Notícias - 16/09/2007


História de um crime anunciado


Desde o início eram fortes os indícios de que a parceria entre Corinthians e MSI iria virar caso de polícia

Almir Leite


Oficialmente, era para durar pelo menos 10 anos a sociedade entre Corinthians e MSI, e seria um marco no futebol brasileiro. Na prática, o acordo durou dois anos e oito meses - e isso com muita boa vontade, levando-se em conta a data de 24 julho último, dia em que o Conselho Deliberativo do clube aprovou por estrondosos 241 votos a 0 o fim de uma parceria que, à época, já estava morta. Mas não enterrada. Nem será tão cedo, pois a união virou caso de polícia, com fortes indícios de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, sonegação fiscal e estelionato, entre outros crimes, um monte de gente indiciada e uns gringos com prisão decretada. Coisa de quadrilha bem organizada.

Não surpreende que a relação entre Corinthians e MSI tenha dado no que deu, um escândalo tamanho família que chamou a atenção do Ministério Público Estadual, do Federal e resultou na “Operação Perestroika’’da Polícia Federal. Desde bem antes do início efetivo da parceria - que se deu a 24 de novembro de 2004 -, algo já cheirava mal. Como bem dizia, e repete ainda hoje, o conselheiro Antonio Roque Citadini, que logo percebeu a cilada, um negócio no qual não se pode revelar o nome dos investidores não é confiável.

Mas o presidente do Corinthians, Alberto Dualib, confiou. Ele sabia com quem estava lidando. Uma turma liderada por um tal de Boris Berezovski, um russo que ganhava a vida como professor de matemática em troca de 300 dólares mensais e que um belo dia, em 1986, associou-se a quatro amigos para investirem 5 mil dólares. Que em 1991 tinham virado US$ 20 milhões. Pelo menos foi isso que ele disse à PF em maio de 2006.

Estupendo homem de negócio esse Berezovski! Hoje, segundo a revista Forbes, seu patrimônio é de US$ 3 bilhões.

Talvez por modéstia, o magnata não tenha falado sobre outras façanhas, como fazer milhões de dólares da empresa aérea russa Aeroflot voarem para o seu bolso. Isso a PF descobriu com a ajuda da Interpol. Como descobriu outras coisinhas que levaram o governo russo a querer sua cabeça - Berezovski vive exilado na Inglaterra.

Dualib não ligou. Nem quando “Bere’’ lhe disse que não poderia aparecer de jeito nenhum. MSI - Media Sports Investiment - era assunto para um iraniano simpático e esperto, chamado Kia Joorabchian (ou pelo menos esse é o mais conhecido dos cinco nomes que Kia tem registrados mundo afora).

TEMPOS DE GLÓRIA

Em 2005, já tinha muita gente de olho na MSI - Kia chegou a ser chamado para depor na PF em fevereiro. Mas os dólares estavam entrando aos borbotões, os craques chegavam um atrás do outro (Tevez, Roger, Carlos Alberto, Mascherano, Nilmar...), o time empolgava, Kia dava autógrafos, Dualib era “o presidente’’... tudo era festa. Tevez dançava cumbia, arrumava brigas, levava a recém-nascida Florência ao Pacaembu chovesse ou fizesse sol (ou lua), marcava gols. O time ia bem. Terminaria campeão brasileiro. O Corinthians fizera belo casamento.

Até o estádio, sonho de todo corintiano, parecia que iria sair. Berezovski não tinha nada a ver com a MSI, mas estava disposto a investir US$ 50 milhões na construção de moderna arena, de fazer inveja às melhores da Europa. Na realidade, o russo, com a batata assando na Inglaterra por causa da insistência do governo Putin em querer sua extradição, queria mesmo era arranjar um asilozinho político no Brasil - numa trama que envolveu políticos e chegou até à ante-sala do presidente Lula.

Animado, Boris chegou a vir ao País em maio de 2006. Discutiu a compra da Varig, o biodiesel, foi ver o Corinthians jogar e acabou tendo de se ver com os homens da PF (foi nessa ocasião que contou a versão para a multiplicação de seus pães, ou melhor, dólares).

Curiosamente, depois da “prensa’’ que Berezovski levou da PF a fonte da MSI começou a secar. Falar em valores exatos nesta parceria é um risco considerável, mas nos números do MPF dá para confiar. E o órgão levantou que antes daquele 5 de maio, a MSI forrara os cofres do Corinthians com pouco mais de US$ 28 milhões. Depois disso, colaborou com minguados US$ 3,950 milhões. O russo teria percebido que não iria dar para apear seu cavalo por estas bandas e fechado a torneira.

CASTELO DE CARTAS

Como ocorre em muitos casamentos, a falta de dinheiro colocou em crise a união Corinthians/MSI. Dualib passou a brigar com Kia (pelo menos oficialmente), reclamando de calote. O presidente já havia se estranhado com o fundo de investimentos no segundo semestre do ano anterior - no final de agosto de 2005 foi a Londres choramingar com Berezovski que o fundo só repassara R$ 27 milhões dos R$ 60 milhões combinados. Mas o título brasileiro ganho em dezembro arrefeceu a encrenca.

Com o fechamento das torneiras, porém, a temperatura voltou a aumentar. Kia e Dualib se estranharam novamente, o cartola passou a fazer viagens regulares a Londres para tentar arranjar algum dinheiro, quase sempre em vão. Começou o desmonte do time. Tevez foi embora, Mascherano também, Ricardinho idem.

Dualib foi perdendo aliados. Vários amigos de primeira hora foram pulando do barco na medida em que o mar ia ficando mais revolto. Ele passou a tentar derrubar Kia, numa tentativa de ganhar fôlego e dar gás à parceria. Mas as denúncias de irregularidades cresciam. E a PF estava de olho, ou melhor, de ouvidos, abertos. O Ministério Público também estava alerta.

Mesmo acuado e pressionado pelos conselheiros, Dualib fez de tudo para sobreviver. Mas acabou apeado do poder. Licenciou-se do cargo. Mesmo assim foi afastado pelo Conselho - assim como seu vice, Nesi Curi - e estuda a renúncia, embora ainda relute em capitular.

O problema, no entanto, é que os grampos autorizados da PF pegaram o cartola, Nesi Curi e vários outros envolvidos na (e com) a parceria numa série de tramas, intrigas e armações. Como a conversa telefônica em que Dualib e Nesi combinavam o que dizer sobre a participação de Berezovski na sociedade. E a de Kia com Renato Duprat - citado agora neste texto, mas envolvido deste o início, pois foi ele quem intermediou o negócio entre o Corinthians e Boris e depois se esforçou para tentar conseguir asilo para o russo por aqui -, onde o iraniano fala em “acabar com a lavagem de dinheiro’’.

Dualib repete um mantra que se tornou comum no País sempre que alguém é pego ou é colocado em uma enrascada. “Eu não sabia de nada’’, disse esta semana. Não sabia que Boris era o chefão poderoso, não sabia da procedência ilícita do dinheiro. Mas quando a coisa complicou soube mandar seus bens para o Uruguai, por meio de uma offshore. Acabaria despejado do poder, investigado também por emissão de notas frias e sob risco de prisão.

E o Corinthians? Está sem rumo, com um timeco, devendo cerca de R$ 100 milhões, e pedindo: “Salve (m) o Corinthians’’.


(O Estado de S.Paulo, Esportes, 16/09/2007, p.E-5)


Relação de conflitos


5 de agosto de 2004 - Corinthians e MSI assinam pré-contrato

24 de novembro de 2004 - Contrato que dá ao fundo de investimentos a gestão do departamento de futebol e direitos sobre licenciamento de produtos é assinado, pelo prazo de 10 anos

Fevereiro de 2005 - Já sob suspeita de negócios ilícitos, Kia Joorabchian depõe na Polícia Federal

Abril de 2005 - O MP conclui que a MSI faz lavagem de dinheiro

Agosto de 2005 - Alberto Dualib reclama o não-pagamento, por parte da MSI, de R$ 27 milhões ao Corinthians e suspende unilateralmente o contrato

5 de maio de 2006 - Boris Berezovski visita o Brasil. É detido e interrogado pela Polícia Federal.

13 de julho de 2007 - O juiz Fausto de Sanctis, da 6ª vara da Justiça Federal de São Paulo, aceita denúncia do MPF. Alberto Dualib, Nesi Curi, Renato Duprat Filho, Paulo Angioni e o advogado Alexandre Ferri são indiciados por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Boris Berezovski, Kia Joorabchian e Nojan Bedroud têm o pedido de prisão decretado

24 de julho de 2007 - O Conselho Deliberativo do Corinthians aprova, por 241 votos a 0, o fim da parceria

7 de agosto de 2007 - O Conselho afasta, por 264 a 5, o presidente Dualib e o vice Nesi Curi


(O Estado de S.Paulo, Esportes, 16/09/2007, p.E-5)