Notícias
– 07/09/2006
Falta estratégia ao Corinthians
Raul
Corrêa da Silva*
o
clube esquece que talento deve ser aliado à hierarquia
Mais
uma vez o maior clube do Brasil está no centro das discussões
e, novamente, pelos mesmos motivos. Com toda sua grandeza de quase
100 anos - podemos contar nos dedos as companhias nacionais com
trajetória centenária -, o clube padece por outra
estranha parceria financeira. Seu maior talento, com mais potencial
para produzir lucros, foge para a Argentina. O CEO responsável
pela parceria julga ser possível gerenciar à distância,
enquanto o presidente que terceirizou a administração
do futebol dá demonstrações públicas de
poder.
Nos resta a dúvida: o que falta para uma
companhia chegar ao esplendor se ela conta com invejável
reserva financeira e potenciais raros na concorrência? A
resposta está no que sempre cobramos do futebol, do País
e das pequenas e médias empresas: planejamento, visão
de futuro, estratégia. Como fazer parceria bem- sucedida se
seu próprio estatuto não é respeitado em sua
essência e não se adota a lógica da alternância
de poder - em mais da metade de sua história, teve apenas
quatro presidentes?
O clube buscou acordo com um fundo de
investimentos sem se respaldar com preceitos de governança
corporativa. Foi incapaz de cotizar seus mais de.25 milhões de
admiradores Brasil afora, por meio de jogos amistosos e promoções
envolvendo outros de seus patrocinadores. Comemorou o aporte
financeiro de milhões de dólares, mas deixou de sanear
suas finanças e buscar a visão imparcial de uma
auditoria externa, ignorando o bom exemplo da Espanha, cujos clubes
reverteram um cenário de dívidas vultosas e dependência
de receitas de TV.
Onde
estão os recursos para atrair um parceiro de peso, uma equipe
qualificada, torcedores no estádio, um título
brasileiro?
Mesmo sem títulos,
o Real Madrid faturou em publicidade mais de € 55 milhões,
o licenciamento de produtos gerou cerca de € 60 milhões.
O que fez o Corinthians ? Tomou-se refém de um fundo de
investimentos que, por sua vocação, tem como
preocupações o lucro e o retorno do investimento. Onde
estão os recursos que o clube poderia atrair com um parceiro
de peso, uma equipe qualificada, torcedores no estádio, um
título brasileiro? Cadê o plano de carreira para
alavancar jovens promessas e integrá-las a um grupo de
craques? Surgiram novos produtos estampados com a marca
alvinegra?
Como muitas corporações, o
Corinthians esqueceu que talento deve ser combinado com hierarquia. O
que o clube poderia imaginar ao ganhar o apoio de um fundo de
investimento? Amor à camisa? Ações movidas pelo
paternalismo? O iminente afastamento do CEO desta multinacional, por
clara falta de resultado, revela justamente o contrário.
Grandes companhias têm no gestor de crises um porta-voz. Já
na empresa Corinthians, com as derrotas em massa, muitos
vice-presidentes lançaram-se em discursos laudatórios,
superlativos e inconsistentes. Todos falam, mas ninguém assume
responsabilidades.
Qual a visão, missão e
valores do clube? Uma empresa discutiria esses aspectos, faria
revisões e convocaria seus estrategistas. Por meio de uma
ampla reunião com seu parceiro, definições e
responsabilidades seriam viriam à baila, de forma
transparente. Como companhia de abrangência nacional, o clube
planejaria uma exploração mais adequada de seus
ex-atletas, levando-os a viagens interestaduais ou pelo continente.
Daria um grande exemplo de preservação histórica
e ainda divulgaria sua marca, atraindo novos torcedores. Um ponto de
venda itinerante percorreria o País, comercializando produtos
vinculados à tradição do clube.
Ética,
transparência, definição clara de funções
de comando, marketing forte e adaptado à realidade nacional.
São condições para um trabalho profissional.
Planejar é tarefa árdua? Leva tempo para gerar
resultados? Sim, mas somente na ordem alfabética do dicionário
sucesso vem antes de trabalho.
* Diretor da RCS Auditoria e
Consultoria
(Gazeta Mercantil, Opinião, 07/09/2006, p. A-3)