Quando
o jovem Kia Joorabchian convocou uma coletiva de imprensa para se
fazer conhecer como o novo proprietário do Kommerssant
em 1999, ele enfatizou que não tinha nenhuma ligação
com Boris Berezovsky.
Esta semana, o empreendedor iraniano-inglês
anunciou uma proposta de ₤100 milhões de libras (US$ 190
milhões de dólares) pelo time de futebol inglês
West Ham United. Novamente, ele negou ter laços com
Berezovsky.
Porém, durante estes 7 anos que se passaram
entre os dois eventos, Berezovsky e ele foram sócios.
Como
Presidente da Media Sports Investment – MSI, empresa
sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, Joorabchian, em 2004,
comprou o time de futebol brasileiro Corinthians, em sociedade
com Berezovsky e com seu sócio de longa data Badri
Patarkatsishvili.
“Nós investimos em um maravilhoso
clube de futebol brasileiro: Corinthians. Investimos no time
brasileiro com Boris Berezovsky”, disse Patarkatsishvili ao
jornal britânico Observer no mês passado –
antes que Joorabchian tornasse pública a sua proposta ao West
Ham.
Ainda na terça-feira, Berezovsky negou o
vínculo.
“Eu não tenho nenhum interesse em
investir em futebol, eu me interesso em futebol como diversão”,
disse ele de Londres, por telefone.
Berezovsky e Patarkatsishvili
foram vistos no meio da multidão, domingo durante o jogo
Brasil e Argentina em Londres, ao lado de outro sócio de
Berezovsky, Neil Bush, irmão do Presidente dos Estados Unidos,
George W. Bush.
Eles assistiram aos dois novos contratados do West
Ham, Carlos Tevez, 20 anos, e Javier Mascherano, 22 anos. As
estrelas que, com suas performances na Copa do Mundo na Alemanha,
atraíram interesse de um grande número de importantes
clubes de futebol, juntaram-se ao West Ham no mês
passado sob um acordo nada convencional negociado por Pini Zahavi,
agente de futebol israelense.
Eles jogaram na Premier League na
Inglaterra, mas continuam sob o controle da MSI. Os jogadores
foram, segundo notícias, transferidos por uma taxa de ₤1
milhão de libras, enquanto a MSI irá tirar
proveito de seus direitos, quando eles forem vendidos para outro
clube.
Patarkatsishvili confirmou, através de seu
porta-voz, que Tevez e Mascherano eram controlados pela MSI e
que seriam transferidos, de acordo com a vontade da empresa. Para
comprá-los o West Ham precisaria pagar ₤ 40
milhões de libras. Por hora, eles estão efetivamente
emprestados ao clube.
Joorabchian se recusou a revelar quem são
os investidores que estão por trás da proposta feita ao
West Ham, um clube do leste de Londres, com uma torcida grande
e fiel. Ele insiste que nem Berezovsky, nem Patarkatsishvili (que,
como proprietário do Dynamo Tbilisi, clube georgiano,
está proibido pelo regulamento da FIFA de possuir outra
agremiação), estão por trás da
oferta.
“Eu não estou mais com a MSI, mas o
Pini, o Badri e o Boris Berezovsky não estão
envolvidos. Eles são aliados e amigos, mas não são
parceiros nos negócios”, disse Joorabchian em um e-mail
enviado pelo seu assessor de imprensa Phil Hall.
Joorabchian disse
que seus investidores são “principalmente do Oriente
Médio. ... Foi insinuado que eles eram investidores russos,
mas isso não é verdade”.
O problema para
Joorabchian é que, poucos na Inglaterra ou em qualquer outro
lugar, sabem quem são seus misteriosos investidores, levando
muitos a suspeitar que Berezovsky e Patarkatsishvili estão de
algum modo novamente envolvidos.
A existência de conexões
recentes de Joorabchian com o Oriente Médio não foi
comprovada.
Ral Shakirov, que era o editor chefe do Kommersant
quando Joorabchian foi apresentado como o novo proprietário
do jornal em 1999, disse não ter nenhuma dúvida que o
Iraniano era “um testa-de-ferro”.
“Ele agia como
uma pessoa sob o comando de outra, destas pessoas que preferem
permanecer nos bastidores”, disse Shakirov na terça-feira.
“Estava claro desde o início que Berezovsky estava por
trás disto”.
Joorabchian encontrou-se primeiro com a
diretoria do Kommersant, em Los Angeles, enviando um jatinho e
uma limosine ao aeroporto para levá-los ao The Beverly
Hills Hotel. Lá, ele tinha reservado um andar inteiro,
embora a única outra pessoa presente fosse outro empresário
do Oriente Médio.
“Esta não é a forma
como um novo proprietário cumprimenta seus empregados”,
disse Shakirov. “Ele se apresentou como bem-sucedido, mas
parecia amarrado, afinal, você quer saber um resumo do
histórico do homem, quem foi seu instrutor e quem o
promoveu”.
No encontro de Los Angeles, Joorabchian disse à
diretoria do Kommersant que sua família se enriqueceu
como tantas outras de industrialistas iranianos, com recursos
próprios. Ele também alegou representar investidores do
Ocidente no negócio com o Kommersant, dando aos
editores do jornal o nome e o endereço de uma empresa
registrada em Nova Iorque.
Na verdade, o pai de Joorabchian
administrava uma concessionária de carros no Sul da
Inglaterra.
Como todos os bons jornais, o Kommersant confere
suas próprias publicações.
“Não
tinha prédio algum no endereço de Nova Iorque, ... e
nós não encontramos nenhum registro sobre os bens do
iraniano”, disse Shakirov. “Com Joorabchian, você
não garante nada”.
Quando Joorabchian apareceu no
escritório do Kommersart, Berezovsky descreveu-se como
um cortês perdedor para Joorabchian na batalha pelo
Kommersant.
“Assim são as regras do mercado”,
disse ele ao The Moscow Times, naquele momento.
Shakirov
disse que a influência de Berezovsky foi sentida no jornal
antes mesmo que o oligarca se tornasse seu proprietário
oficial. Joorabchian reclamou de um artigo atacando o Primeiro
Ministro Yevgeny Primakov; a primeira coisa que Berezovsky disse aos
funcionários do Kommersant depois da compra do jornal
foi que ele não gostaria que Primakov se tornasse o próximo
Presidente.
“Berezovsky nunca comprou uma empresa
diretamente. Ele sempre quis manipular os negócios, para poder
esconder os fatos”, disse Shakirov. “Somente se a
liderança paralela não funcionasse, é que
Berezovsky compraria diretamente a empresa”.
Shakirov foi
despedido quando Berezovsky assumiu.
Na terça-feira,
Joorabchian recordou o Kommersant “com sentimentos
confusos”.
“Foi um grande negócio e eu adoraria
tê-lo comprado, mas como você sabe, pensei que eu seria o
proprietário após entrarmos em um acordo, mas não
deu certo”.
Joorabchian disse que ele “saiu de cena e
se afastou”.
Examinando bem, os negócios de
Joorabchian no ramo de futebol começaram depois que a MSI
comprou o Corinthians, time brasileiro.
A MSI
comprou Tevez para um Corinthians enfraquecido por US$20
milhões de dólares, um recorde brasileiro. Sob a
administração da MSI, a reviravolta do clube foi
de 500 %, disse Joorabchian.
A Polícia Federal brasileira
informou que há suspeitas de que o clube esteja sendo usado em
um esquema de lavagem de dinheiro.
A primeira proposta de
Joorabchian de ₤ 70 milhões de libras pelo West Ham,
no ano passado, foi rejeitada depois que o clube questionou quem
estava por trás dela.
Em maio, os promotores brasileiros
interrogaram Berezovsky por diversas horas no Aeroporto
Internacional, em São Paulo, sobre sua ligação
com a MSI, a qual através da filial MSI Brazil
comprou o Sport Club Corinthians Paulista.
Isto
aconteceu, esclareceu Berezovsky, porque ele teria oferecido colocar
dinheiro para construir um estádio no clube.
Na Inglaterra,
os registros dos negócios de Joorabchian também estão
sendo investigados.
De acordo com pesquisa feita pelo Jornal
Daily Mail, a maioria dos negócios de Joorabchian
registrados na Inglaterra dá prejuízo e nenhum é
lucrativo suficiente ou grande o bastante para sugerir que
Joorabchian tenha os recursos para bancar sua proposta de comprar um
clube.
Nesta semana, Richard Caborn, Ministro dos Esportes
britânico, pediu ao governo, para investigar quem estava por
trás dos times de futebol do país, ao menos de dois que
são de propriedade de russos, o Chelsea, de Roman
Abramovich, e o Portsmouth, de Alexander Gaidamak.
Qualquer
transferência de jogadores ou acordo sobre a administração
“tem que ser o mais aberto e transparente possível”,
disse na quarta-feira, Anthony Wright, porta-voz do Departamento de
Cultura, Mídia e Esporte do Governo, por telefone de Londres.
“Este é um princípio que não se aplica
neste caso”.
O que tem causado uma tempestade na imprensa
britânica é “a legitimidade do dinheiro”,
disse Harry Philp, diretor administrativo do Hermese Sports
Partners, uma consultoria financeira de esportes, sediada em
Londres.
“Desde que eles sejam empresários
respeitáveis” a reação na Inglaterra não
será negativa, disse Philp.
“Agora é tempo de
comprar, com o novo negócio dos direitos de TV poderão
se elevar os ganhos dos clubes da Premier League em um terço”,
acrescentou.
Sob a cobertura da mídia, Patarkatsishvili tem
falado sobre o seu interesse nos clubes de futebol do país.
“Eu
tenho um punhado de investimentos no setor futebolístico que
estou relutante em mencionar, eles estão em fase de
finalização... Eu investi nesses clubes de futebol com
amigos”, disse Patarkatsishvili ao The Observer, em 28
de agosto.
Ele não quis comentar se entre eles estava
incluído o West Ham.
Uma semana depois, em face de
uma tempestade da mídia Patarkatsishvili negou, através
de seu porta-voz, que tivesse alguma ligação com a
proposta ao West Ham, dizendo somente que estava “próximo
a pessoas que estavam pensando sobre a compra desse clube”.
Num
artigo publicado no jornal britânico Telegraph, na
quinta-feira, Patarkatsishvili é revelado como o beneficiário
final da MSI Holdings, que comprou a MSI Brazil, e tem
100% dos direitos sobre Tevez e 50% sobre Mascherano. A outra metade
é detida pela Global*, empresa de mídia.
Joorabchian
disse que ele deixou a MSI em agosto passado, antes de ter
feito sua última oferta pelo West Ham, mas manteve “um
interesse” em Tevez e Mascherano.
Berezovsky disse que não
se surpreenderia se Joorabchian estivesse fazendo uma oferta.
“Ele
é um homem independente bem sucedido, excepcionalmente
talentoso e inteligente”, disse Berezovsky.
Ele acrescentou
que havia alertado Joorabchian sobre sua proposta, da mesma forma que
havia advertido Abramovich, em 2003, sobre a compra do
Chelsea.
Depois do intenso interesse da mídia sobre
a última semana, Berezovsky reconheceu que o futebol inglês
era uma arena de perfil muito elevado para seu amigo se envolver.
“O
futebol na Inglaterra é uma imensa ferramenta social e
política”, disse Berezovsky.
The Moscow
Times
(Moscow Times, http://www.themoscowtimes.com/stories/2006/09/08/003.html, 08/09/2006)
(*)Nota do tradutor: O jornal cita, equivocadamente, TV Globo, quando na realidade é a empresa Global, uma espécie de MSI que opera em Portugal, na Argentina e no Brasil.