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- 22/12/2002
LANCE!
- FALAMOS COM... ROQUE CITADINI
"Eu
não tenho nada de folclórico"
Sem
papas na língua, Antonio Roque Citadini vive entre o amor e o
ódio com os próprios torcedores do Timão.
Considerado folclórico por adversários, rótulo
que rejeita, o cartola fala com exclusividade ao LANCE! do bom ano de
2002
Lancepress!
MARCEL
RIZZO, São Paulo
Folclórico
e fanfarrão. Adjetivos que tiram um largo sorriso de Antonio
Roque Citadini. Polêmicas não faltaram para ele em 2002.
Viveu entre o amor e o ódio com os torcedores ("só
com a organizada", reitera), chegou a pedir demissão no
meio do ano, mas acabou convencido pelo presidente, Alberto Dualib, a
voltar. Logo depois, estourou o "caso Ricardinho". Em uma
negociação confusa, o meia trocou o Corinthians pelo
São Paulo.
Nesta
entrevista exclusiva, Roque Citadini faz um balanço da
temporada 2002, projeta o futuro, e comenta a "bucha" que
o sucessor de Dualib, que garante não ser ele, vai pegar.
LANCE!:
Qual o balanço da temporada 2002 para o Corinthians?
Roque
Citadini: Inegavelmente foi um ano bom para o clube. Foi bom por
termos ganho dois títulos nacionais (Copa do Brasil e Rio-SP),
por termos sido vice-campeões brasileiros, mas acho que o ano
foi bom, principalmente, pelas grandes dificuldades que o futebol
vive. Tivemos dois eventos difíceis: o final da parceria com a
Hicks e as mudanças para baixo dos contratos de televisão.
Por termos ajustado os gastos do futebol com a receita, o ano foi
positivo.
LANCE!:
O que deu errado na parceria com a Hicks Muse?
C: Os problemas
da Hicks não foram com o Corinthians. Eles tiveram dois
investimentos que foram muito negativos. Primeiro eles tiveram
prejuízo de quase US$1 bilhão com a (rede de televisão)
PSN. Depois, com a quebra da Argentina, os investimentos que eles
fizeram lá, na ordem de US$2 bilhões, também
foram perdidos.
LANCE!:
Um episódio, envolvendo você, no meio do ano, causou
surpresa: a sua quase saída por divergência com o
departamento social do clube, que estaria tirando dinheiro do futebol
para sanar o rombo de quase R$1 milhão. O que aconteceu de
verdade?
C: Houve uma certa irritação de minha
parte. O clube não é novo, tem muitos sócios que
freqüentam, usam e não pagam nada. No futebol, gastamos
apenas o que arrecadamos. No restante do clube isso não é
feito. Existe um grande esforço para tentar sanar esse
problema, mas acho que em breve o clube se equilibrará.
LANCE!:
O presidente Alberto Dualib deve ser reeleito em 2003. Mas em 2005
haverá novas eleições e o seu nome é um
dos mais comentados...
C: (cortando) Aí eu digo que é
bobagem. Eu sou vice-presidente de futebol e não preciso de
mais nada. Você me imagina lidando com a área de peteca,
com a área de malha (risos)? Tenho minhas dúvidas se
conseguiria. E te digo mais: será um ônus para quem
substituir seu Alberto. Com o que ele ganhou esses anos, quem assumir
aqui vai pegar uma "bucha".
LANCE!:
Mas qual seria o candidato ideal para substituí-lo?
C:
Existem duas gerações fortes no clube. Uma é a
geração do seu Alberto, do Vicente Matheus, que foi
buscar o (ex-zagueiro) Domingos da Guia na Estação do
Norte (1944). A outra geração é a que levou
paulada durante a fila de 23 anos sem título, que é a
minha. Deve ser a próxima a presidir.
LANCE!:
Mas sem Citadini como presidente do clube...
C: Estou bem como
vice de futebol. Já tomo bastante paulada aqui.
LANCE!:
Você já foi acusado pela própria torcida do clube
de não ser corintiano. De onde surgiu isso?
C: Essa
história acabou. Até porque descobriram que eu era
ainda mais fanático quando pequeno. Eu entendo da história
do clube como poucos.
LANCE!:
Qual o motivo da antipatia da Gaviões por você?
C:
Eu não sou o perfil de um vice de futebol que as organizadas
gostam. O perfil que elas gostam é de cartolas boleiros, que
falam: "descobri um menino, uma maravilha", ou então
"estou bolando uma jogada maravilhosa nos bastidores". O
Corinthians comigo é um clube diferente. Eu nunca quero saber
quem é o juiz, por exemplo. Parto do princípio que
nenhum juiz vai sacanear o Corinthians. Então para que vou
fazer conchavo? É uma coisa que as torcidas gostam, o juiz tal
foi visto no bar do fulano... Estou lá eu preocupado com o bar
do fulano?!
LANCE!:
Chegaram até a falar que você não entendia de
futebol...
C: É, depois desistiram. Eles gostam daquele
dirigente que não tem opinião sobre nada. Que começa
a frase sempre assim: "Com certeza", e depois fala alguma
bobagem. Comigo, não. Até aterrorizo fazendo citações.
LANCE!:
Em Extrema-MG, há dez dias, a Gaviões foi ao treino,
entrou no campo, cobrou raça dos jogadores e a culpa pelo
episódio recaiu sobre você ...
C: (cortando)
Aquele dia seria liberado de qualquer maneira para a torcida. E não
houve a história da tal cobrança da Gaviões. Os
torcedores falaram com um ou outro jogador...
LANCE!:
Aliás, é um dos principais elogios que o Parreira faz
ao Corinthians: a liberdade para trabalhar. O trabalho dele foi uma
surpresa para você?
C: Surpresa, não. Mas ele foi
um grande desafio. Primeiro um desafio para ele, né? Ele é
um técnico de renome, campeão do mundo, mas que não
tinha tido uma experiência boa no futebol paulista. Mas ele tem
o perfil do clube. Eu falo isso e acham que é fustigar os
outros (o São Paulo, clube no qual Parreira trabalhou em 96),
mas ele tem o perfil pela forma profissional, pelo planejamento que
tem. Tudo é profissionalizado no Corinthians. Então nós
temos a necessidade de um técnico que planeje: o Parreira.
LANCE!:
A ida do Ricardinho para o São Paulo ainda o irrita?
C:
A saída do Ricardinho foi bastante dolorosa, mas passou. No
dia seguinte que ele estava fora do clube, que não era mais
nosso jogador, acabou.
LANCE!:
Mas ainda há resquícios da briga Corinthians x São
Paulo.
C: Sabe por que eles ficaram na bronca comigo? É
que eles queriam passar que haviam contratado um jogador normal do
Corinthians. Mas eles estavam conversando clandestinamente com o
procurador do jogador. E essa conduta, revelada a público, tem
poucas formas de ser justificada. Nada vai apagar a realidade que
eles procuraram um jogador que tinha mais três anos de
contrato. Eles gostariam que tivéssemos dito "que somos
co-irmãos, todos aqui abraçados, o jogador não
quer ficar mais com o Corinthians, vai pra vocês". Dá
licença, esse jogador vocês procuraram três meses
atrás, fizeram oferta, sem falar conosco. A revelação
desse tipo de comportamento é a coisa mais dura de o
são-paulino admitir. Porque eles têm que admitir que
erraram.
LANCE!:
O que o torcedor corintiano pode esperar de 2003? A
Libertadores?
C: A Libertadores é "supervalorizada".
Mas isso não quer dizer que ela não seja importante,
como o Mundial lá do Japão também é
importante. Seguramente eu acho que o Corinthians, nesta década,
ganhará a Libertadores algumas vezes. Teremos um time forte em
2003. Garanto.
POLÊMICO
- Antonio Roque Citadini nega que queira ser presidente do
Corinthians um dia: "Já tomo muita paulada."
AS
PÉROLAS
"O
Corinthians é um oásis no futebol brasileiro."
-Quando
assumiu a vice-presidência de futebol, falando de sua
responsabilidade.
"Vamos reformular, mas odeio
o termo lista de dispensa. Lista é para
supermercado."
-Comentando
as mudanças que faria no time do Parque São Jorge no
final de 2000.
"Futebol não é
como fábrica de sapato, que saem todos certinhos da
montagem."
-Também
no final de 2000, e ainda comentando a dispensa de alguns
jogadores.
"Agora, com a Lei Pelé,
passe só vai ter no centro espírita."
-Falando
da mudança na legislação esportiva que acabou
com a Lei do Passe.
"Só não digo
que o Dinei é nosso xodó, porque aí vai pegar
mal, né?"
-Falando
sobre o ex-atacante corintiano, que estava deixando o clube.
"Eu
não tenho culpa se o Vampeta prefere pagode às óperas
italianas."
-Comparando
seu gosto musical ao de Vampeta, que estava voltando ao time, no
início deste ano.
SEGREDO DO
SUCESSO
Você não ganha uma guerra só porque
tem um soldado valente. Tem que ter boa infra-estrutura
também.
BRIGA COM O SOCIAL
Teve época
em que o social dava dinheiro para o futebol. Não dá
pra mandar fechar.
PARREIRA SURPRESO
A imagem que
ele (Parreira) tinha era outra. Mas o Corinthians é
profissional.
PARREIRA
Ele é um técnico
de renome, campeão do mundo, que não tinha tido uma
experiência boa no futebol paulista (no São Paulo). Mas
ele tem o perfil do clube.
PARA QUE SUCESSOR?
Outro
dia eu disse ao seu Alberto (Dualib) que é ele quem tem o
perfil ideal para ser presidente: é correto, administra bem e
é vitorioso.
RIXA COM A GAVIÕES
Eles
(torcida organizada) gostam do cartola que tem uma aura de esperteza
nos bastidores e tem papo de boleiro.
(LANCE!,
22/12/2002, pp.6-7)