NOTÍCIAS
11/3/2002
A
BRONCA DE CITADINI: QUEM FALA O QUE PENSA É
FOLCLÓRICO, IDIOTA...
Antônio
Roque Citadini, vice de Futebol do Corinthians, causou revolta ao
criticar a convocação de alguns jogadores para o jogo
com a Islândia. Pessoas do futebol e da imprensa são
atrasadas, diz ele
Antônio
Roque Citadini, vice-presidente de Futebol do Corinthians, está
tão ou mais presente nas páginas de jornais e programas
de rádio ou televisão que os jogadores de seu time.
Ele
diz que não busca essa notoriedade, mas que também não
se importa com isso. "Apenas falo o que penso e isso assusta
jornalistas e os que acompanham o futebol. Existe uma falsidade muito
grande. Querem enquadrar as pessoas em um discurso-padrão,
quase um carimbo, e eu não gosto disso. Sou sincero e talvez
esse seja um dos meus erros."
Sincero
ou boquirroto? De uma forma ou de outra, Citadini mostrou-se muito
educado e atencioso na entrevista ao Jornal da Tarde. Falou o que
quis, sem autocensura, por duas horas. A seguir, trechos da
entrevista.
Jornal
da Tarde - Hoje se fala muito em dirigente profissional, mas você
é um apaixonado.
Citadini
- Eu sou um dirigente com postura profissional. Alerto para a
necessidade de equilibrar receita e despesa, sobre os problemas que o
futebol vive com a diminuição de receitas, sobre as
necessidades de as despesas estarem de acordo com o que o futebol
gera. Está errado imaginar que o profissionalismo é ter
um burocrata de gravata e computador e calculadora dirigindo o
futebol.
Você
errou no caso Marcelinho-Luxemburgo? Os dois deixaram o time.
Não.
O Marcelinho cometeu uma falta grave. Tínhamos de resolver
isso e não faz a menor importância se ele tinha ou não
problemas com o técnico. Quanto ao Luxemburgo, esperamos
acabar a temporada, fizemos uma avaliação e sentimos
que era melhor trocar a Comissão Técnica. Nunca manchei
a imagem do Luxemburgo.
Você
é pára-quedista?
Sou
sócio do clube desde 1972 e fui indicado pelo presidente. Se
ele "desindicar", eu saio.
Você
torceu para Palmeiras ou Manchester em 1999?
Não
é pergunta que se faça. Eu só torço para
o Corinthians.
Você
não assistiu ao jogo?
Aquela
Copa no Japão só passa na América Latina, nem vi
aquilo.
E
o Alex, você acha que não merece a Seleção?
Trezentos
jornalistas já falaram mal do Alex. Dei só a minha
opinião. Não falei nada depreciativo. Se falo o que
penso, sou chamado de folclórico, idiota.
Você
falou que o França era ruim, mas ele acabou com o seu time em
1998.
Aquele
jogo em que o Raí chegou na semana e jogou? Achei estranho ele
participar do jogo.
O
França jogou bem?
Não
lembro.
Foi
3 a 1, ele fez dois gols.
Não
lembro.
Conheço
um monte de corintiano que chorou naquele dia.
Eu
só choro na vitória.
Você
foi ao estádio?
Devo
ter ido, mas apaguei da memória.
Você
falou que o Reinaldo não jogaria no São Paulo e ele já
fez oito gols em
10 partidas...
Nunca
falei isso. Eu disse que o jogador foi dado como garantia ao
Corinthians e que não deveria ser transferido do Flamengo. Não
inventa o que não falo.
Como
está indo a parceria com a Hicks?
Todos
os investidores foram embora do Brasil, exceto a Hicks. Futebol sem
investidor não dá. Nós temos três crises:
nos Estados Unidos, depois da recessão americana, do 11 de
s
etembro e dos problemas que houve na Bolsa; na Europa, os clubes
estão diminuindo suas despesas e as televisões estão
diminuindo seus gastos com o futebol; e há ainda uma
dificuldade própria do futebol brasileiro, que está
órfão de investidores. O esforço do Corinthians
para manter a parceria com a Hicks deve ser louvado. Somos um clube
que está correndo riscos, remando contra a maré,
fazendo esforços a favor de um futebol mais sério,
profissionalizado e mais lucrativo.
Você
lamenta a saída de investidores dos "co-irmãos?"
Lamento
sinceramente. A saída da Parmalat, da ISL, National Banks é
um indicador terrível para o nosso futebol.
O
nível dos dirigentes brasileiros assustou os investidores?
Há
vários motivos para a saída deles. Primeiro, a
desorganização geral do nosso futebol. Depois, a
desorganização dos clubes. Não adianta bons
dirigentes se os clubes são desorganizados. E também
outras coisas, como a CPI. Sou a favor da CPI e estamos pagando um
preço pelos resultados da CPI.
O
Corinthians é organizado?
Muito.
O
estádio vai sair?
Estamos
fazendo um esforço grande e o parceiro também. Eles já
gastaram um monte de dinheiro e nós temos de apoiar.
O
Corinthians não tem campo. Não é vergonhoso?
Não
bate com a realidade. O Corinthians teve o campo da Ponte Grande, com
jogadores e diretores trazendo tijolos para ajudar na construção.
Depois, comprou a Fazendinha e fez um estádio exemplar, que só
na década de 60 deixou de atender às necessidades do
futebol moderno.
E
as críticas ao Morumbi?
Não
critiquei. Fiz uma análise honesta e sei que todos os
são-paulinos concordam. O Morumbi pertence a um ciclo de
estádios ultrapassados. São estádios grandes,
desconfortáveis, sem estacionamento e sem atividades multiuso.
Morumbi, Mineirão e Maracanã pertencem a esse ciclo.
Precisamos de estádios com lugares numerados, grande
estacionamento, com multiuso e menor capacidade.
Rogério
Ceni falou que você prefere moreninhos a branquinhos, uma clara
insinuação de que você teria tendência
homossexual.
Sim.
Ou então, que eu seria racista. Insinuação só
pega se tiver fundo de verdade. Essa não tem.
Seu
time tem perna-de-pau?
Não.
O nosso elenco é bom.
E
o Otacílio?
Todos
são bons jogadores, alguns estão em melhor forma do que
outros.
Como
você escalaria a Seleção Brasileira?
O
técnico escala e, se eu achar ruim, critico. Não escalo
nem o nosso time, por que iria escalar a Seleção?
Há
diferença entre Ricardo Teixeira e Farah?
O
Farah tem uma gestão bem-sucedida e o Teixeira tem uma gestão
mal-sucedida.
A
imprensa é são-paulina?
O
que eu disse é que a imprensa sempre teve má vontade
com o Corinthians. O Corinthians sempre foi conhecido como um clube
de carroceiros, de pretos, favelados, nordestinos, sempre com a
intenção de ofensa. Eu escrevi o livro do Neco e fui
pesquisar.
Na década de 20 o Corinthians ganhou do
Paulistano, o queridinho da imprensa na época, por 2 a 1. Os
jornais eram tão contra que só falavam do
Friendenreich, que fez o gol do Paulistano. Nós somos o maior
clube na classe A, B, C ou D. Somos o primeiro clube popular do
Brasil.
E
as críticas ao Kaká? Ainda acha o Éwerthon
melhor?
Não
houve nenhuma crítica. Um rapaz me perguntou o que eu achava
do Kaká. Falei que ele deveria procurar um dirigente do São
Paulo. Eu só elogio jogador do Corinthians, e então dei
uma lista, o Gil, o Éwerthon e outros.
O
Tribunal de Contas, onde você trabalha, é um cabide de
emprego?
Não.
É um órgão importante, exerce o controle da
administração estadual.
Achou
justo o Felipão convocar o Dida que nem time tinha?
Ele
é um bom goleiro. Foi vítima de empresários no
caso do passaporte, que envergonha o futebol brasileiro. Enfraqueceu
carreiras e o futebol brasileiro também.
Você
é da Vai-Vai?
Esse
é outro episódio em que a sinceridade acaba
comprometendo. Ano passado, um menino da Gaviões me deu uma
camisa e me convidou para sair no Carnaval com a 'Gaviões'. Eu
disse que moro há 30 anos na Bela Vista, desde quando a
'Gaviões' era uma ala da Vai-Vai e que não ficaria bem
trocar. O pessoal da Gaviões ficou bravo comigo. Sou muito
sincero, talvez esse seja o meu defeito.
Sua
gestão é boa?
Venho
aqui toda tarde e saio às dez da noite. Não ganho nada.
Cheguei em um momento conturbado, com muitas derrotas. Acho que tenho
feito bem para o Corinthians. Só tenho saudade do tempo em que
via jogo no alambrado, perto dos jogadores.
Voce
xinga seus jogadores?
Só
os dos outros. Vou explicar uma coisa para que você veja como
trato os jogadores do Corinthians: quando o Neto cuspiu naquele juiz,
eu desenvolvi a tese de que ele foi soprar um cisco que o juiz tinha
no olho e inadvertidamente saiu a saliva
Soprou
a pedido do juiz?
Provavelmente.
Fiquei triste quando o Neto confessou que havia cuspido. Eu nunca
confessaria.
LUÍS
AUGUSTO SÍMON
Jornal da Tarde
(JORNAL
DA TARDE, ESPORTES, 11/3/2002)