Notícias - 06/08/2007


Para Citadini, acordo furado deixou mancha


Vice-presidente eleito foi o primeiro a alertar sobre os riscos de associar o nome do clube a investidor

Dos poucos dirigentes e conselheiros corintianos que se levantaram contra a parceria Corinthians/MSI, o vice-presidente eleito, Antônio Roque Citadini, foi o que mais contestou e alertou para o mau negócio. Com freqüência fez avisos públicos, bateu na mesa para tentar impedir o negócio e, por isso, ganhou inimigos no Parque São Jorge, a ponto de abandonar a direção do departamento de futebol. Tomou-se apenas um vice-presidente sem pasta, um consellieiro combativo, mas ignorado por seu ex-parceiro de diretoria, o presidente Alberto Dualib.

Citadini, advogado de 56 anos, nascido em Rio Claro, presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), não esconde ser fanático pelo Corinthians. Passou a ser mais conhecido depois de criar polêmicas para tratar dos assuntos do seu clube e por não ter receio de recorrer a alfinetadas diretas aos mais diretos adversários: São Paulo, Palmeiras e Santos. I?epois de deixar a direção do futebol, em 2005, ele voltou em maio passado como presidente do com, Conselho de Orientação do clube, órgão que orienta as votações do Conselho Deliberativo.

Em entrevista à
Agência Anhangüera, Citadini não deu um passo atrás daquilo que vem apontando desde antes de o Corinthians assinar contra com a MSI. Não poupa nas acusações nem a diretoria que se "encantou" com as promessas da empresa e nem a MSI, taxada por ele um finna estabelecida no Brasil em uma caixa poso tal e nada mais. Sem medo de errar, Citadini diz que o clube entrou numa grande fria. “Esta é a grande mancha que ficará eternamente na administração do clube em toda a sua história”, afirma.


Agência Anhangüera - Você foi o primeiro a alertar que o Corlnth1ans estava entrando num lugar perigoso. Por que não fui ouvido!
Antônio Roque Citadini - Não sei se fui o primeiro. Isso não interessa. Procurei alertar e imaginei que a "diretoria fosse ficar atenta às minhas denúncias. Avisei que a MSI não merecia crédito, que o clube não pode entrar nesta fria e que o resultado disso seria desastroso assim como sendo provado agora. Não me sinto glorificado por ter avisado. Fico triste pelo fato de os meus protestos terem sido interpretados de uma outra forma. Disseram que eu estava enciumado pela chegada da MSI para comandar o futebol.

Mas você não foi retirado do cargo de vice-presidente de futebol com a chegada do Kia Joorabchian!
Isso é brincadeira. Deixei o cargo, mas não deixei o clube porque sou vice-presidente eleito. Saí do futebol porque não poderia estar do lado daquilo que seria um mal para o Corinthians. A prova esta aí. A MSI do Kia e do Berezovsky enganou que estava ajudando o clube. Fizeram compras e colocaram no nome do Corinthians. Hoje existe uma enorme dívida sendo cobrada e o clube está sendo responsabilizado. Só para exemplificar. A MSI "trouxe o técnico Passarella. O compromisso foi assinado pelo Corinthians, inclusive a multa contratual. Não passou muito tempo, deram um pontapé no treinador e o clube tem de pagar a multa pela rescisão. Este é um caso apenas. Existem muitos outros.

E o contrato entre o Corinthians e a MSI não protege o clube!
Foi aí que eu comecei a desconfiar de que a tal parceria seria um péssimo negócio. Denunciei antes da assinatura. Falei que o Corinthians estava entregando o futebol para a alguém que não teria responsabilidade alguma e que a bomba iria estourar no clube. Está estourando. Aliás, já estourou.

Não existe uma carta de garantia bancária?
Exigimos isso na época. Alertei junto com os que também faziam a mesma coisa e eram contrários ao contrato. Para encurtar, foi prometido, o contrato foi assinado e até hoje a tal carta não apareceu. Aliás, como é que uma empresa que existe no Brasil apenas numa caixa postal pode conseguir carta de crédito?

Esta situação do Corinthians é bem parecida com a do Guarani, no ano passado. A ex-diretoria do clube de Campinas assinou contrato com uma empresa italiana que não existia e hoje paga dívidas por isso. Como é que se cal neste conto do vigário?
É a idéia de se ganhar dinheiro fácil. A tendência é que muitos caiam nisso. Não é só o Corinthians e o Guarani. Existem mais clubes e mais gente no Brasil que caíram e ainda caem nessa. Não existe ganhar dinheiro fácil. Pior é ouvir depois aquela velha tentativa de se justificar, bem ao estilo... “Ah, eu não sabia”. No Corinthians, por exemplo, não foi por falta de aviso.

Não é preciso responsabilizar os dirigentes?
É lógico que precisa. O grande problema é que o dirigente não pensa com precaução. Há necessidade de se administrar com responsabilidade e num contrato é preciso obter todas as garantias; Isso pode mudar?
Tem de mudar, mas não é só o dirigente. Lembro, por exemplo, quando o tal Kia chegou ao Corinthians que parte da imprensa o carregou no colo. Parte da imprensa garantia que a MSI era a maior inovação dentro do futebol brasileiro, a partir do Corinthians.

Afinal, sempre existe uma dúvida. Você é do lado do Dualib ou não?
Sou do lado do Corinthians e é por isso que há necessidade de se investigar tudo o que aconteceu no clube. Se o Dualib e outros cometeram erros terão de pagar.

Você é do futebol e sabe de toda esta crise que ocorre. Tem jeito de ser consertada?
Tem. Os clubes precisam tornar o futebol profissional, mas com segurança e transparência. Eu dou um exemplo. Clube de futebol não pode mais arcar com as despesas da sua parte social. É inadmissível o clube desviar do futebol, por exemplo, R$1 milhão por mês para manter piscinas, campos soçaite, quadras, escolas de dança, a folha de salários e assim por diante. Isso tem de ser separado do futebol.
(RO/AAN)

(Correio Popular, www.cpopular.com.br, 06/08/2007, p. D-6)