Notícias - 28/07/2007
Sujou o ouro de Moscou
Nos dias 9 e 10 de fevereiro de
2005, denunciei aqui ("O ouro sujo de Moscou", 1 e
2), pela primeira vez, a presença, em São Paulo, de um
estranho senhor de menos de 40 anos, playboy, gravata de nó
grosso, olhos esbugalhados, pinta de aventureiro internacional, com
cinco certidões de nascimento, três do Canadá e
duas da Inglaterra. O que ele queria no Brasil?
Chegava para
arrendar e assumir o Corinthians e, se possível, o Flamengo.
Com que dinheiro? A história começava em Moscou. Em 99,
o iraniano Kia Joorabchian tinha aparecido na Rússia e
comprado o "Kommersant", o mais importante jornal econômico
financeiro do país. Os russos não sabiam quem ele era.
O pai tinha dirigido a maior fábrica de automóveis do
Irã. Quando o aiatolá Komeini derrubou o xá Reza
Parlevi, em 79, a família fugiu para a Inglaterra e Kia foi
especular na bolsa de Nova York.
Logo depois de comprar o
"Kommersant", Joorabchian passou-o para o magnata russo
Boris Berezovski. Ele estava a serviço da máfia rússia.
Máfia russa
Berezovski era um dos
quatro chefes da máfia russa, poderosos e íntimos de
Boris Yeltsin, que, já no fim de seu alcoólico e
desastrado primeiro mandato, querendo "fazer caixa" para
reeleger-se em 96, lhes doou, em troca de migalhas (como Fernando
Henrique, no Brasil), as grandes e riquíssimas estatais do
país: Mikhail Khodorkovski ganhou a Yukos de petróleo,
Roman Abramovich e Boris Berezovski granharam a Sibneft, do petróleo
siberiano, e Pastarkatsishvilkli ganhou a energia elétrica da
Geórgia.
Saiu Yeltsin, veio Putin, retomou para o país
as grandes estatais, processou e prendeu Khordokovski. Abramovich,
Pastarkatsiswhvilli e Berezovski foram condenados e fugiram para a
Inglaterra, levando bilhões.
E Berezovski mandou para
o Brasil seu testa-de-ferro Joorabchian, atrás de uma empresa
de fachada, a MSI, para iniciar comprando o Corinthians.
E logo depois o escândalo
começou a estourar.
Dirceu
O
Corinthians virou uma casa-da-mãe-joana, ninguém mais
se entendia. O Kia assumiu o time, os "investimentos" que
prometeu não apareciam, lavavam dinheiro trazendo jogadores da
Argentina que diziam ter custado milhões de dólares e a
Polícia Federal e o Ministério Público abriram o
olho.
Mas o jogo deles ia bem além do Corinthians.
Chegaram logo a José Dirceu, o grande "consultor"
(vulgo intermediário, lobista), mesmo ainda no governo. O
segundo assalto de Berezovski e Kia era à Varig. O governo
Lula começou a tirar o tapete da Varig, que foi afundando
sabotada, com a ajuda, como sempre, de uma bem azeitada campanha da
"grande imprensa sadia".
E Berezovski apareceu no
Brasil. Dia 6 de maio de 2006, nos jornais:
"Berezovski é
detido em investigação sobre MSI" ("O Estado
de S. Paulo").
"Berezovski é detido em Cumbica
para prestar depoimento" ("Folha").
"Empresário
russo interessado na Varig causou mal-estar ao governo" ("Diário
de São Paulo").
Do aeroporto, Boris voltou para
Londres. Dirceu é poderoso.
Prisões
A
tragédia do Airbus da TAM ofuscou a notícia da semana
passada, resultado do belo trabalho da Polícia Federal e do
Ministério Público:
"O juiz Fausto Martin
de Sanctis, da 6ª Vara em São Paulo, determinou as
prisões de Kia Joorabchian e Boris Berezovski. Já o
presidente do Corinthians Alberto Dualib foi denunciado por lavagem
de dinheiro e formação de quadrilha. Kia e Boris não
estão no Brasil" (Blog Uol).
"O Lance",
de 13 de julho de 2007, revelou uma série de "trechos de
escutas telefônicas feitas pelo Ministério Público
Federal e que envolvem vários personagens do Corinthians, do
MSI - todos os trechos constam do relatório da Polícia
Federal divulgado pela Justiça Federal". Apenas
alguns:
Grampos
"21.1.2007 - Renato
Duprat revela intenção de Boris na aquisição
de oito estações de televisão, estando pronto
para viajar ao Brasil, devendo, para tanto, ser acelerado o processo"
(sic).
"13.2.2007 - Fala-se sobre a eventual vinda de
Boris ao Brasil, que teria tirado Kia e que talvez mudaria o nome da
MSI, e que somente mandaria dinheiro ao Brasil, inclusive para
investir em biodisel, depois de tudo correto".
"14.2.2007
- Dualib deixa recado para o chefe de gabinete do presidente da
República, Gilberto Carvalho, afirmando a necessidade de
antecipar a audiência (sic) com Boris e Lula".
"16.5.2007 - HNI fala que conversou com o governo, que
lhe teria pedido para aguardar a vinda de Boris, senão o cara
vai em cana, devendo a questão ter encaminhamento jurídico
do pedido de asilo político".
"22.5.2007 -
Alberto Dualib fala a Kalil que Renato Duprat Filho está
trabalhando o Lula e o Zé Dirceu por meio do Genoino lá
no negócio da Bahia, qualificando como trambique, trambique".
"5.6.2007 - Diálogo em que José Dirceu
revelaria a solicitação para a intervenção
de um senador junto ao Ministério da Agricultura em favor do
Frigorífico Minerva, relacionado à exportação
para a Rússia".
SEBASTIÃO NERY
(Tribuna da Imprensa,http://www.tribunadaimprensa.com.br/anteriores/2007/julho/28-29/coluna.asp?coluna=nery, 28 e 29/07/2007)