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- 31/12/2002
UM
ANO PARA NÃO ESQUECER
CRÍTICO,
MAS OTIMISTA
Casagrande
aponta erros, ao mesmo tempo em que vê evolução
no futebol brasileiro.
TOTE NUNES
Walter
Casagrande Júnior está entusiasmado com o futebol
brasileiro. A desorganização crônica, o
amadorismo dos cartolas, a crise financeira dos clubes, nada tira o
otimismo do ex-centroavante e colunista do Estado e comentarista da
Tv Globo. Ele considera que o esporte passa por revigorante
processo de reestruturação. Por força do
ofício, viu pelo menos três partidas do Brasileiro por
semana. E gostou muito. "No ano passado, a gente falava apenas
do Kaká e neste falamos também de Robinho, Diego,
Paulinho, Dagoberto...", lembra. Fora dos gramados destaca que
se discute com seriedade calendário mais equilibrado e não
esquece de citar o avanço que foi o enfraquecimento da
bancada da bola (parlamentares ligados a clubes ou a dirigentes),
que caiu nas urnas.
Dono
de carreira pontuada pela irreverência, construída em
alguns dos times mais importantes do Brasil (Corinthians, São
Paulo e Flamengo), do Exterior (Porto e Torino) e na seleção
(pela qual disputou a Copa de 86), o quase quarentão
Casagrande se considera analista acima de qualquer suspeita. Até
porque a vigilância em casa é firme: Symon, de 9 anos,
é santista; Leonardo, de 13, é são-paulino; e
Vítor Hugo, de 16, palmeirense. Nesta entrevista ao Estado,
mostra esperança do ressurgimento do futebol brasileiro
Estado
- Como você avalia o nível técnico do
Brasileiro?
Walter Casagrande Júnior - Acho que foi
bom e acredito que a Copa teve influência direta nisso. O
título do Brasil deu motivação maior aos
jogadores. Mesmo que 90% dos que disputaram o Mundial estejam fora
do País, acho que os que atuam aqui se motivaram muito mais.
Estado
- Você acha que foi melhor que o do ano passado?
CASAGRANDE
- Sim, não dá para comparar. Tome como base a
revelação de jogadores. No ano passado, a gente
falava do Kaká. Neste ano, falamos também Diego,
Robinho, Dagoberto (Atlético-PR), Paulinho (Atlético-MG),
Luís Fabiano, Gil, Rodrigo Fabri, que voltou a fazer gols.
Estado
- Você acha que isso se deve basicamente ao entusiasmo pela
Copa?
CASAGRANDE - Acho que sim. Se o Brasil não
tivesse ganhado a Copa, a gente teria clima de pessimismo. Os
jogadores estariam com o moral baixo. Os patrocinadores iriam
diminuir mais. Os clubes ficariam desnorteados; os jogos teriam
público muito menor.
Estado
- Dos jogos que você viu, qual foi o melhor?
CASAGRANDE -
Vi bons jogos, mas acho aqueles 3 a 2 do São Paulo contra o
Santos, na fase de classificação. Achei que aquele 4
a 2 do Santos contra o Corinthians também foi muito bom.
Estado
- O Santos, campeão, foi a novidade do campeonato?
CASAGRANDE - O Santos foi a novidade e trouxe para o
futebol aquela que talvez seja a maior revelação dos
últimos anos, que é o Robinho. Ele é
fantástico, impressionante, ousado, faz jogadas diferentes.
Aliás, não repete uma jogada. Ele é a ginga
que faltava.
Estado
- Você não acha que corre risco de supervalorizar o
atleta? Não há exagero?
CASAGRANDE - Não.
Acho que se exagerou em outros jogadores, mas com relação
a ele não. Como ainda é garoto, o Santos precisa
fazer trabalho psicológico muito bem feito. Não vou
dizer que é um Pelé, mas está acima da média,
acima de Ronaldo, por exemplo, que é ótimo jogador.
Aliás, acho que houve exagero no caso do Ronaldo, mas no do
Robinho não. Poderemos ver surgir por aí uma coisa
brilhante.
Estado
- Do ponto de vista tático, o Santos trouxe também
alguma novidade?
CASAGRANDE - A novidade foi o Leão.
Ele mudou. Historicamente, sempre foi treinador retranqueiro. Foi
assim na Portuguesa, no Atlético Mineiro, na primeira
passagem pelo Santos. Desta vez, mudou. Chegou na Vila e viu um
bando de moleques bons de bola e montou o time de acordo com as
características deles.
Estado
- Você acha que isso veio da sensibilidade do Leão?
CASAGRANDE - Eis outra revelação do ano.
Descobrimos que o Leão é sensível. Joguei e
trabalhei com ele. Sempre foi uma pessoa definida, que não
permitia espaço para a criação. Desta vez,
surpreendeu ao dar espaço para os jogadores. Além de
Diego e Robinho, deu novas funções ao Alberto, ao
Renato, liberou os laterais.
Estado
- A utilização de jogadores das categorias de base
não se deve basicamente à crise financeira pela qual
o clube passa? Ele não tinha outra opção.
CASAGRANDE - Poderia colocar outros jogadores. Em vez do
Robinho, poderia optar por volante marcador. O Santos escolheu a
opção mais técnica. Isso se deve à
sensibilidade do Leão e do presidente Marcelo Teixeira.
Estado
- Vasco e Flamengo também apostaram nos garotos, por força
das circunstâncias, O que deu errado lá?
CASAGRANDE
- Foi uma questão de qualidade. O Flamengo não
revela ninguém há muito tempo. Salvo engano, a última
geração de qualidade foi aquela de Marcelinho
Carioca, Djalminha, Leonardo e, um pouco depois, o Athirson. O Fla
abandonou uma tradição, que foi a de revelar
jogadores. No tempo do Zico, o time foi campeão mundial e
Brasileiro só com três jogadores de fora.
Estado
- E o Vasco?
CASAGRANDE - O Vasco é caso à
parte. Durou enquanto o Eurico Miranda tinha algum poder. Ele até
fazia bons times e tinha influência na CBF. Veio a crise, o
clube não privilegiou as categorias de base e parou de
revelar jogadores. O poder de Eurico acabou. O Vasco tem de mudar
de cara.
Estado
- O esquema com três atacantes adotado por Carlos Alberto
Parreira no Corinthians, que se consolidou no Brasileiro, não
foi também uma novidade?
CASAGRANDE - Houve uma
troca. O time do Parreira teve influência na coragem do
Felipão na Copa. O Corinthians foi campeão do Rio-São
Paulo e da Copa do Brasil jogando com três atacantes, coisa
que não acontecia havia muito tempo. A gente vivia uma era
de dois e, às vezes, só um atacante. O Felipão
viu isso e colocou Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Rivaldo.
Isso representou ousadia. Hoje vemos muitos times fazendo o mesmo.
Se não é desde o início do jogo, na metade do
segundo tempo tem time usando três atacantes. O Fluminense
usou muito Romário, Roni e Magno Alves. Aí entra a
Copa. O Brasil ganhou sendo ousado e isso fez os treinadores
retomarem essa visão. Quem dita a moda é a Copa e a A
tendência é atacar.
Estado
- Você acha que 2002 foi o fim da "Era Dunga"?
CASAGRANDE - Era Dunga, não. Acho que se resgatou a
era da ousadia no futebol. Acho que esse ano pode ser marco na
retomada do futebol ofensivo.
Estado
- O que aconteceu com grandes como Palmeiras e Botafogo, que
caíram, e Vasco, Flamengo, Inter, que estiveram ameaçados?
CASAGRANDE - O caso do Palmeiras é diferente dos
outros. Porque, se não era time para chegar ao título,
também não era pior do que Fluminense, Atlético
Mineiro. Era um time que poderia ter se classificado. Teve uma fase
ruim no começo e depois ficou muito difícil reagir.
Estado
- Você acha que ele teve responsabilidade na queda?
CASAGRANDE - Teve, pois chegou no Palmeiras e fez aquilo
que quis. Mandou volantes embora, como Claudecir, Magrão,
Fernando e Galeano. Mudou o Arce para o meio e colocou o Leonardo
na lateral. Fez um jogo, surgiu a proposta do Cruzeiro e foi
embora. Vieram outros treinadores, encontraram o grupo formado pelo
Vanderlei e não conseguiram trabalhar. O único que
teve o grupo que imaginou foi o Luxemburgo. Talvez seja duro demais
falar que ele tenha sido o culpado, mas teve responsabilidade. Por
ética e moral, ele deveria ter ficado.
Estado
- Você não acha que a culpa maior é da
diretoria, que autorizou as dispensas?
CASAGRANDE - Os
outros treinadores tiveram de fazer milagre para montar um time.
Eles só tinham um volante, pois o Luxemburgo mandou quatro
embora. Mandou caras que fizeram um ótimo campeonato - sendo
que três deles chegaram à segunda fase: o Fernando foi
bem no Juventude, Magrão e Claudecir jogaram muito no São
Caetano. O Galeano se deu mal porque caiu num time ruim, mesmo
assim foi o destaque no Botafogo. Se ele mandou todos embora era
porque tinha estratégia para o time. Aí, fez a
limpeza e saiu? Não tinha o direito. Tinha de ter ficado, no
mínimo, para colocar em prática o plano que ele
elaborou.
Estado
- E os times do Rio?
CASAGRANDE - Os times do Rio são
outro problema, há anos. Joguei seis meses no Flamengo, em
93, e não recebi. Só fui receber na Justiça.
Os clubes não se preocupam com ética. O Flamengo
devia para mim e para tantos outros em 93 e em 97 contratou Edmundo
e Romário por muito dinheirão. Se os dirigentes te
mandam embora e você vai cobrar, dizem "vai procurar a
Justiça".
Estado
- O futebol brasileiro não corre esse risco?
CASAGRANDE
- Acho que não, pois os dirigentes de São Paulo
são melhores. Ao menos têm ética. Veja ROQUE
CITADINI, do Corinthians. Não sou fã dele.
Fui um dos que mais criticaram quando apareceu no Corinthians,
porque achava que não entendia de futebol. Ainda acho que
não entende, mas não se pode falar que seja
desonesto. Nunca ouvi nada suspeito a respeito dele. No Santos a
mesma coisa. O time não tem dinheiro, mas não gasta o
que não tem. Paga pouco aos garotos, mas paga. No São
Paulo nem se fala. É um time equilibrado. O São
Caetano é um clube equilibrado. Faz três ou quatro
anos que não se fala em atraso de pagamento. Não são
maravilhosos, mas pelo menos são éticos.
Estado
- Em 2003, o campeonato será de oito meses, com pontos
corridos em turno e returno. Não há risco de muitas
partidas desinteressantes?
CASAGRANDE - O sistema de pontos
corridos é mais justo, mas há pressão no
Brasil para que se tenha final. Dizem que o torcedor está
acostumado com decisões. A gente poderia dividir os times em
duas chaves e se classificariam os dois melhores. Assim ninguém
relaxa, como aconteceu este ano.
Estado
- Você acha que o futebol brasileiro passa por transformação
moral positiva?
CASAGRANDE - Acho que o Brasil passa por
transformação muito positiva. Nada contra o Fernando
Henrique, que na minha opinião fez coisas muito importantes
para o País, mas a eleição do Lula representa
mudança. Ele representa um partido que sempre pregou
transparência na política, honestidade. Acho que ele
deve tentar fazer isso também no esporte. Confio mais na
política para evitar a virada de mesa.
Estado
- Se Flamengo e Vasco tivessem caído, a pressão pela
virada de mesa seria maior?
CASAGRANDE - Seria maior, mas
não vejo espaço para isso. Hoje é ridículo
pensar em virada de mesa. Não cabe mais. Os caras que
estavam acostumados a fazer isso perderam poder. O Eurico, por
exemplo, nem se reelegeu.
Estado
- O futebol brasileiro está deixando o fundo do poço?
CASAGRANDE - Moralmente, o futebol brasileiro esteve no
fundo do poço quando teve virada de mesa para colocar
Botafogo, Fluminense. Mudaram as regras, numa total falta de
credibilidade. Aquele final da Copa João Havelange, em que o
alambrado caiu e o Vasco foi campeão, foi o nosso fundo do
poço. Nesta virada de ano a gente já respira outros
ares. A credibilidade do futebol está sendo resgatada, os
clubes parecem mais organizados e o resultado pode ser visto nos
jogos.
(O
ESTADO DE S. PAULO, ESPORTES, 31/12/2002, P. H-13)
PARREIRA
INOVA E CORINTHIANS GANHA TÍTULOS
Dia
4 de janeiro, 15 horas, Carlos Alberto Parreira inicia seu trabalho
no Corinthians, já sob pressão. No primeiro no
comando da equipe, integrantes da torcida uniformizada Gaviões
da Fiel fazem protesto no Parque São Jorge e exigem a saída
do vice-presidente de Futebol, Antonio Roque Citadini. Além
disso, cobram reforços da diretoria.
Protestos
inúteis. O dirigente não entrega o cargo e, para
piorar a situação do recém-chegado Parreira,
anuncia que o clube está sem dinheiro e portanto não
terá reforços. De quebra, perde o atacante Luizão,
que pede o passe na Justiça.
Parreira
não se abala e garante que tinha um bom projeto a
desenvolver com o grupo, que vinha de fracasso no segundo semestre
de 2001. A síntese de seu esquema é a "colaboração
total" dos jogadores. Na prática, isso significa que
todos deveriam atacar e defender. Também enterra a imagem de
retranqueiro ao implantar esquema com três atacantes.
O
time supera as expectativas e é o melhor do primeiro
semestre, ao ganhar o Rio-São Paulo e a Copa do Brasil, ao
superar São Paulo e Brasiliense, respectivamente. No segundo
semestre. mantendo a base e chegou à decisão do
Brasileiro, para cair diante do Santos.
(O
ESTADO DE S. PAULO, ESPORTES, 31/12/2002, p. H-11)