Notícias - 16/09/2007
'A escuta não era imprescindível'
Para
promotor, investigação de 2005 já provava a
lavagem de dinheiro na simbiose Corinthians/MSI
Mônica
Manir
Há
doenças chamadas doenças de livro, dessas clássicas,
em que o paciente chega para a consulta com todos os sintomas à
flor da pele. E há investigações de livro, com
sinais claros do crime em questão. O promotor José
Reinaldo Guimarães Carneiro vê assim a apuração
do caso doentio entre a MSI e o Corinthians: uma investigação
de livro sobre lavagem internacional de dinheiro. “Ali temos
todas as etapas do crime acontecendo como na teoria”, diz, em
seu gabinete no Grupo de Atuação Especial de Repressão
ao Crime Organizado (Gaeco). Carneiro, juntamente com o promotor
Roberto Porto, foi quem deu o pontapé inicial na investigação
que envolve diretores do Corinthians, magnata russo, testa-de-ferro
iraniano, jogadores “distraídos”, ex-esposa atenta
e sabe-se lá mais quem num processo enciclopédico.
“Em abril de 2005, quando apresentamos nosso relatório
final com 13 volumes, já sabíamos que Boris Berezovski
estava por trás da parceria, mas queriam uma prova matemática,
como se alguém fosse passar recibo de lavagem de dinheiro”,
afirma. Ele conta que, até a denúncia do Ministério
Público Federal, dois anos depois, a parceria Corinthians/MSI
continuou leve e solta, o que fortaleceu os envolvidos e esfacelou
ainda mais a estrutura do clube. Promotor também do caso Celso
Daniel e da máfia do apito, que investiga o caso Edilson
Pereira e está suspensa por liminar, Carneiro traça a
seguir os passos que levaram ao primeiro diagnóstico de um
crime evidente.
A
SUSPEITA
“A
investigação começou com uma representação
do deputado estadual Romeu Tuma Júnior ao procurador-geral da
República, em 20 de janeiro de 2005. O deputado, que é
conselheiro do Corinthians, mostrava a preocupação de
que o time estivesse sendo usado num esquema internacional de lavagem
de dinheiro envolvendo a parceria Corinthians/MSI e o magnata russo
Boris Berezovski. O procurador-geral determinou que a investigação
fosse realizada pelo Gaeco. Muitos achavam que o fato de Berezovksi
ser estrangeiro implicava, de imediato, uma investigação
federal. Mas um estrangeiro pode cometer crimes de competência
da Justiça Estadual. Num primeiro momento, cabia ao Gaeco
fazer a investigação.
O
ENCANTAMENTO
“Antes
da MSI não havia, na história do Ministério
Público do Estado de São Paulo, investigações
misturando crime organizado e futebol. Foi um marco. Tínhamos
de fazer uma série de diligências. Falamos com o
iraniano Kia Joorabchian, com os diretores do Corinthians, com
representantes das offshores, que tentavam acobertar os parceiros
internacionais do clube. Perguntávamos tudo, menos se Boris
Berezovski participava da parceria. Afinal, estavam todos treinados
para dizer que não. Ao final de cinco horas de depoimento, já
de guarda baixa, depoentes relatavam viagens a Londres e encontros
com o russo. Mostravam-se encantados com a mansão de
Berezovski, ‘tão maravilhosa que uma chuva cai
naturalmente no centro dela’. ‘Ele mora do lado da
rainha’, diziam. Muito impressionado, um dos dirigentes contou
que, num jantar, Berezovski teria saído da mesa para atender a
um telefonema de Tony Blair.
O
PROCURADO
“Fomos
diversas vezes a Brasília atrás dos relatórios
da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que
mostravam o histórico de Berezovski e dos comparsas dele.
Descobrimos que era procurado no mundo inteiro, que se aproveitou da
queda do regime na antiga União Soviética, pegou um
patrimônio violento do povo russo, bilhões e bilhões
de euros, e levou rapidamente para fora do país. A idéia
dele era trazer o dinheiro para Brasil e Argentina e transformá-lo
em compras milionárias de jogadores de futebol, um valor que
voltaria legitimado para o continente europeu. Estávamos dando
ensejo a uma aproximação nefasta como essa. Agora, por
que o governo inglês concedeu asilo político para um
criminoso comum condenado na origem por lavagem de dinheiro, fraudes
em empresas do Estado e formação de quadrilha, é
uma questão que só o governo inglês pode
responder.
OS
INTERMEDIÁRIOS
“O
processo foi facilitado, em parte, pela colaboração de
um escritório de advocacia que havia montado as sete
offshores, a maioria nas Ilhas Virgens Britânicas. A sede está
situada em uma grande offshore desse país. Os advogados do
escritório disseram não saber do teor do negócio,
o que não prevaleceu. Foram denunciados pelo Ministério
Público Federal.
OS
CONSELHEIROS
“Contamos
com a ajuda de diversos profissionais de dentro do próprio
Corinthians interessados em elucidar a parceria. O sr. Alberto Dualib
foi avisado por juízes, ministros, advogados criminalistas,
pelo Roque Citadini, hoje presidente do Tribunal de Contas do Estado
de São Paulo. Se Miguel Marques e Silva, que é
desembargador, não servia como referência, se Romeu
Tuma, com sua experiência policial, não servia, como o
sr. Dualib pode alegar que foi traído? Quando Rubens Approbato
Machado, grande corintiano, ouviu a descrição que
Alberto Dualib fez dos gestores da MSI, cochichou para alguém
do lado: “Ele está descrevendo um estelionatário
internacional”. Jamais o Corinthians precisaria ter virado um
caso de polícia no Ministério Público.
O
DESCASO
“A
investigação começou em fevereiro de 2005 e
terminou em abril do mesmo ano, mas não fomos imediatamente
ouvidos. Queriam uma prova matemática, uma espécie de
recibo, ou então a interceptação telefônica,
como se ela fosse absolutamente imprescindível nesse tipo de
apuração. Ela não é, tanto que tem
caráter excepcional. Não deve ser interpretada pela
sociedade brasileira e por quem opera a investigação
como única forma de produção de prova.
O
GOVERNO
“Como
concluímos que o crime era de competência da Justiça
Federal, ele não poderia ser denunciado pelo Gaeco. O
Ministério Público Federal complementou o processo até
a denúncia, em julho de 2007. Nesse período, tínhamos
sinais de que Berezovski queria se aproximar do governo brasileiro.
Com seu poderio de capital, prometia investimentos em áreas
variadas: salvar a Varig, aplicar em biodiesel, construir um estádio
para a nação corintiana. A PF busca agora descobrir a
responsabilidade de autoridades que apostavam que investimentos de um
criminoso internacional serviriam para o Brasil. Lavagem de dinheiro
é um câncer. Ainda que possa produzir riqueza aparente,
logo em seguida destrói qualquer economia nacional.
AS
NOTAS
“A
lavagem de dinheiro provocou um rombo no Corinthians. O clube está
completamente disforme, desgovernado. A parceria prometeu um sonho,
levou o sonho embora, deixou um título para ser discutido e
cenas de busca e apreensão, além de notas frias. Há
dois meses apreendemos 80 delas, demonstrando que o Corinthians foi
sangrado em R$ 536 mil. Contrataram um empresa de assessoria
contábil, que nunca prestou assessoria alguma, mas apresentava
notas de R$ 10 mil, R$ 15 mil aos diretores do Corinthians, os mesmos
da parceria criminosa, para que dividissem entre si. Estamos em busca
de indícios da participação de outras empresas
no mesmo esquema. Se a gente se deparar com eles, aí a
multiplicação do prejuízo que o clube sofreu
será muito maior.”
QUARTA,
12 DE SETEMBRO
E daí que eu falei?
O
presidente licenciado do Corinthians, Alberto Dualib, afirma quez
escutas telefônicas da PF não são prova contra
ele. Nas gravações, ele fala a Duprat sobre possível
compensação financeira caso abrisse as portas do clube
para um empresário israelense.
(O Estado de S.Paulo, Aliás, 16/09/2007, p. J-6)