Notícias - 10/10/2007


Um crime contra a fiel


05.10.2007

Vítima de uma parceria funesta, com dinheiro de origem obscura e administração desastrosa, o Corinthians – uma instituição de São Paulo – meteu-se num buraco fundo que envergonha e assusta sua imensa torcida

Por André Rizek
Colaborou Filipe Vilicic


Infelizmente, essa fama veio – não por suas glórias, e sim pelas ações criminosas de seus dirigentes. "Já perdemos muitas vezes, mas perdíamos com extrema dignidade", diz Olivetto. "Hoje, o momento é deprimente. E o menor dos males são as derrotas." A equipe, entre as últimas do Campeonato Brasileiro, está no meio de uma crise moral. Neste ano, o Corinthians passou a freqüentar as páginas policiais do jornais, acusado de ter sido usado pela máfia russa para o crime de lavagem de dinheiro
. Seu presidente, Alberto Dualib, de 86 anos, viu-se obrigado a renunciar, assim como todos os seus vice-presidentes, tamanho o mar de lama em que se meteram.

O publicitário Washington Olivetto representa um período da história corintiana que ficou enterrado no passado. Ele foi vice-presidente de marketing em 1982 e 1983. Naquela época, o clube conseguia aglutinar colaboradores como José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que por trinta anos esteve à frente da programação da Rede Globo, e a consultora de moda Gloria Kalil. O Corinthians era a vanguarda. Vinte e cinco anos depois, seus dirigentes são o que há de mais atrasado no futebol nacional.

Depois do título de 2005, enciumados com o carisma de Kia, os dirigentes do Corinthians passaram a minar a MSI. O clube descumpriu o contrato de parceria. E o grupo do iraniano parou de investir. Começaram as investigações do Ministério Público e da Polícia Federal sobre lavagem de dinheiro. Elas acharam outros problemas. Com a renúncia de toda a sua diretoria, o clube terá eleições na terça-feira (9). O próximo presidente vai assumir uma dívida que bateu em 74 milhões de reais (cerca de 37 milhões de dólares) neste ano. Ou seja, mesmo diminuindo as despesas com a entrada da MSI, a dívida corintiana quase dobrou de tamanho em dois anos e meio. Especialistas também calculam que o clube pode ser multado em quase 100 milhões de reais pela Receita Federal por causa de transações feitas pela MSI que teriam descumprido a legislação brasileira. "No fim da década de 90, colaborei dois anos com o Corinthians, para trazer investidores, mas desisti", lembra o economista Ibrahim Eris, ex-presidente do Banco Central. "Vi como o clube era desorganizado, sem nenhum planejamento, com tudo feito na base da informalidade."

Num exemplo de quanto o Corinthians está atrasado em relação a seus rivais, ele não tem sequer um projeto de sócio-torcedor, como o Santos, o São Paulo ou o Internacional, de Porto Alegre, que conta com 54.000 seguidores contribuindo mensalmente para assistir a seus jogos. "Na Espanha, um dos presentes mais populares de filho para pai é o carnê de jogos do Barcelona, válido para todo o ano", diz Olivetto. "É incrível que o Corinthians não tenha nada semelhante. Que pai corintiano não gostaria de ganhar um presente desses?" Pudera. O vice de marketing do Corinthians, até a renúncia de Dualib, era um cardiologista, Jorge Kalil, que admitia publicamente não entender nada da área sob sua responsabilidade. Para fazer uma comparação, o diretor de marketing do São Paulo, desde 2004, é o publicitário Júlio Casares, diretor de planejamento estratégico da Rede Record e presidente da Associação Brasileira de Marketing e Negócios (ABMN).

"Nosso problema não é de recursos, como ocorre na maioria dos clubes brasileiros", afirma o economista Luiz Paulo Rosemberg, conselheiro do clube. "É de gestão e ética nos negócios." Ele forma com os colegas Manoel Félix Cintra Neto (presidente da Bolsa de Mercadorias & Futuros) e Eduardo Rocha Azevedo (ex-presidente da Bolsa de Valores de São Paulo) um grupo de conselheiros corintianos que sempre se opôs à parceria com a MSI. "Quando bati o olho no contrato, sabia do que se tratava", conta Rosemberg. "Ofereci-me para, de graça, modificá-lo e evitar problemas de lavagem de dinheiro para o clube, mas nem quiseram ouvir."

Além de resolver todas as pendências judiciais em que está envolvido, o Timão está diante de outro perigo: a real ameaça de rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Já se disse que o Corinthians não é um clube que tem uma torcida, mas, sim, uma torcida que tem um clube. Sem time e sem diretoria, a paixão da Fiel é tudo o que restou para salvar esse símbolo paulistano de um vexame ainda maior em 2007. E quem sabe fazer com que ele volte a ser, um dia, como diz seu hino, o campeão dos campeões.


NA MIRA DA JUSTIÇA

Entenda por que o noticiário do Corinthians ganhou as páginas policiais


Parceria com a MSI

Os dirigentes são acusados de usar o clube para o crime de lavagem de dinheiro, na parceria assinada em dezembro de 2004 com o fundo de investimentos MSI. Por trás do fundo estaria o magnata russo Boris Berezovsky, condenado em seu país por diversas fraudes financeiras. Seu testa-de-ferro seria o iraniano Kia Joorabchian, que ocupava a função de presidente da MSI. A Justiça brasileira decretou a prisão preventiva dos dois, que vivem em Londres, onde Berezovsky tem asilo político e Kia, cidadania britânica.

Além deles, estão indiciados por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro o ex-presidente do Corinthians Alberto Dualib e seu vice, Nesi Cury (ambos renunciaram em setembro). Por parte da MSI ainda são acusados o empresário Renato Duprat (intermediador da parceria), Paulo Angioni (ex-diretor de futebol), Alexandre Verri (advogado da MSI) e o também iraniano Nojan Bedroud, que atuou como diretor financeiro do fundo. Todos alegam inocência.


Notas frias

Segundo o Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado do Ministério Público Estadual (Gaeco), o clube estaria envolvido em um esquema de emissão de notas fiscais frias. O dinheiro das notas falsas iria para os dirigentes Alberto Dualib e Nesi Cury. Pelo menos 500.000 reais desviados do clube já teriam sido rastreados pelas autoridades.


Operação Uruguai

Os bens do ex-presidente Alberto Dualib podem ser penhorados se forem comprovados prejuízos ao Corinthians durante sua gestão. De acordo com promotores do Gaeco, para fugir de uma eventual condenação, o cartola teria repassado parte de seu patrimônio (14,3 milhões de reais) para empresas sediadas em Montevidéu, no Uruguai.


(Veja São Paulo, http://vejasaopaulo.abril.com.br/revista/vejasp/edicoes/2029/m0140321.html, 10/10/2007)



97 anos de história



05.10.2007

1914
Inicia sua série de títulos ao conquistar o Campeonato Paulista com dez vitórias em dez partidas. Faz ainda o artilheiro: Neco, o primeiro grande ídolo do clube, jogador da seleção brasileira.


1950
Começa um dos períodos mais vitoriosos do clube. Com uma equipe que reunia três de seus maiores ídolos de todos os tempos (Baltazar, Claudio e Luizinho), vence, entre outros campeonatos, os torneios Rio-São Paulo de 1950, 1953 e 1954 e os Paulistas de 1951 (depois de dez anos), 1952 e 1954. Este último ficou na história porque se comemorava o quarto centenário da cidade e porque o Corinthians não ganharia nada pelos 23 anos seguintes.


1952
O primeiro hino oficial do Corinthians havia sido composto em 1929, mas não caíra no gosto popular. Neste ano, o boêmio radialista Lauro D'Ávila compôs para o Carnaval a marcha Campeão dos Campeões, gravada pelo cantor Osny Silva. A música foi adotada pelo clube.


1976
A torcida esgota uma carga de 70.000 ingressos destinada a ela para uma semifinal de Campeonato Brasileiro, contra o Fluminense. Detalhe: o jogo era no Maracanã, no Rio de Janeiro. O Corinthians se classifica nos pênaltis. E seus fiéis seguidores entram para a história com o feito.


1982/1983
Liderado pelos jogadores Sócrates, Casagrande e Wladimir, cria a chamada Democracia Corintiana. Os atletas decidem tudo dentro do time (até as escalações) na base do voto e chegam a entrar em campo com a mensagem "Diretas já" na camisa, pedindo eleições diretas para presidente do Brasil. É bicampeão paulista.


1990
Conquista o seu primeiro título brasileiro, batendo o São Paulo no Morumbi. Voltaria a vencer em 1998, 1999 e 2005.


2000
Vence o primeiro Mundial de Clubes, organizado pela Fifa e realizado no Brasil.



"
Já perdemos antes, mas com extrema dignidade. O momento agora é deprimente e as derrotas são o menor dos males."
Washington Olivetto,
publicitário

"Quando a MSI pensou em patrocinar o Corinthians, todo mundo falava: 'Não podemos nos envolver com esses mafiosos'. Eu só pensava: coitados deles, que não sabem onde estão se metendo."
Tom Zé,
músico

"Quando Dualib me convidou para visitar o Memorial do Corinthians, disse a ele que só aceitaria ir à sua renúncia."
Dan Stulbach,
ator

"Tenho orgulho do Corinthians. O problema são as pessoas que passam por ele."
Hortência Marcari,
empresária e ex-jogadora de basquete

"É inaceitável que, no país do futebol, o clube mais popular da cidade mais rica do país esteja tão pobre, em todos os sentidos."
Ibrahim Eris,
economista, ex-presidente do Banco Central


(Veja São Paulo, http://vejasaopaulo.abril.com.br/revista/vejasp/edicoes/2029/m0140335.html, 10/10/2007)



Fundação
1º de setembro de 1910


Títulos
1 Mundial de Clubes (2000)
4 Campeonatos Brasileiros (1990, 98, 99 e 2005)
2 Copas do Brasil (1995 e 2002)
5 Torneios Rio-São Paulo (1950, 53, 54, 66 e 2002)
25 Campeonatos Estaduais (1914, 16, 22, 23, 24, 28, 29, 30, 37, 38, 39, 41, 51, 52, 54, 77, 79, 82, 83, 88, 95, 97, 99, 2001 e 2003)


Torcida
14,83% dos brasileiros torcem para o Timão (a Fiel fica atrás apenas do Flamengo, que detém 15,83% da preferência nacional)


Curiosidade
A torcida corintiana é responsável pelo recorde de público do Morumbi (146 082 pessoas). Foi em 1977, na final do Campeonato Paulista contra a Ponte Preta


Outro recorde
O maior deslocamento de uma torcida em toda a história, quando os corintianos dividiram o Maracanã com a torcida do Fluminense, na semifinal do Brasileiro de 1976. Com a ajuda dos rivais cariocas, a Fiel esgotou uma carga de 70 000 ingressos, o que levou o tricolor Nelson Rodrigues a escrever que estava se sentindo "um verdadeiro estrangeiro" no Rio de Janeiro, por causa da invasão corintiana, que começou desde cedo nas praias cariocas.


(Veja, http://vejasaopaulo.abril.com.br/red/corinthians/, 10/10/2007)



Sob nova direção


Com 175 votos, o empresário Andrés Sanchez venceu a eleição para a presidência do Corinthians. O ex-vice-presidente do Timão assume agora o comando que durante 14 anos pertenceu a Alberto Dualib. O mandato de Sanchez vai até fevereiro de 2009. A eleição foi convocada porque Dualib renunciou no dia 21 de setembro de 2007. Ele é um dos principais responsáveis pela parceria com a MSI, que agora está sob investigação da Polícia Federal por ter usado o clube para lavagem de dinheiro. Dualib, por sua vez, também responde a processo por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e, além disso, é acusado de utilizar notas fiscais frias para desviar dinheiro do time.


O chefão


Andrés Sanchez

Empresário
Foi vice de futebol durante a parceria com a MSI, da qual sempre foi um grande aliado enquanto durou o contrato. Depois, mudou de lado e se posicionou contra o fundo de investimentos quando explodiram os primeiros escândalos.

(Veja, http://vejasaopaulo.abril.com.br/red/corinthians/, 10/10/2007)