O HOMEM FORTE DO CORINTHIANS




"Às vezes eu faço as coisas por birra mesmo"


O intelectual Antônio Roque Citadini confessa que se diverte com a polêmica


WAGNER VILARON



Dois anos e cinco meses. Esse foi o tempo exato que a história precisou para transformar um simpático, falante e até então desconhecido (pelo menos do grande público) advogado de 52 anos em uma das personalidades mais populares - e polêmicas - do futebol brasileiro. É o período no qual Antônio Roque Citadini se tornou vice-presidente de futebol do Corinthians, o clube mais popular de São Paulo e dono da segunda maior torcida do País.


Segunda? Opa, lá vem bronca do Citadini... "Olha, não é de hoje que o Corinthians tem a maior torcida. Basta ver as pesquisas. É um processo irreversível", garante.


O jeitão debochado, as frases de efeito, a inteligência nas sacadas e a contundência nas respostas, somados a um sotaque caipira próprio daqueles que vivem lá pelos lados de Capão Bonito, não servem apenas para construir sua fama. Funcionam também para manter viva uma tradição dos dirigentes corintianos. Quem entre aqueles que acompanham futebol, por exemplo, nunca se divertiu com as tiradas do eterno e folclórico ex-presidente Vicente Matheus?




Citadini diz que adotou um sistema profissional no clube e por isso deixou muita gente insatisfeita



Mas se um dia encontrar Citadini pessoalmente, lembre-se: não faça comparações dele com o já falecido cartola. E o atual vice-presidente corintiano tem razões que extrapolam questões políticas internas para ficar incomodado. As únicas similaridades entre os dois são o fato de comandarem o mesmo clube e verem cada palavra que falam transformar-se em manchetes dos jornais no dia seguinte.


Se Matheus estudou até o segundo ano primário (não pôde continuar porque trabalhava com o pai na pedreira da família), não se acertava com a língua portuguesa e viajava freqüentemente para Las Vegas a fim de visitar os cassinos, Citadini tem perfil diferente. É intelectual, autor de diversos livros sobre Direito e até uma biografia sobre o jogador Neco. Expressa-se bem, é articulado, membro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE) e, nas horas vagas, adora viajar o mundo para assistir a óperas, seu gênero musical favorito.


Porém, não é nada disso que faz dele personalidade cada vez mais ascendente, reconhecido até por quem não entende nada de futebol. É o próprio que se encarrega de revelar o verdadeiro motivo de tamanha exposição. "Eu me divirto com tudo isso, com a polêmica", confessa. Louco? Ele garante que não. "Tem gente que ainda não entendeu que não sou louco, que não tomo atitudes impensadas." Vaidoso? "Minha vaidade é normal, como a de qualquer pessoa", afirma. Contudo, qual dessas "qualquer pessoa" assiste a determinado programa somente para apreciar a nova gravata que estava usando?


PODER - Basta conviver um pouco nos bastidores do Corinthians para perceber que "vice-presidente de futebol" é apenas a nomenclatura formal do cargo que Roque Citadini ocupa no clube. Na prática, é o autêntico "homem forte". Participa de todas as decisões relacionadas ao Departamento de Futebol. Desde a negociação de contrato dos atletas das categorias inferiores até a formulação de parcerias com empresas multinacionais. "Confesso que no começo não tinha a dimensão exata do que era ser dirigente do Corinthians."


Alberto Dualib é a pessoa que conta com sua mais alta admiração no futebol.


Foi pelas mãos do presidente que o membro do TCE chegou a um cargo de destaque no Corinthians. Sócio do clube desde 1971, aproximou-se do "chefe" no início dos anos 90, quando participava de um grupo de 15 pessoas que prestavam suporte e orientação à presidência. Com seu estilo peculiar, Citadini chamava a atenção nos encontros. "Então, no segundo semestre de 2000, o clube passava por um momento delicado (havia perdido para o Palmeiras na Taça Libertadores da América), com muita pressão e o ambiente estava bastante conturbado com aquela seqüência de dez derrotas consecutivas", lembra Citadini. "Então, quando estávamos na oitava derrota, o dr. Alberto me chamou e disse que como eu gostava de dar opinião, poderia dirigir o futebol. Nunca planejei isso, mas aceitei."


Era o início de mais um legado corintiano que, diante das evidências, deve perdurar muitos anos - para desespero daqueles que não conseguem engolir Citadini e felicidade dos que o admiram. Graças à modéstia (adjetivo que provoca certa estranheza ao ser associado a Citadini), evita falar abertamente que será o próximo a ocupar o cargo máximo do clube. "Nunca planejei e me programei para chegar a nenhum cargo aqui dentro. E nesse caso não vai ser diferente", despista. No entanto, é Dualib quem se encarrega de mostrar como vai ser o futuro. "O meu sucessor, que está aqui do lado (e aponta para Citadini)...", é a frase que utiliza como introdução em reuniões da qual ambos participam.


INIMIGOS - O ônus imediato que se paga por falar o que se pensa, da forma que acha correta, é cultivar antipatias. E Citadini sabe disso. Bate boca de forma indiscriminada, sem escolher alvo. Ora com torcedores, ora com jornalistas, às vezes com dirigentes de outros clubes e outras com pessoas do próprio Corinthians.


Não é à toa que o único incidente que o tirou do sério a ponto de fazê-lo entregar o cargo foi protagonizado apenas por corintianos. No primeiro semestre de 2002, quando o clube ainda mantinha parceria com o fundo americano de investimento Hicks, Muse, Tate and Furst (HMTF), houve verdadeira batalha política nos bastidores. Enquanto Citadini defendia a separação do futebol, diretores e conselheiros ligados a outras modalidades lutavam para manter tudo como estava. "Não foi um golpe para fazer as pessoas pedirem para que eu ficasse. Eu realmente estava saindo", lembra.


E qual seria a razão de tanta discórdia? "Sabe o que é, o futebol tem uma cultura antiga, aquela de boleiro na qual o dirigente acha lindo dizer que colocou dinheiro do bolso para contratar um jogador ou do técnico que acha a malandragem a melhor forma de vencer. Coisa de cabeça pequena", discursa. "E nós mudamos isso. Implantamos um projeto que espero, perdure. Aqui o sistema é profissional e isso acaba deixando muita gente insatisfeita."


Há um detalhe interessante nessa parte da conversa. Se a expectativa é de que o projeto seja mantido, não seria prudente e interessante que Citadini atendesse ao desejo de Dualib e o sucedesse no comando? "Pois é...", diz o vice, com um sorriso denunciante.


Para os que querem vê-lo longe do Parque São Jorge, o dirigente manda um recado claro. "Eu tenho 52 anos e sou daquela geração de corintianos que se criou apanhando bastante naquela fila de 23 anos. Fui ver o clube ser campeão quando tinha 27 anos.


Agüento muita pancada. Sou casca dura", diverte-se. "Aqui no clube até brincamos que além da atual geração, que não se cansa de ver o time campeão, existem outras duas: a da fila, que é a minha, e a mais antiga, que foi buscar o Domingos da Guia na Estação do Norte, no início dos anos 30."


MÍDIA - Com a imprensa o vice mantém relação de amor e ódio. Ao mesmo tempo que critica e é criticado, Citadini aprendeu, depois de alguns tropeços, a usufruir desse contato. Boa parte desse aprendizado ocorreu em situações tensas. Duas delas, eleitas pelo dirigente como os piores momentos que teve de administrar no clube, foram as polêmicas negociações com Marcelinho e Ricardinho.


Saiu desgastado por falar mais com a emoção do que com a razão. Declarou, em ambos os casos, que os atletas não jogariam em Santos e São Paulo, respectivamente. O desfecho dos episódios provou que estava errado. "É, naquela situação devia ter dito que o clube não negociaria com esse ou aquele clube, como de fato ocorreu", admite. Contudo, por mais que pense, analise e pondere, esse "caipira" não consegue se livrar de uma característica marcante de sua personalidade. "Às vezes faço as coisas por birra mesmo."


Diplomacia também não é uma de suas virtudes. Sempre que pode, aproveita para tirar um "sarrinho" dos rivais. "Eu tenho um problema sério. Não resisto a uma boa tirada", confessa, divertido. E tome cutucada: "Tanto é que essa repercussão toda que me dão não é por mim e sim pela grandiosidade do Corinthians. Se fosse dirigente de outro clube não teria espaço."


E não se cansa de apontar defeitos na forma como alguns jornalistas trabalham. Nesses dois anos e cinco meses constatou que o principal problema da imprensa é o que, no meio jornalístico, se chama de "plantar informações", ou seja, inventar uma notícia apenas para provocar polêmica e repercussão. "Um exemplo é o que aconteceu nesse último período de férias.


Alguém lança um boato absolutamente sem fundamento sobre uma contratação qualquer e os outros ligam para que a gente comente. É o fim da picada", comenta. "É o caso do Roger, do Fluminense. Nós nunca sequer tocamos no nome desse jogador, mas a notícia ficou correndo mais de uma semana. É preciso ter responsabilidade. Assim mesmo, nunca pensei em processar nenhum jornalista."


Mesmo sendo dono de um semblante que parece se abalar com dificuldade, o dirigente não esconde seu lado sensível. "Já me magoei algumas vezes. Não ligo quando as críticas e comentários são feitos em relação ao trabalho que realizamos ou à forma como nos comportamos diante dessa ou daquela situação.


Mas quando o ataque é pessoal, fica mais complicado", lamenta.


Dificuldades à parte, Citadini não se rende a um costume que se tornou marca registrada da maioria dos cartolas: esconder-se. Seu número de telefone circula livremente.


E ele atende. "Já recebi ligação de gente me perguntando até o horário do treino. Tá vendo, não sou ditador coisa nenhuma!" conta. No fundo, sabe que dirigente de futebol que não gosta de estar em evidência não deve se envolver com clubes tradicionais.



(O ESTADO DE S. PAULO, ESPORTES, 23/2/2003, p. E-6)