NOTÍCIAS
27/1/2002
O
CRASH DO FUTEBOL
Após
a euforia, clubes e investidores pelo mundo vêem o negócio
encolher
RODRIGO
BUENO
DA REPORTAGEM LOCAL
A
crise financeira não é uma primazia hoje dofutebol
brasileiro. Poderosos clubes europeus, Fifa, confederações
continentais e torneios de países que até bem pouco
tempo eram exemplo de sucesso econômico no esporte passam por
momento financeiro ruim.
As
ações de ricos times de Inglaterra, Itália,
Alemanha e Holanda em Bolsas de Valores despencaram em 2001. Os
clubes britânicos tiveram, em média, por exemplo, uma
perda de 27,8% no valor de suas ações, segundo pesquisa
feita pelo Soccer Investor, grupo inglês que estuda negócios
e marketing envolvendo o esporte mundial.
Uma
ação do Manchester United, considerado o clube mais
rico do planeta, custava 224 libras (cerca de R$ 760) no final de
2000. No último dia de 2001, a ação do clube
podia ser adquirida por 145 libras (cerca de R$ 490).
Reflexo
do retrocesso, o Manchester pode vender sua maior estrela, o
meia-atacante Beckham, por não querer bancar mais um salário
de US$ 200 mil mensais.
A
Roma, a campeã da temporada passada na Itália, e a
Lazio, a campeã retrasada, viram suas ações
caírem no último ano, respectivamente, 51,6% e 47,1%.
O
alemão Borussia Dortmund experimentou uma perda de 38,7% no
valor de suas ações em 2001. O Ajax, tradicional time
holandês, observou uma queda de 26,5% no valor das suas.
As
Bolsas em quase todo o mundo apresentaram queda no último ano,
mas não como os clubes. A Bolsa de Londres, por exemplo, teve
queda de 16% em 2001 -as ações do Arsenal, principal
time londrino, tiveram desvalorização de 33% no
período.
"Práticas
como a adoção de pisos salariais para os atletas
mostram que os clubes estão se esforçando para diminuir
os gastos", diz Oliver Butler, responsável pelo Soccer
Investor.
A
Europa ainda não assimilou bem a falência da ISL,
empresa de marketing suíça que esteve atrelada à
Fifa por quase duas décadas. A quebra da parceira da Fifa não
foi bem explicada.
Importantes
dirigentes europeus, em especial, querem uma devassa nas contas da
máxima entidade do futebol.
Joseph
Blatter, presidente da Fifa, contratou uma empresa para fazer
auditoria na entidade, enfraquecida economicamente.
A
Fifa foi obrigada a cancelar a segunda edição do
Mundial de Clubes, perdeu a sua seguradora original da Copa e
transformou a sua mais importante competição em títulos
no mercado financeiro.
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 27/1/2002)
CRASH
Países
que investiram nos anos 90 passam por fase de contenção
de despesas
CRISE
FINANCEIRA AFUNDA O FUTEBOL NOS EUA E NO JAPÃO
DA
REPORTAGEM LOCAL
Dois
grandes exemplos do momento financeiro delicado por que passa o
futebol mundial são os EUA e o Japão. Os dois países
lançaram ambiciosas ligas profissionais (a MLS e a J-League)
na década de 90 e hoje estão vivendo fase de contenção
de despesas.
A
liga norte-americana fechou dois clubes: o Miami Fusion e o Tampa Bay
Mutiny. Já a liga japonesa, segundo a Federação
Internacional de História e Estatística do Futebol
(IFFHS), foi apenas o 32º mais forte campeonato nacional do
planeta em 2001, empatado com o Campeonato Paraguaio.
Na
MLS e na J-League os craques estão rareando. Grandes nomes
internacionais, como o colombiano Rincón, encontram
dificuldade para jogar nos EUA devido ao alto salário. E os
principais atletas brasileiros que estavam no Japão já
voltaram ao país.
Os
norte-americanos, cuja liga não figura nem entre os 50
melhores torneios nacionais do mundo, estão cortando
investimentos também no futebol estrangeiro. O fundo HMTF, com
grande prejuízo na Argentina, está revendo seus planos
para a América Latina. No Brasil, Cruzeiro e Corinthians já
sentiram o "pé no freio" de seu milionário
parceiro. A PSN, canal de esportes do HMTF, também sente os
efeitos da crise.
A
empresa de material esportivo Nike cogitou rescindir contrato de
patrocínio com a CBF e acabou reduzindo em 25% o valor total
que pagará à entidade. A Confederação
Sul-Americana de Futebol vive momento difícil. A empresa TyT
diminuiu em 30% o valor pago aos clubes na Libertadores, principal
torneio do continente. A Toyota estuda encerrar sua parceria com a
entidade que rege o futebol sul-americano. A Copa Mercosul, que dava
bons prêmios aos clubes, foi extinta.
A
Confederação Africana transformou as eliminatórias
para a Copa da África em eliminatórias para o Mundial
para dar um respiro em seu calendário, mas, com a redução
no número de jogos, ameaça federações que
dependem das rendas das partidas.
Na
América do Sul, enxugar as eliminatórias para a Copa
causa medo, pois as dez federações querem que a
competição siga no sistema todos contra todos, em turno
e returno, mais lucrativo. A Copa América e a Copa da África,
torneios bienais de seleções, estão sendo
instigadas a acontecer de quatro em quatro anos, mas as confederações
dos dois continentes temem a perda de dinheiro com a diminuição
de edições dessas competições.
O
calendário mundial unificado traçado pela Fifa está
ameaçado pela necessidade financeira de confederações,
federações e clubes. Da mesma forma, o calendário
quadrienal lançado pela CBF, que pode deixar times grandes
quase quatro meses sem atuar nesta temporada, corre risco.
A imagem da Copa
Vários
países, como o México, não conseguiram ainda
garantir a recepção de imagens da Copa. A aquisição
de anunciantes para o Mundial está sendo dificultada pelo
horário em que os jogos serão exibidos no Ocidente.
A
própria organização da Copa deste ano passou
aperto financeiro. Os sul-coreanos não deram conta das
despesas e acabaram recebendo ajuda dos japoneses, que também
abrigam o torneio. Em meio à crise financeira, a Fifa liberou
até publicidade no uniforme dos árbitros, uma nova
forma de aumentar a receita.
O
dinheiro nunca foi tão essencial para o futebol como agora.
(RODRIGO
BUENO)
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 27/1/2002)
PAINEL
FC
CASA VELHA
Enquanto
o HMTF anuncia para março o início da construção
do estádio corintiano, a CBF começa a desistir de
erguer sua nova sede, que seria na Barra. Com a Nike e a Rede Globo
fechando as torneiras para a entidade, o jeito será continuar
mais um tempo na rua da Alfândega, na região central do
Rio.
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 27/1/2002)
FUTEBOL
Coréia
deve receber o triplo de turistas na primeira fase do Mundial
CUSTO
DE VIDA FAZ TORCEDOR FUGIR DE COPA JAPONESA
JOÃO
CARLOS ASSUMPÇÃO
DA REPORTAGEM LOCAL
A
Confederação Brasileira de Futebol queria jogar a Copa
toda no Japão, mas o fato de a seleção ter caído
na Coréia tem pelo menos um pontopositivo: pesa menos no bolso
do torcedor.
Pesquisa
em 134 cidades dos cinco continentes publicada pela revista inglesa
""The Economist" indicou duas japonesas, Tóquio
e Osaka, como as mais caras do mundo para se viver. Para torcedores
argentinos, nigerianos, russos ou mesmo ingleses, uma péssima
notícia. Assim como suecos, belgas e tunisianos, caíram
em grupos que disputarão o Mundial inteiro no Japão -só
uma eventual disputa pelo terceiro lugar seria na Coréia.
Moral da história: deverão contar com pouco apoio no
torneio.
Os
japoneses esperam a visita de 12 mil a 15 mil torcedores dos 15
países que disputarão a primeira fase no país.
Já os coreanos aguardam 37 mil visitantes das outras 15
seleções. Só da China seriam mais de 15 mil.
Antes
mesmo da publicação dos resultados da pesquisa,
indicando que o custo de vida em Tóquio é 30% maior que
em Londres, a federação inglesa estimava que apenas mil
torcedores iriam ao Oriente acompanhar a seleção.
Na
Argentina, a situação é ainda pior. A Associação
de Futebol Argentino calcula que menos de 200 torcedores devam deixar
o país para acompanhar a equipe de Marcelo Bielsa, uma das
favoritas para vencer o Mundial.
É
um número insignificante perto do que seguiu o time na Copa da
França, em 1998, quando 1.500 pessoas saíram da
Argentina para torcer pelo time,na época dirigido por Daniel
Passarella.
Apesar
da boa fase de sua seleção, a AFA acha que a grave
crise econômica e social que atravessa a Argentina e o alto
custo da viagem para o Japão justificam o pessimismo em
relação à torcida.
Segundo
a ""The Economist", uma refeição com
entrada e prato principal pode custar US$ 92,5 em Tóquio -uma
corrida de táxi do aeroporto para o centro da cidade ficaria
em US$ 230. Já Seul, a capital da Coréia do Sul, ficou
em 21º no ranking das 134 cidades pesquisadas. Atenas, sede dos
Jogos Olímpicos de 2004, em 84º. Rio e São Paulo,
em 120º lugar, ao lado de Budapeste.
Apesar
de o custo de vida na Coréia ser mais baixo que no Japão,
agências de turismo estimam que apenas 2.000 brasileiros viajem
à Ásia para ver a seleção. Lembram que,
se o time passar pela primeira fase, terá de jogar no Japão,
onde os preços são elevados.
Se
os 2.000 turistas representam mais de dez vezes o número de
argentinos esperados para o torneio, são muito menores do que
os 12 mil que viajaram à França. Em 1998, mais de 9.000
pacotes foram vendidos no Brasil. Para 2002, devem ser 1.500. Não
à toa, boa parte deles deve incluir apenas a primeira fase,
quando a seleção só jogará na Coréia.
Mesmo assim, os preços são salgados. Um pacote para
dois dos três jogos sai por US$ 5.897. Por pessoa.
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 27/1/2002)
CO-ANFITRIÕES
VÊEM GANHOS PARA ECONOMIA
DA
REPORTAGEM LOCAL
Coréia
do Sul e Japão apostam no Mundial para revigorar suas
economias. Estudo do Instituto de Desenvolvimento da Coréia
estima que serão criadas no país, até o final do
evento, cerca de 350 mil vagas de emprego. Estudo semelhante feito
pelo governo japonês aponta a criação de 300 mil
vagas temporárias, um alívio para a administração
de Junichiro Koizumi, primeiro-ministro que vê o país
atolado em recessão.
A
situação japonesa é tão grave que só
na indústria automotiva são previstas 40 mil demissões
neste ano.
Ainda
segundo o instituto coreano, a Copa será responsável
por movimentar riquezas no país na ordem de US$ 4,1 bilhões,
mais de 1% do Produto Interno Bruto de 2000 -na casa dos US$ 397
bilhões. Empresas dos dois países que estão
associando suas marcas ao evento também esperam obter retornos
significativos. É o caso da Hyundai Motor Ko., fabricante de
automóveis patrocinadora do torneio, a responsável por
levar o Brasil a Ulsan, onde fica sua sede.
A
empresa tem exibido um estudo da Harvard Business School, que estima
em US$ 500 milhões o acréscimo nas vendas da MasterCard
por causa da final da Copa de 1994, quando exibiu sua marca nas TVs
do mundo todo por 12min08s. A Hyundai, que espera atingir a marca de
US$ 10 bilhões em vendas na região após o
Mundial, irá ceder mais de mil veículos para
transportar membros da Fifa, da organização e das
equipes e convidados durante o evento. (JCA)
(FOLHA
DE S. PAULO, FOLHA ESPORTE, 27/1/2002)