NOTÍCIAS – 2/2/2003



BOLA NA TRAVE




Alvo de uma disputa que está só começando e envolve Globo, Record e SBT, o futebol é apontado como produto mais forte da TV na arte de emocionar o público. Além de garantir boa audiência e faturamento, o evento rende prestígio à programação


CAROL KNOPLOCH e KEILA JIMENEZ


Você pode até não saber em qual canal vai passar o jogo a que quer assistir amanhã, mas, para quem gosta de futebol, a cobertura na TV nunca esteve tão emocionante. O vaivém de liminares trocadas por SBT e Globo na Justiça, pelos direitos de transmissão do Campeonato Paulista, nos últimos dias, é só o começo de uma longa batalha, que já envolve também a Record e também atingirá o Brasileirão, evento de maior importância do futebol no País.


A melhor indicação de que nada disso afeta a audiência dos jogos é dada pelo publicitário Luís Lara, da agência Lew, Lara: "O telespectador é fiel ao time, não ao canal", disse. Os anunciantes sabem disso. "Um sinal é a transmissão do Paulista, que, mesmo estando na Justiça, já está com todas as cotas de patrocínio vendidas, tanto na Globo, como no SBT."


Segundo ele, o futebol alcança nível de envolvimento com o telespectador que nenhum outro programa consegue. "Nem novela", afirma. "Temos pesquisas que provam que,quanto maior o envolvimento emocional da audiência com o programa, mais chances de a mensagem do anunciante ser assimilada. É por isso que todo mundo quer anunciar em futebol." Tem mais, emenda Lara: atinge todas as classes sociais e etárias, unindo o público em um sentimento de emoção único na TV.


O diagnóstico empata com a defesa que o vice-presidente do Corinthians, Antônio Roque Citadini, faz de seu produto. "Reality show é igual a concurso de miss na TV Tupi: um dia acaba", observa. "Esses caras que bolam as grades da TV se acham os gênios e não são. O futebol deveria ter prioridade, assim como na Europa, e não essas baboseiras, como reality show e novela."


Apesar dessa confusão televisiva, Citadini mostra-se feliz pela ferrenha disputa pelo Paulistão. Gosta da possibilidade de seu produto ganhar espaço em outras emissoras. "A Globo pode até perder o galã da novela das 8, mas não pode perder o futebol. Essas novelas começam e acabam do mesmo jeito.


São chatas", emenda. "É por isso que a Globo agora está correndo atrás do prejuízo. Sabe que se perder o futebol perde o prestígio. E o Silvio Santos, que não é bobo nem nada, viu que não basta ter o Show do Milhão e o Programa do Gugu para ganhar da líder."


Independentemente de quem ficar com a bola, Globo ou SBT, quem tem a ganhar é o telespectador, acredita Luís Lara. "Futebol é produto não perecível e tem público fiel. Uma novela, quando não vai bem, sua audiência cai muito. A transmissão da partida de um time que não está bem até sofre queda de audiência, mas sempre tem o sofredor que assiste", comenta. "O cara troca de mulher, mas não troca de time", conclui o publicitário.


A Federação Paulista de Futebol (FPF), que fechou contrato com o SBT e agora enfrenta a Globo, faz sua defesa do negócio. Vice-presidente da FPF, Marco Polo del Nero acredita que o torcedor precisa se acostumar a ver futebol em outra emissora. "Para o telespectador é mais negócio que o Paulistão seja mostrado pelo SBT. A Fiat vai sortear 24 carros durante o campeonato", argumenta o dirigente, que diz não ter preferência pessoal por uma ou outra emissora. "Assisto futebol onde estiver passando." Segundo ele, nos últimos dias, a entidade tem recebido vários e-mails elogiando a troca de canal.
Isso porque a maior birra do torcedor é ter de ir ao estádio às 21h40, após a novela principal da Globo. "Jogo às 21h40 no Morumbi, o nosso estádio, é um convite para o público não ir", comenta Marcelo Portugal Gouvêa, presidente do São Paulo.


Para Gouvêa, essa confusão prejudica o futebol. "Ainda que o telespectador consiga descobrir que canal está mostrando o futebol com um simples toque no controle remoto, é um desrespeito. Deveria saber em dezembro quando o torneio iria começar. No fim, quem perde é o futebol."


SBT, O DESPERTAR - Toda essa novela começa com o redespertar do SBT para o potencial dos eventos esportivos, que desde a Copa de 98 passavam longe da tela de Silvio Santos. A emissora contratou cerca de 100 profissionais e refez sua equipe de jornalismo esportivo, entrou na briga pelo Paulista, comprou os campeonatos Sub-20 e Sub-23, quer reativar o Rio/São Paulo e fez proposta tentadora para o Clube dos 13 para criação de novo modelo de Campeonato Brasileiro - ofereceu R$ 200 milhões, diante dos R$ 140 da concorrente.


"Percebemos que a audiência desses eventos sempre é boa e os anunciantes, mesmo em tempos de crise, querem estar linkados ao futebol", explica o superintendente Comercial do SBT, Guilherme Stoliar.


A Record, que desde o ano passado vem investindo nos boleiros, tem dividido a pendenga do Paulistão com as sobras da Globo - pelo acordo com a rede carioca, a TV do bispo Macedo pode exibir os jogos que a Globo não consegue acomodar em sua grade - e tenta negociar, por conta própria, os direitos do Brasileirão. Para o superintendente Comercial da Record, Walter Zagari, futebol é um sucesso de vendas pela quantidade de formatos comerciais que oferece. "Além da audiência e do faturamento, há o prestígio que o futebol traz. Ele é fundamental à grade da Record por oferecer subsídios para outros programas, como o Debate Bola, Record nos Esportes e Terceiro Tempo."


Para Stoliar, do SBT, o futebol também vai agregar valor à programação do SBT. Além das partidas, a emissora terá noticiários esportivos e promoções ligadas aos campeonatos. A rede chegou a criar uma Loto-futebol, promoção que terá cartelas com números, que serão sorteadas durante a transmissão do Paulista, o que trará mais receitas.


O LEILÃO - De olho no Campeonato Brasileiro - pelo qual a Globo possui os direitos de transmissão até 2005, mas que estão sendo renegociados - o SBT enviou uma excelente proposta ao Clube dos 13. A emissora propõe a criação de uma entidade, batizada de Futebol S.A., que seria dona dos direitos de transmissão do Brasileirão e os revenderia às TVs. O SBT e outras associadas teriam cotas dessa entidade, assim como o Clube dos 13.


"Todas as redes deveriam exibir futebol, assim o esporte se valoriza mais", fala Stoliar, do SBT. "Só no caso do Paulista é que queremos exclusividade, pois só assim o SBT terá bom aproveitamento do produto. A Globo se desinteressou pelo campeonato e agora o direito é nosso. Nós compramos e já pagamos por ele."


Como o Paulistão é curto - está previsto para acabar em 23 de março - é possível que sua transmissão se alterne entre Globo/Record e SBT até o final, com base em liminares da Justiça.


O advogado da FPF Carlos Miguel Aidar, no entanto, acredita que antes da decisão o imbróglio estará resolvido. Ele explica que no dia 6 de fevereiro o desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, Boris Kaufmann, deverá levar o processo de agravo regional para julgamento perante seus pares (outros dois desembargadores) da 5.ª Câmara Cível do Tribinal de Justiça de São Paulo. Seja qual for a decisão, o perdedor deverá recorrer ao Superior Tribunal de Justiça em Brasília, a última instância nesse caso.


"O que a Globo faz é cartel econômico. Blindam os espetáculos, ou seja, compram para ninguém mostrar e também não mostram. Queremos acabar com isso", declara Carlos Miguel. "A Federação só quer honrar o contrato que administra. O SBT assinou com os clubes e já pagou a primeira parcela de R$ 3 milhões. A Globo, que não pagou nada ainda, só igualou o contrato do SBT no valor a ser pago e no número de parcelas."


Para o publicitário Luís Lara, é injusta a acusação de que a Globo engaveta e manipula os horários dos jogos. "O Superbowl, maior evento esportivo da TV americana, também é assim. Quem paga pelos direitos de transmissão tem todo o direito de opinar sobre como e quando será exibido."


O superintendente Comercial da Globo, Octávio Florisbal, endossa: "O futebol tem posicionamento estratégico na nossa programação, com horários às quartas-feiras, sábados e domingos. Acreditamos se tratar de uma presença semanal consistente."


A CONTA - Do ponto de vista dos anunciantes, a disputa não é tão simples. Tanto os patrocinadores do Paulista no SBT como os da Globo estão contando com a exibição do campeonato.


"O futebol 2003 da Globo (pacote que inclui todos os campeonatos, inclusive o Paulista) teve todas as suas cotas vendidas, por R$ 58 milhões cada", diz Florisbal. "Agora não, mas, mais adiante, a Globo pode ter problemas com os anunciantes se não retomar o Campeonato Paulista, afinal é um evento importante e eles podem querer renegociar o valor dessas cotas", explica Lara.


Em situação complicada também está a Record, que depende da Globo exibir o Paulista e o Brasileirão para cativar os anunciantes. "Não estamos na briga pelo Paulista, mas queremos o Brasileirão. Se não tivéssemos o futebol em 2002, creio que não teríamos crescido cerca de 25% do nosso faturamento em relação ao ano anterior", fala Zagari, da Record. "Já disponibilizamos o pacote Futebol 2003 ao mercado, englobando o Brasileiro e a Copa do Brasil.


Foram colocadas à venda seis cotas de patrocínio, no valor de R$ 22 milhões cada cota nacional, e uma local, por R$ 5 milhões."


Marco Polo del Nero, vice-presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), explica que a Globo tinha o direito de preferência para transmitir o Campeonato Paulista deste ano (já que em 2002 comprou o torneio). A emissora não acertou com a FPF, que então ofereceu ao SBT - talvez por achar que nenhum concorrente compraria o torneio por R$ 12 milhões. "Quando fechamos com o SBT, a Globo quis discutir o assunto. E, como tinha a prioridade, mostramos o contrato firmado com o SBT para que igualasse a proposta. Isso significa que teria de igualar não só os R$ 12 milhões, mas também o número de partidas a serem transmitidas (22) e outros itens. Não quis aceitar, por exemplo, a cláusula que prevê multa de R$ 250 mil por jogo em caso de não transmissão."


"Para o São Paulo o que interessa é o melhor contrato, o que paga melhor. Há anos trabalhamos com a Globo, que é competente e profissional. O que não quer dizer que outra emissora não possa ser também. É um outro caminho que se abre. A competição é saudável, até porque, a cada ano, as cotas para os clubes têm diminuído", comenta Gouvêa.


Globo e Bandeirantes travaram briga semelhante na Copa América de 1995, disputada no Uruguai. A Bandeirantes mostrou todos os jogos com base em liminares



NOVELA JUDICIAL



2002
9 DE DEZEMBRO: SBT assina contrato para compra do Campeonato Paulista
12 DE DEZEMBRO: Globo recorre à Justiça alegando que a Federação Paulista de Futebol e o SBT fecharam um contrato ilegal, pois ela tinha prioridade na renovação dos direitos de transmissão do “Paulistão”.

2003
16 DE JANEIRO: Justiça concede liminar dando o direito de transmissão do campeonato para a Globo
22 DE JANEIRO: FPF consegue, por meio de um recurso, derrubar liminar da Globo e os direitos do “Paulistão” voltam para o SBT
23 DE JANEIRO: Justiça acata pedido de reconsideração do caso, feito pela Globo, e o campeonato volta para as mãos dos Marinhos.
24 DE JANEIRO: O desembargador Moahmed Amaro dá o direito de exclusividade de transmissão do campeonato à rede de Silvio Santos.
28 DE JANEIRO: Justiça cassa liminar do SBT e o campeonato volta para as mãos da Globo.
OBS: Liminares concedidas até 30/janeiro/2003.




(O ESTADO DE S. PAULO, TELEJORNAL, 2/2/2003, p. T-6,T-7)





PERSONALIDADE



ENTREVISTA DE HÉLIO VARGAS, Diretor de programação da Rede Record de Televisão, concedida ao Agora

QUAL O SEU TIME?
Corinthians.

QUAL O JOGO QUE MAIS O MARCOU?
Dois. O primeiro martante é aquele da vitória de virada do Corinthians sobre o Palmeiras, no dia 25 de abril de 1971. O Timão venceu por 4 a 3. O segundo é um Corinthians x Santos, antes da quebra do tabu de 68. A partida não terminou por causa da chuva. O jogo estava 1 a 1 gols de Rivelino e Pelé).

QUAL A SUA SELEÇÃO DE TODOS OS TEMPOS?
Leão; Carlos Alberto Torres, Luís Pereira, Luís Carlos Galter e Roberto Carlos; Beckenbauer, Clodoaldo e Rivelino; Garrincha, Pelé e Edu.

QUAL A CAMISA MAIS BONITA?
A anil da Inglaterra, na Copa de 2002.

QUAL O MELHOR E O PIOR ESPORTE?
O melhor, disparado, é o futebol. O criket é o pior.

EM QUE RÁDIO VOCÊ OUVE FUTEBOL?
Jovem Pan e Bandeirantes. Sempre gostei muito do esporte da Pan, principalmente quando contava com o Joseval Peixoto. Já ouvia bastante também a Bandeirantes quando o Fiori Giglioti era o narrador.

A REVISTA QUE VOCÊ LÊ.
"Veja". Mas prefiro ler jornais.

QUAL O MELHOR E O PIOR PRESIDENTE DA HISTÓRIA DO BRASIL?
Dos que eu vi, o melhor foi o FHC. Os piores são todos da Ditadura Militar e o Fernando Collor de Mello.

A PERSONALIDADE MARCANTE EM SUA VIDA.
O meu pai, Anésio Vargas, e o Steven Spielberg.

NARRADOR ESPORTIVO DE TV E DE RÁDIO.
Luciano do Valle, de TV, e Joseval Peixoto e Rogério Assis, de rádio.

COMENTARISTA ESPORTIVO E DE RÁDIO.
De TV, Juares Soares e Casagrande. De rádio, Orlando Duarte e Juca Kfouri.

REPÓRTER ESPORTIVO DE TV E DE RÁDIO.
De TV, Fernando Fernandes e o saudoso Eli Coimbra. De rádio, Wanderley Nogueira.

APRESENTADOR ESPORTIVO DE TV E DE RÁDIO.
Milton Neves e Flávio Prado.

JORNALISTA DE TV.
Marcos Uchoa e Lucas Mendes.

PROGRAMA ESPORTIVO DE TV.
"Comendo a Bola", da Tupi, foi o melhor.

QUEM MELHOR ESCREVE SOBRE ESPORTE NO BRASIL?
Juca Kfouri.


O MELHOR E O PIOR CARTOLA.
O melhor é Antônio Roque Citadini e o pior é Mustafá Contursi


O MELHOR E O PIOR TÉCNICO.
Telê Santana, o melhor. O pior de todos os tempos foi o Sebastião Lazaroni, técnico da seleção na Copa de 90.



(AGORA S. PAULO, VENCER, 2/2/2003, p. B-9)