PLACAR
- Setembro/2006
Esse time se auto-destruirá em...
Emerson
Leão chegou ao Parque São Jorge como a última
esperança, o único bombeiro capaz de manter sob algum
controle a fogueira de vaidades em que arde o Corinthians da Era MSI.
Mas as histórias que você lê a seguir mostram que,
por mais que ele consiga bons resultados, o clube se transformou em
uma bomba-relógio prestes a explodir.
Por
André Rizek
O Grupo rachou
O
ambiente entre os jogadores do Corinthians nunca foi bom, nem mesmo
quando o time venceu o Brasileiro de 2005. "Sempre houve muita
briga, mesmo em treinos", diz o goleiro Fábio Costa, que
trocou o Parque São Jorge pela Vila Belmiro. Depois da
eliminação na Libertadores, a coisa desandou. Os
medalhões não se gostam. E não existe um bom
relacionamento das estrelas com aqueles que foram criados dentro do
clube, casos de Coelho, Marcelo, Betão, Marcos Vinícius,
Edson, Élton (emprestado ao São Caetano), Rosinei e
Eduardo Ratinho.
Carlos Alberto refere-se aos mais jovens como "os
ajuda de custo", uma piada de mau gosto que envolve o abismo
entre os salários. Nem todos acham graça.
No ano
passado, ao saber que iria dividir quarto com o garoto Élton,
Roger se sentiu "desrespeitado" e pediu para ficar
sozinho.
Das estrela, Tevez sempre foi uma espécie de
outsider. Caladão, relacionava-se com poucas pessoas, entre
e1as Mascherano (seu grande amigo) e Betão. O argentino sempre
procurou ficar distante das fofoquinhas.
Para aumentar a pressão
dessas panelas, ainda veio a contratação de Marcelinho.
Os jogadores eram contra sua chegada, os técnicos não o
queriam (na época, Antônio Lopes e Adhemar Braga), a
diretoria da MSI rechaçava a idéia. Mas tiveram de
engolir a seco a iniciativa da diretoria corintiana. Ricardinho (um
jogador que nunca foi bem aceito nesse elenco), desafeto histórico
de Marcelinho, foi um dos mais revoltados. Para completar, Marcelinho
chegou com seu nome gritado nos estádios pela torcida e,
depois de se segurar calado por um tempo, destilou críticas
duras aos colegas em uma entrevista, posando de dono do time nos
treinos.
Só o lateral Coelho parecia gostar da presença
do ídolo alvinegro (os dois ficavam juntos cobrando faltas
depois do treino com o goleiro Júlio César). Os atletas
esperavam que Geninho cortasse as asas 'do camisa 77. Como não
o fez, o treinador ficou ainda mais em descrédito com os
atletas. Até que chegou Leão, e Marcelinho teve que ir
embora.
Fila de embarque
O dia
4 de maio de 2006 é um divisor de águas na história
desse time corintiano. Foi a data em que a equipe acabou eliminada da
Libertadores com falhas individuais de sua defesa e a torcida,
revoltada, tentou invadir o gramado do Pacaembu - cenas de barbárie
que jamais serão esquecidas. A mulher de Nilmar, nas
numeradas, chorava desesperadamente, com medo de ver o marido
agredido. Só falava em ir embora. Nilmar não pediu para
partir. Mas Ricardinho disse a Kia que queria deixar o clube.. E não
foi o único.
A filha de Tevez estava no Pacaembu naquela
noite. Veio no colo do pai quando ele entrou em campo. Impressionado
e assustado, o argentino também arrumou as malas.
Quando
foi para a Argentina se apresentar à seleção
antes da Copa, levou quase todas as suas coisas pessoais - para
Buenos Aires. Kia começou a - oferecê-lo a clubes
europeus, como o Milan. pediu que o Manchester United o observasse
durante o Mundial.
Gustavo Nery foi outro que, assim que não
viu seu nome na lista de jogadores convocados por Carlos Alberto
Parreira para o Mundial, disse que queria ir embora. Nos jogos,
mostrava indolência e foi afastado pelo ex-treinador, Geninho.
Ao ver que longe do time estava se desvalorizando, pediu para jogar
novamente e foi aceito por Leão.
E Ricardinho? Kia havia
lhe dito que ele só sairia se arranjasse um clube que pagasse
tudo o que o Corinthians havia investido nele. Encontrou a saída
na Turquia.
Uma parte da torcida também teve culpa pelo
desânimo que se abateu sobre o grupo. A vida dos atletas passou
a ser um inferno em São Paulo. "Quando você está
ganhando, ser jogador do Corinthians é a melhor coisa do
mundo. Quando perde, é a pior. A cobrança não é
só no estádio ou no treino. É do porteiro, do
motorista de táxi, do garçom... Todo mundo te cobra",
diz Carlos Alberto. Assustados, os jogadores perderam o prazer de
defender o Timão.
A "panela"
manda
Kia nunca escondeu que tem relacionamento pessoal
com seus jogadores, em especial com Tevez e Mascherano. Também
gosta muito de Carlos Alberto, que, por sua influência direta,
passou a ser escalado como atacante em muitos jogos. O iraniano sai
com os argentinos para jantar e tem esses atletas como confidentes.
Quer saber o que se passa dentro do vestiário, o que pensam
dos técnicos (Tevez e Mascherano sempre foram consultados
sobre demissões e contratações). Natural que
isso desperte ciúmes em muita gente, como a prata da casa - os
confidentes da diretoria do clube.
Natural que esse tipo de
relacionamento de Kia com os atletas também tenha minado a
autoridade de muitos treinadores. Qualquer departamento de recursos
humanos sabe que, quando você tem um chefe em um departamento,
o fato de funcionários resolverem problemas diretamente com o
presidente da empresa, pulando um andar da hierarquia, pode
atrapalhar o ambiente.
Um exemplo prático disso foi quando
Tevez voltou da Copa e, em vez de se apresentar ao clube, foi à
Argentina resolver problemas particulares. Era semana de clássico
contra o Palmeiras, e Geninho telefonou para o argentino. Ouviu de
Carlitos que já tinha acertado tudo com Kia: ele não se
apresentaria para jogar. O técnico não sabia do acerto
com o chefão e nada pôde fazer.
Roger desafiou
treinadores mais de uma vez. Primeiro, Passarella, que o colocou na
reserva em 2005. Na partida em que o Timão foi eliminado da
Copa do Brasil ano passado, contra o Figueirense, o jogador
simplesmente foi embora do vestiário na hora da preleção!
Entrou no jogo para participar da disputa de pênaltis e chutou
o seu quase para fora do estádio. Com Geninho, aprontou
bastante. Contra o Fortaleza, 2x2, pelo Brasileirão, estava se
aquecendo entre os reservas e, ao ser chamado para entrar nos minutos
finais, passou batido pelo chefe e nem escutou as orientações.
Depois, durante um treino, comentou em voz alta, como se quisesse que
os repórteres ouvissem: "Treino com bola? Nunca vi
treinar com bola em dois períodos!"
Geninho já
havia perdido totalmente o respeito dos atletas quando se viu
obrigado a afastar Marcelinho e Mascherano depois de um
desentendimento entre ambos - o argentino deixou o chefe falando
sozinho.
Por essas e outras é :que Antônio Lopes
pegou o boné e foi embora. Estava cansado de ver os jogadores
demonstrando falta .de respeito à sua autoridade (até
Rosinei peitou o treinador na frente dos colegas, por ter perdido a
posição). Foram os próprios atletas que
intercederam junto à MSI para que Adhemar Braga assumisse o
time na Libertadores, em substituição a Lopes. Uma
amostra explícita de que o poder estava mesmo nas mãos
dos jogadores.
A Briga Pelo Trono
Kia
Joorabchian e Alberto Dualib de parceiros não têm nada.
E o racha entre a MSI e a cúpula do clube também é
responsável direto pelo péssimo ambiente no elenco. Os
dirigentes corintianos sempre exerceram forte pressão para que
os jogadores revelados no clube fossem escalados - assim seriam
valorizados e vendidos, com dinheiro depositado na conta do clube.
Por várias vezes, fizeram a cabeça dos meninos contra a
empresa de Kia e os treinadores da "Era MSI", dizendo que
eles, garotos, tinham que ser mais valorizados. Do outro lado estava
Kia, bajulando suas estrelas milionárias, despertando ciúmes
em muita gente.
E foi por causa dessa rixa entre as diretorias que
Marcelinho foi colocado dentro do elenco. O acerto que fez o jogador
retomar ao clube foi no mínimo curioso. Ele devia 8 milhões
de reais ao Corinthians, graça s a uma ação
judicial de 2001. O Timão deixou a dívida por menos de
2 milhões (metade dela é um imóvel cedido pelo
atleta e no qual viveria, sem custo, enquanto fosse jogador do
clube).
Assim, a advogada dele, Gislaine Nunes, toparia tirar o
bloqueio de todas as contas corintianas embargadas para o pagamento
de uma dívida com o atacante Luizão, a quem também
representa. Pior: o acordo incluía a obrigação
de Marcelinho fazer parte do grupo - não poderia ficar
treinando separadamente.
A MSI tentou o quanto pôde evitar
isso, já que Kia sabia por seus jogadores-confidentes que
ninguém engoliria a volta de Marcelinho. Dualib bateu o pé
e viu no camisa 77 a chance de alguém rivalizar com Tevez
(símbolo da -"Era Kia" e que mal fala com o
presidente) no coração da torcida. Seria também
a chance de preparar terreno para Dualib expulsar a MSI e retomar o
controle do futebol.
Marcelinho ficou pouco tempo e levou 1 milhão
de reais na rescisão.
O Conto da
Parceria
Londres, fim de 2004. Um homem que trabalha
para a Fifa e para a CBF, além de ser empresário de
Pelé, oferece a um investidor um dos maiores clubes da América
do Sul por "míseros" 20 milhões de dólares
(quatro vezes menos que o valor pelo qual acaba de ser vendido o
Aston Villa, da Inglaterra). A reação de Kia
Joorabchian à proposta de Renato Duprat: "Vou fazer o
negócio da China!"
Mal sabia que os vendedores, na
verdade, queriam mesmo era sanar as dívidas do clube, no valor
de 20 milhões de dólares. Ter um time forte e depois
dar um "bico" nos investidores, como já haviam feito
com o fundo norte-americano Hicks Muse, Tate & Furst seis anos
atrás.
Dualib esperava que Kia fosse uma espécie de
Dick Law, o representante da Hicks.
Alguém que não
entendesse nada nem gostasse de futebol, que tivesse o Corinthians
como parte de grandes investimentos mundo afora (e, portanto, que
olharia para ele com menos atenção e iria embora sem
traumas).
Mas descobriu em Kia um sujeito carismático, que
tinha no trato com os jogadores e a torcida seu maior prazer.
Dualib
já percebeu que não será fácil dar adeus
aos investidores da MSI, gente do Leste Europeu e de Israel que não
está no Corinthians para perder tempo.
A MSI contratou um
dos maiores escritórios de advocacia comercial e contábil
do Brasil, a Veirano Associados, para elaborar o contrato, que ficou
muito bem amarrado.
Dualib diz, por exemplo, que sem a assinatura
dele nenhum atleta pode ser vendido a não ser pelo clube (na
Fifa e na CBF, só clubes são reconhecidos como donos
dos direitos federativos dos atletas). Por isso, afirma o cartola, a
MSI pode ir embora que o Corinthians ficaria com os craques,
exatamente como aconteceu com a Hicks. Mas o contrato MSI
-Corinthians prevê que o clube é obrigado a assinar a
liberação de qualquer atleta que a empresa queira
negociar. Ou seja: se Dualib negar-se a assinar uma liberação,
a Justiça pode obrigá-lo.
No começo do ano, o
cartola encomendou um estudo a um escritório de advocacia para
saber como se livrar da MSI. A resposta foi: "Esqueça."
O contrato, de dez anos de duração, tem multa
rescisória de 25 milhões de dólares.
Dualib
também brada que nas divisões de base do Corinthians
ninguém mexe. Só que, no contrato de parceria, está
bem claro que a empresa também é dona desse pote de
ouro. Por que a MSI ainda não pôs o dedo nessa área?
É questão de tempo...
A saída do Corinthians
tem sido adotar táticas de guerrilha. Por exemplo: mandar
cartinhas ao Clube dos 13 para que depositem o dinheiro das cotas de
TV - uma receita que é da MSI, como todas as demais receitas
do futebol – nas contas do clube e não mais nas contas
da empresa. Tentou fazer o mesmo com os patrocinadores, sem sucesso.
É nesse tipo de braço-de-ferro que se baseia essa
estranha parceria
Kia: Impulso
Consumista
Foram três goleiros em oito meses
trazidos só neste ano: Silvyo Luiz, Johnny Herrera e Bruno (e
o garoto Marcelo jogou a maior parte do ano...). Ricardinho, com
salário de 270.000 reais, chegou para um elenco que já
tinha Roger, Carlos Alberto, Rosinei e Élton e acertava as
vindas de Ramón e Renato do Atlético Mineiro.
Kia é
um sujeito impulsivo na hora de fazer negócios. Telefona para
Luiz Felipe Scolari, com quem costuma conversar, ouve o treinador
elogiando Geninho, e pronto: no dia seguinte oferece 350.000 reais ao
técnico que estava empregado no Goiás, com direito a um
bom adiantamento.
Um empresário diz a ele que tem nas mãos
“o maior zagueiro do futebol argentino” (Sebá), e
o iraniano não pensa duas vezes em assinar um cheque. Outro
agente, seu amigo, diz que pode lhe dar a melhor promessa de goleiro
da América do Sul (Johnny Herrera), de graça, e Kia não
vacila ao contratar – e ao “recomendar” ao técnico
que o observe durante os jogos.
Antes de Leão, os técnicos
pouco opinam nas contratações. Ricardinho chegou
porque, numa conversa com Tevez, o iraniano ouviu do argentino que o
meia era o melhor jogador do futebol brasileiro e que, com ele, a
equipe campeão de 2005 ficaria imbatível.
É
assim o “planejamento” da MSI. Contratar zagueiros, a
posição mais carente deste elenco, ainda não fez
a cabeça do investidor.
Kia passou meses na Europa por
vários motivos. Tinha de arrumar compradores para suas
estrelas, seu pai estava com câncer, tinha de prestar conta aos
investidores (descontentes com tanta gastança sem resultados),
além de ter residência em Londres. Depois do
deslumbramento inicial, também estava cansado da bagunça
corintiana. .
Deu um tempo para ver como as coisas andariam sem
ele - mas acompanhou tudo por telefone. Deixou Dualib brincar de
mandar novamente, e o presidente do clube "cresceu". O
cartola de 86 anos vinha sendo informado das novidades no futebol
apenas pela imprensa (uma espécie de punição da
MSI desde que, na visão da empresa, atrapalhou negócios
como a compra de Vágner Love, por "falar demais").
Sem Kia na área, Dualib conseguiu até mesmo algo que
parecia improvável: escolher um técnico (Leão),
mesmo não sendo o nome que mais agradava à MSI. Leão
recebeu a promessa de que terá autonomia. Mas a promessa foi
feita por Dualib. Resta saber como será a vida do treinador
quando a MSI resolver reassumir o comando do futebol alvinegro.
Em
dezembro vence o contrato de Mascherano com o Corinthians (o mesmo
prazo do contrato assinado por Tevez). Com a MSI, os jogadores teriam
mais três anos de compromisso. Até janeiro, Kia estuda
se vai embora com eles ou fica para recuperar o que já
investiu. A segunda opção é a mais provável
atualmente.
A ERA LEÃO
Ao
assumir o Corinthians, Leão adotou uma postura diferente da de
seus últimos antecessores. Fez o chamado "choque de
gestão", termo em moda na política. Primeiro,
telefonou para Geninho (seu amigo) e obteve as informações
sobre o grupo. Ao chegar, quis mostrar quem manda. Em sua estréia,
escalou um zagueiro que era esquecido por Geninho até do
banco: Marinho; Roger, que também não estava jogando,
foi "ressuscitado"; a braçadeira de capitão
ficou com Betão (que nem vinha atuando como titular) - Leão
disse que não entendia o que Tevez falava e, por isso,
precisava ter outro representante em campo. O técnico ainda
levou o time para um retiro no interior de São Paulo (prática
que sempre desagrada os atletas) e fechou os treinos para a imprensa.
Os técnicos que tiveram o tal "pulso firme" com esse
time tiveram ótimos começos, como Passarella e Antônio
Lapes. Mas acabaram derrubados pelos jogadores. O -grupo - já
mostrou que prefere um Márcio Bittencourt a um Leão. E
esse é o maior desafio do treinador. A outra dúvida que
fica é como será a reação de Leão
quando (ou se) Kia resolver reassumir o comando que é dele por
contrato.
(Revista Placar. São Paulo: Ed. Abril, Setembro/2006, edição 1298, pp. 1, 38 a 46)