chamam de folclórico. Os meus discursos não têm palavras sobrando. Tudo o que falo tem um motivo. Demorou para o pessoal entender isso.


PROVOCAÇÕES CABEM NO FUTEBOL BRASILEIRO?
-Eu não vejo mal quando você trata um rival de forma descontraída, sem formalidades. Não gosto de usar a palavra provocação, mas acho que este comportamento mais leve cabe no futebol. Sou contra a linguagem conservadora. Acho que ela não cabe no esporte. Não gosto de ofender ninguém, mas uso palavras mais descontraídas.


COMO O SENHOR QUALIFICA A RIVALIDADE COM O SÃO PAULO?
-É uma rivalidade natural. No passado, nosso rival era o Palmeiras porque estávamos sempre disputando títulos com ele. O São Paulo ficava ausente. Agora, o adversário passou a ser o São Paulo. Felizmente, o Corinthians está sempre decidindo torneios. Acho ainda que a rivalidade dos times paulistas contra o Corinthians aumentou por conta do nosso crescimento. Ganhamos tudo nos últimos anos e isso vem atormentando os rivais. Isso sempre dá um desconforto nos outros clubes.


OS DIRIGENTES DE FUTEBOL AJUDAM A APIMENTAR ESTA RIVALIDADE ENTRE CLUBES?
-Quem faz a rivalidade é o jogador, mas os dirigentes podem apimentá-la.


O DIRETOR DO SÃO PAULO, CARLOS AUGUSTO DE BARROS E SILVA, DISSE RECENTEMENTE QUE QUEM PASSASSE DE CORINTHIANS E PALMEIRAS SERIA VICE-CAMPEÃO. O QUE O SENHOR ACHOU DISSO?
-Ele disse isso, mas já se arrependeu. A declaração foi contra o próprio São Paulo. Foi um gol contra que ele marcou.


AS ARESTAS COM O SÃO PAULO DO CASO RICARDINHO JÁ FORAM APARADAS?
-Não e nunca serão. Vamos ficar por muitos anos lembrando o caso, sobretudo pelo comportamento incorreto dos dirigentes do Tricolor. Eu tenho certeza de que eles querem que a gente enterre este episódio. Mas isso não se apaga assim, de uma hora para outra. Os dirigentes do São Paulo tiveram uma atitude incorreta ao procurar um jogador do Corinthians que tinha dois anos de contrato. Durante dois meses, negociaram com o empresário do atleta e só depois vieram nos procurar.



(DIÁRIO DE S. PAULO, ESPORTES, 16/3/2003, p. C-5)