NOTÍCIAS
-17/1/2002
VALE-TUDO, A
TÁTICA PARA FECHAR OS NEGÓCIOS
Empresários
até espalham boatos na tentativa de valorizar seus clientes
EDUARDO MALUF
Para valorizar
seus jogadores, conseguir negociá-los e ganhar belas quantias
em dinheiro, muitos empresários resolveram adotar a tática
da especulação nos últimos anos.
Jogam na imprensa
notícias que não são verdadeiras e fazem de seu
cliente um atleta bastante assediado no mercado, quando,
na realidade, ele não foi procurado por ninguém.
Esses homens de
negócio se espalharam pelo mundo e fizeram grandes sociedades.
Por isso, a rede de boatos existe em todo o planeta. Uma notícia
começa na Alemanha, passa pela Itália, é
divulgada em agências internacionais e acaba no Brasil. Muitas
vezes, uma transação que parece estar quase concluída
pelo discurso dos empresários, nunca chegou a se iniciar. Foi
plantada por eles.
O caso do atacante
Luizão, do Corinthians, chama a atenção. Na
semana passada, o procurador do jogador, Francisco Monteiro, o Todé,
disse que o Bétis, da Espanha, tinha interesse em sua
contratação e pagaria cerca de US$ 12 milhões
para tê-lo no elenco. O clube espanhol, personagem de destaque
nesse filme de ficção, nunca confirmou a informação
e a diretoria corintiana garante que jamais recebeu proposta por
Luizão. No primeiro semestre, disseram também que
o Luizão já estava vendido para o Borussia, mas nem
recebemos proposta, diz o vice-presidente de Futebol do
Corinthians, Antônio Roque Citadini.
BÉTIS NÃO
FEZ PROPOSTA POR LUIZÃO
Um dirigente de um
grande clube de São Paulo revelou ao Estado como funciona um
dos esquemas dos empresários. Após saber que uma
determinada equipe da Europa, principal mercado consumidor, busca
reforço para o ataque, por exemplo, eles vão atrás
de um jogador para essa posição. Inventam uma proposta
salarial, colocam-na no papel e a entregam ao atleta depois
divulgam à imprensa como se fosse um pré-contrato. Se
ele aceitar, o procurador pega o contrato e leva até os
dirigentes europeus que estão atrás do atacante.
Indicam o jogador, dizem que pode resolver os problemas da equipe e
exibem o documento, que mostra quanto ele gostaria de receber. Se os
europeus considerarem interessante, iniciam as negociações
e então o empresário diz que a transação
está quase fechada. Se eles não quiserem, como ocorreu
com o Bétis em relação a Luizão, o
procurador diz que o negócio só não foi
concluído porque não houve acerto entre as partes.
Uma das histórias
que tiveram grande repercussão em 2001 foi a briga entre o
goleiro Rogério Ceni e a diretoria do São Paulo. Ele
queria aumento para permanecer no Morumbi, alegando que tinha
proposta do Arsenal, da Inglaterra. Um amigo seu que também
atua como empresário, Álvaro, registrou a falsa
proposta num papel timbrado com o logotipo de uma empresa chamada
Tango Sports & Marketing, que na realidade não existia, e
a entregou ao presidente Paulo Amaral. No fim, obviamente, Rogério
não se transferiu para a Inglaterra, porque nunca houve
interesse do Arsenal. Na ocasião, os ingleses procuravam mesmo
um goleiro, mas estavam atrás de outros nomes.
Até a Copa
São Paulo de Juniores virou balcão de negócios.
É comum os empresários enviarem fax ou e-mail às
redações dos jornais promovendo jovens atletas que nem
sequer são conhecidos. E ainda dizem que já chamam a
atenção de grandes clubes, do Brasil ou do exterior.
(O
ESTADO DE S. PAULO, ESPORTES, 17/1/2002, P.1)
CONTRARIADO,
MARCELINHO VIAJA PARA O JAPÃO
O
meia, que lutou até a última hora para ficar no Brasil
- de preferência no Corinthians, que o afastou -, teve de se
contentar em reforçar o Gamba Osaka na J-League. Seu litígio
com o ex-clube continua indefinido
Sem outra opção,
o meia-atacante Marcelinho Carioca viaja hoje à noite para o
Japão. Vai reforçar o Gamba Osaka na J-League, o
campeonato profissional japonês, que tem início previsto
para março. O pedido de transferência do jogador foi
feito ontem à tarde à CBF pelo clube japonês.
Marcelinho viaja, mas deixa a sua situação indefinida
no Corinthians.
Banido pelo
ex-técnico do clube Vanderlei Luxemburgo e pela maioria dos
jogadores do elenco sob a acusação de ser delator, o
meia-atacante briga na Justiça com o Corinthians. O juiz da
74ª Vara do Trabalho de São Paulo, Manuel Antônio
Ariano, vai decidir, provalmente no próximo dia 6, quando
retorna das férias, quem está com a razão. O
clube responsabiliza o jogador pela rescisão do contrato.
Marcelinho Carioca acusa o Corinthians de o ter excluído do
elenco e o afastado de suas atividades profissionais ao fazê-lo
treinar separado dos demais jogadores.
A primeira vitória
na Justiça foi de Marcelinho. O jogador conseguiu uma liminar
que lhe deu condições de atuar no Santos no Campeonato
Brasileiro. Na audiência realizada no início de
dezembro, o juiz Manuel Antônio Ariano exigiu que o
Corinthians desse baixa na Carteira Profissional do atleta,
liberando-o para jogar no Santos.
Se a sentença
do juiz for favorável ao Corinthians, Marcelinho terá
de pagar R$1,2 milhão ao clube, referentes à
multa contratual. Se o Corinthians perder, terá de pagar R$1,4
milhão ao jogador pela quebra do vínculo.
Marcelinho viaja
contrariado. Ele queria ficar no Brasil, de preferência no
Corinthians. Mas percebeu nos últimos dias que o clube e a sua
parceira comercial - a Hicks Muse - não querem vê-lo
outra vez com a camisa corintiana. O Corinthians e a empresa
norte-americana de fundos de investimentos querem reaver os direitos
federativos do craque. Fazem questão de retomar o vínculo
do jogador, para depois o negociarem com algum algum clube brasileiro
ou do exterior. A Hicks não quer perder os US$ 4 milhões
pagos à Federação Paulista de Futebol para
trazê-lo de volta do Valencia, da Espanha.
Na reunião
que teve, com o seu procurador, James Fernando Arruda, na
quinta-feira da semana passada com Eduardo José Farah,
presidente da FPF, e Antônio Roque Citadini, vice-presidente do
Corinthians, o jogador chegou à conclusão de que o seu
retorno ao Parque São Jorge, pelo menos por enquanto, é
quase impossível.
A rejeição
de parte do Conselho Deliberativo e da maioria dos jogadores -
principalmente do zagueiro Scheidt e do meia Ricardinho - é
intransponível. Antônio Roque Citadini
também não o quer de volta. Aos amigos o dirigente diz
que promover a volta do jogador ao Corinthians seria uma medida
suicida. "O índice de rejeição do
Marcelinho no elenco é muito grande", costuma afirmar
Citadini.
O dirigente também
não tem bom relacionamento com James Fernando Arruda, que além
de procurador é uma espécie de guru do craque. E a
aversão é recíproca. James já disse ao
JT que "não se deve confiar no que o Citadini fala".
Alberto Dualib,
presidente do clube, defende o retorno do jogador ao Parque São
Jorge. Mas não quer arrumar inimigos com os conselheiros. Sabe
que a decisão de reintegrar o jogador é polêmica
e divide o Conselho Deliberativo corintiano. Como no fim do ano
haverá eleição para presidente no clube e Dualib
vai tentar mais uma reeleição, prefere ser cauteloso.
Para o presidente,
é melhor Marcelinho ir ao Japão e ficar por lá
durante um ano. Depois, talvez sem Scheidt - cujos direitos
federativos pertencem ao Celtic, da Escócia e
Ricardinho - que tem interesse em se transferir para o exterior - a
volta do jogador seja possível.
WLADIMIR MIRANDA
Jornal da Tarde
(JORNAL DA
TARDE, ESPORTES, 17/1/2002, P.3)