Jovens da Argentina, via Brasil e uma secreta companhia financeira offshore
Uma história
do futebol moderno: estrelas de aluguel, empresários, agentes
e espertalhões
Ian
Cobain, Paul Kelso and Tom Phillips
Quando dois
dos mais novos e talentosos jogadores de futebol do mundo despontaram
no túnel do Upton Park no último fim de semana, a
multidão do estádio quase lotado poderia ter sido
perdoada por pensar que estavam se divertindo com alguma versão
do futebol de fantasia na vida real.
Num determinado sentido,
estavam certos: Carlos Tévez e Javier Mascherano, estrelas do
selecionado argentino na Copa do Mundo de 2006 tinham sido adquiridos
do Corinthians, gigante do futebol brasileiro, poucas horas antes de
ser realizada sua transferência. O West Ham, mais tarde deixou
vazar que não pagou um único centavo pela dupla de
jogadores. Deve ter ido além do sonho mais extravagante de
qualquer fã do West Ham.
Por outro lado, a maneira com que
Tévez e Mascherano foram apresentados na região E13 de
Londres não teve nada a ver com fantasia. Era um negócio
embasado firmemente na nova realidade do futebol de grandes lances,
em um contrato de propriedade de milhões de libras e na
exploração dos direitos de imagem dos jogadores, por
agentes todo-poderosos e por oligarcas russos.
É também
uma nova realidade de transações financeiras
impenetráveis e, em alguns casos, de acusações
de lavagem de dinheiro.
O The Guardian descobriu que a companhia
que possuía previamente ambos os jogadores e que estava
vinculada a uma proposta de assunção de controle do
West Ham, está sendo investigada após um inquérito
que apura lavagem de dinheiro.
A MSI, uma subsidiária de
uma empresa secreta de investimentos, registrada nas Ilhas Virgens
Britânicas, está sob investigação depois
que assumiu o controle do clube SC Corinthians Paulista, em dezembro
2004.
Um relatório preparado pelo escritório da
Procuradoria do Estado de São Paulo, após investigação
por agentes da Força-Tarefa contra o Crime Organizado e do
serviço de Inteligência, Agencia Brasileira de
Inteligência (ABIN), alega que "existem índicios
suficientes para mostrar que a parceria MSI-Corinthians está
sendo usada para lavagem de dinheiro".
O
EMPREENDEDOR
Poucos sabem as identidades dos indivíduos
fornecedores do suporte financeiro que permitiu que a MSI alugasse o
Corinthians em um negócio de 10 anos e, então,
comprasse algumas das mais brilhantes promessas de jogadores do
continente. Nem se tem as identidades de todos os que deram o suporte
financeiro à proposta de compra dos Hammers, por um valor
entre £80 milhões e £100milhões de libras,
conforme se tornou público.
Entretanto, o relatório
do Procurador Geral de São Paulo, que foi obtido pelo The
Guardian, informa que uma parte do dinheiro que está sendo
deliberadamente lavada através do Corinthians, era
"principalmente de Boris Berezovsky".
O Sr. Berezovsky,
um matemático transformado em empreendedor, é apenas um
dos pequenos, porém intrigantes, indivíduos ligados ao
extraordinário negócio de transferências de
capitais com subseqüente proposta de compra.
O grupo inclui
um outro, assim chamado “oligarca”, que assumiu o
controle de recursos oriundos de privatizações do
governo russo, na barganha de preços, durante os dias caóticos
da desestatização na Rússia; um agente israelita
do futebol com influência global; e um empresário
iraniano criado em Kent.
O Sr. Berezovsky foi o personagem mais
rico e mais poderoso da oligarquia até que Vladimir Putin se
voltasse contra ele, logo após a sua eleição
como Presidente, em março de 2000. Desde então, o
empresário tem vivido exilado no Reino Unido, dividindo seu
tempo entre sua cobertura de Mayfair e sua grande propriedade de
Surrey.
As autoridades russas acusaram-no de tentar um golpe de
Estado. Todas as tentativas de extraditá-lo para ser julgado
falharam, porque lhe foi concedido asilo político, durante uma
investigação da Scotland Yard sob a alegação
de que o SVR, um dos sucessores da KGB, estava tramando assassiná-lo
com uma caneta tinteiro cheia de veneno.
Ele sempre negou as
irregularidades de que era acusado, dizendo que agiu dentro da
estrutura legal da época e que todas as acusações
contra ele são politicamente motivadas.
O Sr. Berezovsky
obteve recentemente passaporte britânico sob o nome de Platon
Elenin, que parece ter sido escolhido inspirado no personagem
principal de um filme vagamente baseado na sua vida. Ele não
pode, entretanto, retornar à seu país natal, porque lá
há grandes chances de que ele passaria o resto de seus dias em
uma prisão na Sibéria.
Um outro homem que está
sendo ligado à proposta ao West Ham, é Badri
Patarkatsishvili, velho amigo do Sr. Berezovsky, ex-oficial do
Partido Comunista da Geórgia. Os dois apareceram durante os
anos 1990, e compraram empresas de alumínio e petróleo,
sub-avaliadas na era Soviética, das quais formaram uma
corporação enormemente lucrativa. Hoje o Sr.
Patarkatsishvili, de 50 anos, possui também o clube de futebol
Dinamo Tbilisi. Ele faz, ocasionalmente, viagens de negócios a
Londres, mas gasta a maior parte de seu tempo em seu palácio
em Tbilisi, capital georgiana, onde vive cercado de seguranças.
E nunca se arrisca a ir à Rússia, onde enfrenta
demasiadas acusações por fraude, que ele diz terem só
motivação política.
Uma figura chave na
história do West Ham parece ser Pini Zahavi, um misto de
jornalista e agente israelita, que se tornou uma das figuras mais
influentes no esporte inglês.
O Sr. Zahavi tem estado por
trás das maiores transferências no futebol inglês,
inclusive das transferências milionárias de Rio
Ferdinand, do West Ham para o Leeds e depois para o Manchester
United.
Enquanto sua influência foi crescendo, ele foi
ajudando em negócios de corretagem para diversos clubes:
esteve fortemente envolvido no episódio do Chelsea, de Roman
Abramovich, e ajudou a um outro russo, Alexander Gaydamak, na compra
do Portsmouth. Ele diz que esteve envolvido na transferência de
Tévez e de Mascherano para o West Ham, mas nega fazer parte de
qualquer negócio para assumir o poder no clube.
A única
pessoa que admite ter dado uma mão nesse assunto é Kia
Joorabchian, de 35 anos, cuja família fugiu do Irã para
Kent, Inglaterra, após a revolução islâmica
em 1979.
Um homem que tem dois passaportes, um britânico e
um canadense, e que apresenta duas datas de nascimento diferentes na
Companies House (http://www.companieshouse.gov.uk),o
Sr. Joorabchian diz que renunciou à presidência da MSI
há algumas semanas atrás e que possui agora os
contratos de Tévez e de Mascherano em caráter
pessoal.
Ele decididamente recusa dizer quem financiou a companhia
e sua parceria com o Corinthians, levando os Procuradores brasileiros
a se queixar em seu relatório que “ele estava tentando,
a todo custo, esconder da investigação, os negócios
e a identidade das pessoas envolvidas nas transações".
É igualmente esquivo sobre seus apoiadores na proposta do West
Ham, indicando um hoteleiro israelita, mas declinando identificar
outros.
O Sr. Joorabchian nega que o Sr. Berezovsky ou qualquer
outro investidor russo esteja por trás da proposta; O Sr.
Berezovsky diz que seu único interesse em futebol é
como espectador, e nega qualquer participação na MSI,
no Corinthians ou no West Ham.
Os advogados da MSI dizem que a
investigação brasileira está enraizada em
rivalidades políticas dentro do Corinthians, e que o Sr.
Joorabchian não foi investigado pessoalmente: "o
escritório da Procuradoria Nacional Brasileira manteve o caso
aberto, mas, até a presente data, não tem nenhuma
evidência ou nenhuma prova de qualquer irregularidade ou de
lavagem de dinheiro a respeito dos negócios da MSI no
Brasil."
O Sr. Joorabchian e o Sr. Berezovsky também
negam categoricamente as alegações de lavagem de
dinheiro que estão sendo veiculadas em São Paulo. O
porta voz do Sr. Berezovsky disse que as polícias brasileiras
mostraram que não estavam interessadas nele, quando foi
liberado de ser indiciado, após ter sido detido e interrogado
no Aeroporto Internacional de São Paulo, este ano.
Na
Rússia, entretanto, poucos se esqueceram do papel do Sr.
Joorabchian nas manobras financeiras que viram o Sr. Berezovsky obter
o controle do Kommersant, um dos jornais mais influentes da era
pós-soviética. Em 1999, com 28 anos, o Sr. Joorabchian
comprou 85% do jornal através de uma companhia registrada nos
escritórios das Ilhas Virgens Britânicas. Diz-se ter
dado garantias de que não estava agindo em nome de outro.
Meses depois, o jornal tinha passado para as mãos de Sr.
Berezovsky.
O Sr. Joorabchian disse que foi o último
negócio que fez com Berezovsky. O russo informou que o Sr.
Joorabchian não estava agindo como seu testa-de-ferro, e que
nem o faria. Alguns duvidam, o Sr. Berezovsky é um empresário
que gosta de manter suas cartas sob seu rígido controle. "É
quase sua marca registrada", diz um observador em
Moscou.
REGULAMENTO FROUXO
Depois que Berezovsky
negou primeiro o envolvimento nos negócios da MSI com o
Corinthians, o Sr. Patarkatsishvili “tirou o gato para fora do
saco”, quando disse a um jornalista no ano passado: "nós
investimos em um clube de futebol maravilhoso no Brasil, o
Corinthians. Nós investimos na equipe brasileira com Boris
Berezovsky" O dinheiro, ele acrescentou, "tem o maravilhoso
hábito de fluir onde se sente confortável". O Sr.
Patarkatsishvili não é assunto de nenhum inquérito.
O
Sr. Berezovsky repetiu suas negações, insistindo que
seu amigo e ele estariam somente interessados na construção
de um estádio em São Paulo. Entretanto, a investigação
brasileira está em andamento, e agora, muitos estão
querendo saber se ele está por trás da oferta do West
Ham.
Se o Sr. Berezovsky estiver envolvido, estaria juntando um
grupo crescente de investidores estrangeiros tentados pela combinação
do futebol inglês, de dinheiro fácil, glamour e de uma
legislação frágil. É uma mistura que
atraiu o Sr. Abramovich e o Sr. Gaydamak. O americano Malcolm Glazer
estava contraindo uma enorme dívida para comprar o Manchester
United, enquanto um segundo magnata americano, Randy Lerner, havia
acabado de comprar o Aston Villa.
A maior parte do dinheiro vem da
TV: de qualquer forma a Primeira Divisão inglesa (Premier
League), fundada há 14 anos, tem conseguido um sucesso
estonteante, brilhando em uma era de riqueza sem precedentes no alto
esporte bretão. Patrocinado com dinheiro da rede Sky, de
Rupert Murdoch, a Liga se transformou em fenômeno global da
TV.
No início deste ano, a Liga firmou um novo contrato com
Sky e com a estação via satélite rival, a
Setanta, que vai dar £1.7bilhões aos clubes em três
anos, um aumento de 66% no contrato já existente. O valor
total dos direitos estrangeiros e os novos negócios de
tecnologia estão garantidos e espera-se alcançar
£2.5bilhões, fortuna que faz mesmo um clube de médio
porte, tal como o West Ham, se tornar um enorme atrativo para os
investidores estrangeiros.
ABERTURA DE FORTUNA
O
clima febril da Primeira Liga também ajudou a criar condições
favoráveis aos investidores. Com a chegada da fortuna ao topo,
e com as cifras crescendo o tempo todo, os patrocinadores sabem que
somente com muito dinheiro podem mudar a situação,
então estão cada vez mais despreocupados sobre a origem
do capital.
Um outro atrativo aos investidores no West Ham são
os Jogos Olímpicos de 2012. Espera-se que os Jogos transformem
o leste de Londres, e que num período de seis anos, exista não
somente, um Parque Olímpico, um Shopping Center e um novo
condomínio residencial, como também um novo estádio
com capacidade para 80.000 lugares sentados, os quais os torcedores
do West Ham estariam ansiosos em ocupar.
Outra razão para o
Sr. Berezovsky estar sendo atraído para o clube pode estar no
fato de seu relacionamento com o Sr. Abramovich, que foi inicialmente
seu protegido e passou a ser seu sócio no maior esquema de
privatizações, há 10 anos atrás, o qual
viu a criação da Sibneft, uma companhia petrolífera
russa.
Depois que Putin, há seis anos, cerceou muitos dos
principais empresários da Rússia, numa tentativa de
recuperar o Estado Russo das mãos da oligarquia, ele visou
primeiramente o Sr. Berezovsky, o mais rico e mais poderoso de todos
eles. A partir desse ponto, o Sr. Abramovich parece tê-lo
tirado do jogo e colocado de lado a cada momento o seu ex-mentor.
O
Sr. Berezovsky foi inicialmente forçado a se exilar e a
vender, sob pressão, muitos de seus bens ao Estado russo.
Hoje, estima-se que seu patrimônio recente esteja abaixo dos
£800milhões. O proprietário do Chelsea, por outro
lado, continua com um bom contato com Putin, está próximo
dos prováveis sucessores do presidente russo e passa grande
parte do seu tempo em Moscou. Ele está fechando a mão
do dinheiro. E desde a compra de seu clube de futebol do leste
londrino, deixou sua marca na área cultural de outra nação
de uma maneira que mostra adulação e, talvez,
segurança.
Assim, algumas pessoas em Moscou estão
questionando, se Berezovsky poderia estar comprando os rivais do
extremo leste do Chelsea simplesmente para intranqüilizar
Abramovich?
Estamos nós prestes a testemunhar o futebol
como uma “briga de rua” moscovita com um outro
significado?
The Guardian
(The Guardian, http://football.guardian.co.uk/News_Story/0,,1872025,00.html, 14/09/2006)